Publicidade

Correio Braziliense ÉFESO

Berço da imortalidade, veja a cidade jônica Èfeso

Uma lenda conta que a mais importante cidade jônica teria sido fundada por Amazonas, tribo de mulheres guerreiras. Patrimônio da humanidade, nos últimos 150 anos foram descobertas impressionantes ruínas


postado em 05/05/2018 10:00

O templo de Ártemis é conhecido como Artemission(foto: Denis Javis/Flickr)
O templo de Ártemis é conhecido como Artemission (foto: Denis Javis/Flickr)


Dizem que quando o pré-socrático Hieráclito de Éfeso (535 a.C. — 475 a.C.) concluiu  sua obra sobre a natureza, dedicou-a ao grande templo da deusa Ártemis, uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo. “Nenhum homem jamais pisará duas vezes no mesmo rio”, sintetizou o dialético, que se debruçou sobre o “ser e o não ser”, para expressar a ideia de que “tudo flui, nada persiste nem permanece no mesmo lugar”, ou panta rhei, segundo descrição do biógrafo e historiador Diógenes Laércio, do século 3 a.C..

Se Hieráclito marca a história da filosofia e do pensamento ao primeiro formular com vigor o problema da unidade permanente do ser diante da pluralidade e da mutabilidade das coisas; para a sua terra natal, Éfeso, são também reservadas tantas outras citações e a imortalidade. Escavações realizadas nos últimos 150 anos têm revelado impressionantes ruínas dessa que foi a mais importante cidade jônica na Ásia Menor, localizada naquele que um dia constituiu o estuário do Rio Kaystros, atualmente completamente assoreado. Todo esse patrimônio da humanidade repousa listado pela Unesco na Turquia Ocidental, região do Mar Egeu, nas proximidades da cidade de Selçuk.

 

 Maravilha do mundo antigo

 

Biblioteca de Celso foi edificada entre 114 d.C. e 117 d.C.(foto: Shrine Meryem Ana/Divulgação)
Biblioteca de Celso foi edificada entre 114 d.C. e 117 d.C. (foto: Shrine Meryem Ana/Divulgação)

 

Conta a lenda que Éfeso teria sido fundado por Amazonas, tribo de mulheres guerreiras, por volta de 2000 a.C. Tornou-se centro de veneração de Cibele, a deusa mãe da Anatólia, substituída no século 6 a.C. durante o reinado de Creso, da Lídia, por Ártemis, divindade da caça, da abundância e da vida selvagem. Por essa época foi erguido sobre antigos locais de adoração, este que foi o espetacular tempo de Ártemis, conhecido como Artemission. Localizado nas proximidades de rotas comerciais, a edificação em mármore, com 127 colunas jônicas que se elevavam a 18 metros, primava pelas esculturas das guerreiras trabalhadas pelos gênios de Fídias e Policleto. Assim foi descrito o Artemission por Antípatro de Sídon, a quem é atribuída a compilação das Sete Maravilhas do Mundo Antigo: “E eis que, além do Olimpo, o sol nunca olhou tão alto”.

Cidade atrai muitos turistas principalmente pela proximidade do santuário onde está a casa de Maria(foto: Shrine Meryem Ana/Divulgação)
Cidade atrai muitos turistas principalmente pela proximidade do santuário onde está a casa de Maria (foto: Shrine Meryem Ana/Divulgação)

 

Esse impressionante templo, que foi um mercado, do qual pouco restou, sofreu ao longo da história sucessivos ataques. A começar por Heróstrato, que, ansioso por alcançar a fama, tratou de incendiá-lo em 356 a.C. Foi condenado à morte e, pelo ultraje, foram proibidos registros com a autoria do crime, determinação não acatada pelo historiador Teopompo (378 a.C. — 323 a.C.). Como esse incêndio teria coincidido com o nascimento de Alexandre da Macedônia, Plutarco (46 d.C. — 120 d.C.) diria, séculos depois, que Ártemis não salvara a sua casa porque estivera ocupada com a chegada do futuro conquistador do Império Persa. Reconstruído por Lisímaco, general e um dos sucessores de Alexandre da Macedônia, o Artemission foi destruído por godos em 262 a.C. Reerguido sob o domínio romano, viria a sofrer nova depredação em 401 d.C., num ataque comandado por João Crisóstomo (347 — 407), um dos patronos do cristianismo primitivo, chamado de “boca de ouro” por sua poderosa oratória.

Meryemana Kultur Parki atrai peregrinos de várias partes do mundo e é reverenciado por cristãos e muçulmanos(foto: Shrine Meryem Ana/Divulgação)
Meryemana Kultur Parki atrai peregrinos de várias partes do mundo e é reverenciado por cristãos e muçulmanos (foto: Shrine Meryem Ana/Divulgação)


Talvez também pela proximidade da casa de Maria, mãe de Jesus, Éfeso tenha se tornado, principalmente no século 5, importante centro difusor do cristianismo: dois dos primeiros grandes conselhos da igreja — respectivamente, em 431 e 449, foram ali realizados. Acredita-se que em 37 d.C, atendendo a pedido de Jesus, João Evangelista teria cuidado de Maria, levando-a para uma localidade situada a 8 quilômetros de Éfeso, onde ela teria passado o resto de sua vida. A modesta casa de pedra é atualmente um santuário conhecido como Meryemana Kultur Parki, reverenciado por cristãos, muçulmanos e peregrinos.


A maior parte das ruínas dos monumentos que ainda se erguem nessa impressionante cidade são dos primeiros séculos de nossa era: no período romano, Éfeso seguira como importante centro comercial e cultural, tornando-se o principal porto do Egeu. Dessa época datam os testemunhos de sua grandeza: o templo de Adriano (138 d.C), a Ágora, o teatro — este em excelente estado de conservação — com capacidade para 25 mil espectadores e, a principal delas, a Biblioteca de Celso, edificada entre 114 d.C. e 117 d.C., pelo cônsul Gálio Júlio para o seu pai, o senador Tibério Júlio Celso Áquila Polemeano. Construída para armazenar 12 mil rolos, serviu de mausoléu para Celso. Naquele tempo, em que o conhecimento foi reverenciado e protegido por deuses e deusas, à fachada desse monumento restaurado resistem, apesar de fundamentalismos religiosos que ainda prosperam na história, as imortais Sofia (sabedoria), Areta (virtude), Enoia (intelecto) e Episteme (conhecimento).

 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade