Publicidade

Correio Braziliense AMAZÔNIA

Riquezas centenárias guardadas na cidade manauara

Manaus foi durante muito tempo uma espécie de ilha da fantasia no meio da imensidão verde. Foi a cidade mais rica do país. Hoje, as marcas da pujança estão em antigas construções ao estilo francês


postado em 12/04/2018 10:00 / atualizado em 11/04/2018 16:38

(foto: Juliana A. Saad/Esp. CB)
(foto: Juliana A. Saad/Esp. CB)


Perto de completar 350 anos de fundação, em 2019, Manaus foi criada a partir do forte de pedra e barro que os portugueses construíram às margens do Rio Negro. A cidade conheceu uma riqueza inesperada no início do século 20 com o comércio da borracha, sendo considerada a mais rica do país. Ocorreu então uma verdadeira revolução urbana que viu surgir palacetes e casarões ao estilo francês, bondes elétricos, telefones, eletricidade e água encanada. E, sobretudo, o impactante Teatro Amazonas, monumento dedicado à arte, para satisfazer à elite local, nostálgica das soirées europeias.

O moderno porto flutuante garantia a chegada e partida de navios de diferentes países e tamanhos e tudo corria bem sem que se percebesse que os ingleses haviam pirateado sementes de seringueiras e estavam cavando, além dos buracos para as mudas no Sudeste Asiático, o fim dos tempos de fartura e glamour em Manaus, que ganhou seu nome em 1856 em homenagem aos indígenas da etnia Manaós, que lutaram contra o domínio português para não se tornarem escravos.

Dois ou três dias em Manaus garantem uma boa viagem, com visita obrigatória ao imponente Teatro Amazonas, erguido durante anos em etapas sucessivas e decididamente impulsionado por Eduardo Ribeiro, o primeiro governador negro do Brasil. Mas só foi inaugurado em 1896, após sua morte.

Outro lugar de destaque na cidade é o simpático Mercado Municipal Adolpho Lisboa, que permite a descoberta de ingredientes típicos da culinária amazônica e de seu artesanato, inspirado nas tradições indígenas. A algumas dezenas de metros dali estão os mercados da Banana e do Peixe, onde se destacam os coloridos cachos de pupunha, do tucumã e do açaí. Em frente, no Rio Negro, dezenas de barcos compõem um dos cartões-postais de Manaus, com saídas para ver o encontro das águas, a maior atração natural próxima, quando a água escura do Negro e a barrenta do Solimões se encontram, sem se misturar por cerca de 6 quilômetros. (Colaborou  Mauro Marcelo Alves)

 

Guardião da cidade fantasma    

 

(foto: Juliana A. Saad/Esp. CB)
(foto: Juliana A. Saad/Esp. CB)


Uma das experiências mais intrigantes do passeio pelo Rio Negro é a chegada à cidade fantasma de Airão Velho. Ali, ruínas de antigos casarões com árvores e cipós se unindo às paredes são lembranças dos tempos de riqueza gerada pela borracha até a metade do século 20. Foi o primeiro povoado português às margens do Rio Negro, a partir de 1694. Concentrava toda a produção de borracha do alto Rio Negro e seus afluentes, do Rio Jaú e até de locais mais distantes, como Roraima.

Airão Velho dá a sensação de abandono, mas um homem magro, de seus pouco mais de 70 anos, recebe os passageiros do Jacaré-Açu. É o japonês Shigeru Nakayama, nascido em Furuoka, que vive  sozinho há alguns anos, “guardando” o que resta da outrora próspera cidade. Em 1876, o inglês Henry Wickham levou sementes brasileiras e passou a plantar seringais em colônias no Sudoeste da Ásia.

Airão perdeu seu único negócio e aos poucos foi abandonada, com os habitantes sendo transferidos para a localidade de Itapeaçu, rio abaixo e a 3 horas de barco, que cresceu e ganhou o nome de Novo Airão. O japonês nos leva até sua casa e mostra recortes de jornais e revistas com sua história, que foi tema de documentários em redes de tevês estrangeiras. Fizemos um tour pelas ruínas, algumas revelando o que teriam sido belos casarões de estilo europeu. Pelas trilhas, chegamos ao cemitério, onde cruzes de ferro caídas e lápides de mármore de um ou dois séculos convivem com o mato. Voltamos ao Jacaré-Açu ouvindo a lenda, bem amazônica, de que Airão Velho foi abandonada não apenas pelo declínio da venda da borracha, mas porque seus moradores foram perseguidos por formigas de fogo gigantes. (JAS/MMA)

Comer, beber, navegar e relaxar
(foto: Juliana A. Saad/Esp. CB)
(foto: Juliana A. Saad/Esp. CB)

Café da manhã, almoço, lanche com aperitivos e tira-gostos, jantares com vinho. O Jacaré-Açu  tem 69 pés, mas de sua pequena cozinha saem preparações que encantam pela autenticidade amazônica, com peixes variados e de bom sabor como a matrinchã, o tucunaré, o tambaqui, o jaraqui ou o pirarucu cozidos, fritos ou em caldeirada. Os acompanhamentos são caprichados, principalmente com o uso do tucupi, mandioca, banana pacovã, tapioca, açaí. O cardápio passeia por vários ingredientes amazônicos com um toque contemporâneo de Débora Shornik.

Estrelas do rio   
(foto: Juliana A. Saad/Esp. CB)
(foto: Juliana A. Saad/Esp. CB)

Na volta a Novo Airão, fomos direto à cabana fluvial do projeto que coordena a estrutura sustentável do turismo com boto na Bacia do Rio Negro, onde conhecemos o ciclo de vida e hábitos desses lendários golfinhos amazônicos, de três espécies, sendo que o mais conhecido é o cor-de-rosa, também descrito como o mais inteligente de todas as espécies. Eles chegam com regularidade à beira da cabana para abocanhar peixes. Na hora indicada, alguns apareceram, para alegria de quem estava fotografando.

Vale a pena visitar a Fundação Almerinda Malaquias, que através da Expedição Katerre estimula os trabalhos manuais e atua como centro de educação e formação profissional em marcenaria. É coordenada pelo suíço Jean-Daniel Vallotton, há 20 anos na Amazônia, que, além de ensinar, faz contatos para conseguir recursos que viabilizem a fundação. As peças em marchetaria e pequenas esculturas, à venda ali, são muito bonitas, com uso de madeiras descartadas pelos estaleiros da cidade ou aquelas naturalmente caídas na floresta. (JAS/MMA)

Gavião    
(foto: Juliana A. Saad/Esp. CB)
(foto: Juliana A. Saad/Esp. CB)

O lodge une arquitetura, meio ambiente e responsabilidade social com design sustentável no projeto de Patricia O’Reilly e paisagismo por Clariça Lima. Além disso, é recheado de mobiliário artesanal e peças regionais feitos por artistas e artesãos da Fundação Almerinda Malaquias, apoiada pelo hotel.

O Mirante do Gavião Amazon Lodge (www.mirantedogaviao.com.br), está às margens do Rio Negro, em frente ao Parque Nacional de Anavilhanas, uma região com um dos biomas mais abundantes e preservados da Terra. Apenas sete bangalôs erguidos em madeira de lei que remetem à forma de barcos invertidos. Passarelas de madeira conectam os bangalôs e as instalações do hotel: piscina e o restaurante Camu Camu, com menu que destaca os ingredientes amazônicos e seus peixes, em receitas criativas assinadas pela chef Debora Shornik. Das mesas, é possível ver o vai e vem dos barcos pelo rio e o píer do hotel que, com frequência regular, é também local de partida e chegada das expedições fluviais da Katerre. (JAS/MMA)


Serviço
  • Os barcos da Expedição Katerre fazem trajetos regularesde 3 a 7 noites ou viagens contratadas em qualquer época do ano. Os roteiros mais curtos (3 noites) percorrem as Anavilhanas e os mais extensos (7 noites) sobem o Rio Negro até o Rio Jauaperi, na divisa com o estado de Roraima. Informações: @expedicaokaterre / expedicoes@katerre.com.

 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade