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Correio Braziliense ANDANÇAS

Road Trip na América do Sul, segredos e belezas das estradas latinas

Viajar pelos países vizinhos de carro é ter a certeza de que encontrará na estrada muita aventura, belíssimas paisagens e um povo caloroso


postado em 21/02/2018 20:00 / atualizado em 22/02/2018 17:04

“Deus salve a América do Sul 
Desperta, ó claro e amado sol...
Essa terra morena, esse calor
Esse campo, essa força tropical...”

(Ney Matogrosso, em América do Sul)

Próximo destino: América do Sul
 
Ruta das sete lagoas, Argentina(foto: Felipe Manfroi/Arquivo Pessoal)
Ruta das sete lagoas, Argentina (foto: Felipe Manfroi/Arquivo Pessoal)

Muito se escuta sobre mochilão na Europa ou sobre pessoas que cruzaram os Estados Unidos pela Rota 66, mas não precisa ir muito longe para viver uma experiência parecida na América do Sul. O nosso continente guarda belezas únicas que só uma viagem pela estrada pode proporcionar. Conhecer cada cidadezinha que fica ao longo das grandes rodovias, saber um pouco mais sobre a cultura dos moradores e desbravar paisagens encantadoras é o que o turista pode esperar de uma road trip pelos países vizinhos ao Brasil.

Existem diversas rotas para explorar a América do Sul. Falar em uma road trip é definir escolhas pessoais e condições de cada um. Há quem sonhe em visitar as principais vinícolas, outros que esperam ver o litoral, ou os que querem subir as montanhas, conhecer as principais cidades ou aquelas sobre as quais nunca se ouviu falar. O que todas as opções de destinos e rotas têm em comum é a grande bagagem cultural que os locais podem oferecer.

Planejar uma viagem de grande porte requer organização. É preciso se familiarizar com os destinos, estradas, locais de hospedagem e calcular quanto gastar de gasolina. Para ter uma noção do que é se aventurar pelas estradas latinas, nada melhor do que conversar com quem foi. O Turismo ouviu quatro viajantes que decidiram abandonar os aviões e seguir  as estradas da América do Sul.
 

 Felipe diz que pegar a estrada é experiência única:
Felipe diz que pegar a estrada é experiência única: "aeroportos são iguais" (foto: Felipe Manfroi/Arquivo Pessoal)


Emoção à flor da pele


Felipe Manfroi fez a primeira grande viagem sozinho em 2013. Foi para a Europa no famoso  mochilão. “Abriu a minha mente e me fez ter uma vontade gigante de viajar. Coloquei como meta que faria, no mínimo, uma grande viagem por ano. Em 2014, com um primo, decidimos conhecer a Patagônia Argentina e Chilena. Queríamos fazer 11 mil quilômetros em 15 dias. Desde então, rodei mais de 30 mil quilômetros e acredito que nunca mais pararei.”

O jovem gosta de fazer o planejamento e de pesquisar sobre cada local, o que é uma vantagem, já que é a fase mais trabalhosa da viagem. “Isso cria uma expectativa gostosa e é algo fundamental. Mas não se pode pirar, afinal, o legal de uma viagem de carro é justamente os imprevistos e surpresas do caminho”, explica. Pegar a estrada exige medidas práticas como documentação válida e acessórios para o bom funcionamento do veículo, além da revisão mecânica.

Já experiente, ele ressalta que definir as paradas ajuda no fluxo da viagem, por isso é importante organizar um roteiro mínimo. “Isso facilita a escolha das melhores estradas, estimativa de custos e de tempo de estrada, mas o resto vai acontecendo no decorrer do percurso. É incrível descobrir um local novo por acaso e poder ficar mais do que o planejado. Uma das cidades mais incríveis que fui é San Pedro, no Deserto do Atacama no Chile. Os próximos destinos serão Peru e Chile”, adiantou.

Uma das vantagens de viajar de carro na América Latina, segundo Monfroi, é a proximidade entre as cidades. “No Brasil é necessário fazer muitos quilômetros em estradas pouco bonitas. Já nossos vizinhos Argentina e Chile possuem verdadeiras pinturas em suas rodovias. Muitas vezes é preciso foco, porque dá vontade de parar o carro e sair tirando muitas fotografias.”

Porém, a aventura pode ter complicações. Um dos maiores problemas enfrentados por ele  foi no Chile, durante a madrugada, quando seguia para o Parque Nacional Torres del Paine. “Uma grande nevasca caiu sobre a estrada, as correntes dos pneus romperam e o carro ficou no meio de dois morros. Não conseguimos avançar nem voltar. Por sorte, encontramos uma parada de ônibus feita de madeira, cobrimos a entrada com uma lona e dormimos algumas horas até que as máquinas passassem e liberassem a estrada. Nessa noite, as temperaturas registradas na região chegaram a -10ºC ”, lembrou.

Os viajantes alertam que, em vários países da América do Sul, existem longas extensões de estradas sem postos de combustível. “A verdade é que há imprevistos, mas isso deixa a viagem mais legal e com mais histórias para contar”, pondera.

Felipe Monfroi acredita ser muito importante o turista estar com a cabeça aberta para a experiência, saber que nem tudo vai dar certo e conseguir levar os imprevistos na esportiva. “Viajar por conta própria com seu carro por um país diferente é uma experiência única de vida e que eu aconselho a todos. É uma das melhores formas de se viver a cultura do povo que está visitando, conhecendo sua gastronomia, costumes, arquitetura e histórias. Aeroportos e suas regras são iguais no mundo inteiro, mas, assim como a vida, estradas são únicas.”
 

(foto: Cecília Manochio/Arquivo Pessoal)
(foto: Cecília Manochio/Arquivo Pessoal)


Aventura econômica sem data para retornar

 

“Sabíamos que os países vizinhos tinham muito a oferecer em termos de belas paisagens, e uma forma fácil e econômica de conhecer muitos lugares seria ir de carro.”Esse foi o princípio da aventura de Maria Cecília Manochio e Pedro Henrique Krug. Eles planejaram uma viagem sem data para voltar e acreditam que isso “potencializou”a experiência na estrada. “Além de vivermos os lugares com calma, conseguimos criar nosso próprio ritmo de viagem.”

O planejamento foi extremamente complexo e detalhado. “Acreditamos que sem ele a viagem seria muito difícil devido ao número de países e cidades que passaríamos”, afirmou Krug. Como o tempo  não era problema, era preciso saber quanto dinheiro seria necessário para cada lugar, o que definiria até aonde chegar.

Maria Cecília afirma que entre as tarefas de organizar a viagem, o mais fácil foi calcular a gasolina a partir das distâncias de cada cidade, a hospedagem, a alimentação, os passeios e os pedágios. “Incluímos no planejamento algumas cotações de câmbios (dos quatro países) e os seguros do carro e dos equipamentos fotográficos. Preferimos tentar prever tudo para não sermos surpreendidos, nem com preços de cada cidade nem por deixar passar pontos turísticos despercebidos por falta de pesquisa.”

Uma das paradas do casal foi em Torres del Paine, onde apreciou as cachoeiras(foto: Maria Cecília Manochio/Arquivo Pessoal)
Uma das paradas do casal foi em Torres del Paine, onde apreciou as cachoeiras (foto: Maria Cecília Manochio/Arquivo Pessoal)

 

Os aventureiros destacaram que algumas decisões foram tomadas ao longo do caminho. “Nem por isso ficamos engessados, porém, o planejamento foi mais do que essencial para a economia de tempo. No caso de hospedagens, por exemplo, tínhamos opções com endereços e preços cotados para cada cidade. Além de tornar a viagem mais tranquila, ter opções de passeios e rotas definidas nos deu mais liberdade na hora de adicionar novos lugares ao roteiro predefinido.

Pedro Henrique e Cecília passaram por mais de 52 cidades entre Brasil, Uruguai, Argentina e Chile. “Iniciamos a viagem em Balneário Camboriú, passamos por Cabo Polonio, Punta del Este, Buenos Aires, Mar del Plata, Ushuaia, Torres del Paine, El Calafate, Bariloche, Viña del Mar, Valparaíso e finalizamos o percurso no Deserto do Atacama. Descobrimos como conhecemos pouco a cultura e os países que estão pertinho de nós e, ao mesmo tempo, como é possível aproveitar e viver com pouco”, resumiu.

As lagunas altiplânicas são uma das paisagens mais impressionantes do roteiro (foto: Cícero Ribeiro/Arquivo Pessoal)
As lagunas altiplânicas são uma das paisagens mais impressionantes do roteiro (foto: Cícero Ribeiro/Arquivo Pessoal)


Os viajantes fazem um alerta sobre o combustível: “em algumas regiões do Chile, além de ter poucos postos de gasolina pelo caminho, compramos um galão de 10 litros e, a cada oportunidade, reabastecíamos o tanque e o galão reserva”, ensina. Para transitar entre os países, são necessárias diversas autorizações e carimbos. O documento principal é a carta verde.

Maria cecília recomenda a viagem: “Foi uma das experiências mais marcantes de nossas vidas! Além de conhecer lugares incríveis, aprendemos muito todos os dias. Reaprendemos a viver de maneira mais calma, tendo contato com a natureza, utilizando apenas o essencial, praticando o desapego. Faríamos tudo novamente e, inclusive, já estamos pensando qual será nosso próximo roteiro. Se você tem vontade, a nossa dica é: planeje, largue tudo e vá! Mesmo que com medo, mesmo que por pouco tempo, mas vá! Permita-se aprender, conhecer e mudar”. (LR)

 
Grande passeio de amigos 
 

Os pinguins são uma das atrações mais aguardadas pelos turistas(foto: Cícero Ribeiro/Arquivo Pessoal)
Os pinguins são uma das atrações mais aguardadas pelos turistas (foto: Cícero Ribeiro/Arquivo Pessoal)

 

“Fiz minha primeira viagem para Machu Picchu, em 1997, de moto, com dois amigos que tinham mais experiência. A partir daí, eu peguei gosto pelas viagens internacionais”, lembra Cícero Ribeiro.  Em 2007,de van, foi para Terra do Fogo. “Poucos têm coragem de ir de moto ou com seu próprio carro”, afirma.

Depois da viagem de moto, fez outra viagem com um amigo.“Fomos fazendo camping, porque na Argentina e no Chile, os hermanos gostam muito de acampar, no Peru e na Bolívia, nem tanto. Não planejamos as paradas, a nossa ideia era rodar em torno de 500km por dia e aonde chegávamos, dormíamos. É claro que muita coisa mudou, mas foi sensacional.”

No parque nacional los glaciares é possível fazer um passeio de barco entre as geleiras(foto: Cícero Ribeiro/Arquivo Pessoal)
No parque nacional los glaciares é possível fazer um passeio de barco entre as geleiras (foto: Cícero Ribeiro/Arquivo Pessoal)


Os amigos tinham em mente visitar os pontos turísticos clássicos. Do Paraná, foram direto para a Argentina, onde há uma parte com cidades de muita planície, como Foz do Iguaçu, Posadas, Corrientes, do norte da Argentina até Salta. “A região tem muita planície e pouco o que ver, esclarece Ribeiro. Quando se inicia a Cordilheira, em São Salvador de Ruy, a paisagem muda. “Nossa viagem era bem livre, não tinha nada muito organizado, a gente foi desfrutando um dia após o outro. Claro que tinha os pontos principais, como o Deserto do Atacama, São Pedro do Atacama, gêiser, Vale da Lua, depois o Pacífico e finalmente a Bolívia. Tínhamos um roteiro bem básico, mas nada impedia de ficar um dia a mais em um lugar ou menos em outro”, relembra.

Eles atravessaram a Cordilheira dos Andes no norte do país, chegaram ao Chile e depois foram para a Bolívia, na divisa do Chile com o Peru. “Seguimos pela direita, subindo a Cordilheira e conhecendo as principais cidades como La Paz, que tem muito para se ver. Depois fomos para divisa da Bolívia com o Peru, entrando pelo Lago Titicaca, visitamos o parque arqueológico de Tiahuanaco e seguimos rumo a Cusco, para depois visitar Machu Picchu, no Peru. De lá, saímos do Peru pelo litoral de Cusco até Nasca e voltamos para o Chile por Arica. De Arica fizemos o mesmo caminho até a volta”.

Cícero Ribeiro teve a primeira experiência em viajar pelas estradas, de moto, em 1997(foto: Cícero Ribeiro/Arquivo Pessoal)
Cícero Ribeiro teve a primeira experiência em viajar pelas estradas, de moto, em 1997 (foto: Cícero Ribeiro/Arquivo Pessoal)


Cícero Ribeiro afirma que a viagem de carro é completa, permite vivenciar várias experiências. “Vivemos a temperatura, principalmente a altitude, na Cordilheira, onde cada organismo reage de uma forma”, explicou. “Por terra é muito completo, você tem mais contato com as pessoas, vai vivendo a cultura em cada ponto e cada situação que se passa. É sensacional. Eu indico sempre, vá por terra, que você não vai se arrepender”.

O viajante recomenda o passeio. “Sou um aficionado pela Cordilheira dos Andes. Gosto de viajar pelo Brasil, mas prefiro ir para a Argentina, Uruguai, Bolívia, Peru e Chile. As estradas são muito boas, têm menos veículos e o trânsito flui. Temos segurança e tranquilidade e, ao contrário do que pensam, os hermanos são muito amigos, muito receptivos. Onde você para eles querem te parabenizar pela viagem, te ajudar, te deixam o telefone, caso precise, você pode ligar para eles. É uma experiência indescritível só indo para viver. Eu recomendo sempre”.  
 
*Estagiária sob supervisão de Taís Braga 
 

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