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Correio Braziliense VELIK NOVGOROD

Milênio da Rússia, escultura de Mikhail Mikshin retrata história

A obra parte do reinado viking e destaca a cruz ortodoxa adorada por uma mulher, a personificação do país, com 129 figuras em bronze


postado em 29/04/2018 08:00 / atualizado em 29/04/2018 08:43

(foto: GorbachevSergey/CB/D.A Press)
(foto: GorbachevSergey/CB/D.A Press)


No coração do Kremlin de Velik Novgorod — cidade encravada no Anel de Prata, a 200 quilômetros de São Petersburgo —,  a espetacular escultura em bronze reverencia os domos em tonalidades prata e ouro, verdadeiros capacetes de combate da Catedral de Santa Sofia (1045-1050), a mais antiga na Terra de Rus. Nessa obra, sangra e pulsa a história russa. Inaugurada em 1862 pelo czar Alexandre II, batizada de o Milênio da Rússia, a escultura talhada no metal da fundação à consolidação desse Estado, a partir da crônica do viking e príncipe Rurik, que chegara em 862 à região do Lago Ladoga — ao Norte da Europa Oriental —, atendendo ao chamado das tribos eslavas e finoúgricas que ali viviam em estado de guerra. Sob a nova dinastia viking que nascia e reinaria por 750 anos na terra dos Rus, foi lançada a semente do Império Russo.

Essa impressionante obra do artista Mikhail Mikshin eleva-se a 15,7 metros, pesa 96 mil toneladas e carrega 129 figuras de bronze — entre príncipes, czares, militares, intelectuais, escritores e clérigos. No topo, protegida por um anjo, reina absoluta a cruz ortodoxa: fincada sobre o globo, diante dela se ajoelha uma mulher, a personificação da Rússia.

A obra de arte habita posição estratégica ao centro da fortificação de Velik Novgorod, esta abraçada por muralhas vermelhas e torres defensivas, protegida por portões, encravada à margem esquerda do Rio Volkhov.

O lento e suave rolar desse rio — que integra a bacia hidrográfica do Neva e une os lagos Ladoga e Ilmen — foi de fundamental papel econômico para Novgorod e a Rússia. De extensão relativamente pequena — 224km, Novogorod nascia por volta do século 9, fincada sobre a antiga rota comercial entre a Ásia Central e o Norte da Europa, interligando o Báltico e países escandinavos à Ásia Central e ao Império Bizantino. Foi por meio desse mesmo curso navegável em toda a sua extensão que, em 882, o sucessor de Rurik, Oleg de Novgorod, conquistaria Kiev, ali fundando o embrião da Rússia Kievana.

A obra de arte está no centro da fortificação cercada por muralhas vermelhas (foto: Wilkipedia - Commons/CB/Reprodução/D.A Press)
A obra de arte está no centro da fortificação cercada por muralhas vermelhas (foto: Wilkipedia - Commons/CB/Reprodução/D.A Press)

No século 10, a campanha de guerra aberta por Novgorod contra Constantinopla pelo predomínio das rotas comerciais levou à integração das tribos eslavas à incipiente Rússia Kievana. O Cristianismo Ortodoxo foi adotado, elevando Novgorod, principalmente a partir do século 12, à condição de poderoso núcleo eclesiástico, difusor da fé. Em sua pujança econômica e cultural, Novgorod tornava-se a segunda mais importante cidade da nova base territorial da Rússia Kievana, mantendo, contudo, no chamado Território de Novgorod, uma forma de organização política distinta: uma República.

Cidade-estado entreposta da Liga Hanseática, a República de Novgorod controlava as transações do Nordeste europeu — atualmente Estônia —, aos Montes Urais, na Ásia Central. Manteve a experiência de uma democracia oligárquica, em que mercadores e aristocratas, em assembleia denominada veche, elegiam o prefeito (podsanik) e altos oficiais (tysyatski). O papel do príncipe manteve-se limitado: convidado pela Veche, a suprema corte de Novgorod e às vezes dispensado por ela, prestava contas de seus atos.

Em Velik Novgorod, os vestígios dessa república estão à margem direita do Rio Volkhov. Nela, um museu se esparrama no chamado mercado de Yaroslav: sete igrejas remanescentes dos séculos 12 e 13 representam guildas de mercadores, todos membros da veche.

Foi apenas após a anexação de Novgorod a Moscou que a Rússia se estruturou de forma definitiva. Novgorod, a República livre de poderosos comerciantes, entra em colapso e, da margem direita do Rio Volkhov, onde se abre magnífica perspectiva do Kremlin, as cúpulas da Catedral de Santa Sofia e de outras edificações da arquitetura russa medieval em pedra branca desafiam a circunferência de muralhas e anunciam o seu poder ao outro lado do mundo.

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