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Correio Braziliense COMPORTAMENTO

Medo de voar: a fobia que atormenta milhares de turistas pelo mundo

Seja de avião, balão ou helicóptero, passageiros colecionam histórias sobre momentos em que o suor frio se transforma em gotículas na testa e a taquicardia assusta. Pelo menos três em cada quatro brasileiros enfrentam esse problema. Mas há formas de superar e controlar as emoções


postado em 11/05/2018 10:00 / atualizado em 09/05/2018 17:42

(foto: Mobi Town/Reprodução )
(foto: Mobi Town/Reprodução )

Medo de voar todo mundo tem. A ideia de cortar o céu dentro de um enorme objeto de metal é assustadora. Alguns mais, outros menos, existem casos em que pessoas deixam de fazer viagens sonhadas pelo medo ou incapacidade de embarcar. Há quem reze e abrace a Bíblia, há quem recorra a doses alcoólicas e pílulas calmantes, e há outros que nunca se sentiram capazes de cruzar os portões de embarque.

Apesar de ser considerado o segundo meio de transporte mais seguro do mundo, perdendo apenas para o elevador, três em cada quatro brasileiros declaram ter medo de voar de avião, segundo o censo mais recente realizado pelo IBOPE, em 2007. De acordo com pesquisas mais atuais feitas pela revista Condé Nast Traveller, a chance de morrer em acidente aéreo é de uma em oito milhões. Ou seja, é mais fácil perder a vida em um acidente de carro, do que em uma queda de avião. Porém na maioria das vezes o medo do desconhecido foge à racionalidade.

Inerente ao ser humano, o medo é produzido por uma série de reações químicas e hormonais, que se manifestam em qualquer situação que apresente algum risco. Citando o mito grego de Ícaro, o medo em alguns níveis pode ser saudável, alertando para o perigo. Mas o pavor, o medo desmedido e irracional que interfere no funcionamento da vida das pessoas, pode ser bastante prejudicial. Chamado de aerofobia, o pânico de voar tem diferentes níveis, e quem o sente trava lutas diárias.

Para a doutora em psicologia e professora da Universidade Federal de Minas Gerais, Viviane Verdu Rico, a fobia é mais paralisante que o medo. “O medo não impede de agir, ou fazer coisas do cotidiano. Já a fobia é incapacitante. A reação emocional é muito intensa, então o indivíduo passa a evitar situações em que aquilo possa acontecer. A aerofobia tem níveis. Existem pessoas que têm crises apenas de se imaginar entrando num avião, outras não conseguem passar do portão de embarque. Já algumas conseguem viajar com o auxílio de medicação” explica.

A fobia de aviões pode também vir acompanhada de outras, como claustrofobia e acrofobia, que é o medo de altura. Segundo a professora, elas podem surgir em qualquer momento da vida, associadas a algum evento traumático ou não. “Algumas pessoas não conseguem identificar o que desencadeou a fobia. Muitas vezes não foi algo que ocorreu com ela, pode ter sido com uma pessoa próxima.”

Os sintomas comuns são crises de pânico, taquicardia e desmaio, nesses casos a professora indica a procura de um especialista. “Os tratamento de fobias específicas, envolvem estratégias de relaxamento, controle de ansiedade e exposições graduais a situações próximas ao objeto do medo. Alguns profissionais também fazem uso de realidade virtual nesses processos, é como ensinar ao seu cérebro que aquela situação não é mais um perigo” conclui.

 

Personal flyer 

Ex-piloto, Luiz Bassani presta consultoria: informações sobre segurança(foto: Luiz Bassani/Arquivo Pessoal )
Ex-piloto, Luiz Bassani presta consultoria: informações sobre segurança (foto: Luiz Bassani/Arquivo Pessoal )

Munido de confiança e outras técnicas, o ex-comandante de linha aérea Luiz Bassani, 63, não tem medo de voar, muito pelo contrário, tem acumuladas longuíssimas horas de vôo. Durante seus 25 anos como comandante da Varig, Luiz viu de perto o pânico de alguns passageiros. “Já cheguei a voltar com o avião na pista de decolagem porque uma senhora estava passando mal e eu sabia que ela não aguentaria 12 horas de voo” conta.

Pensando nisso, Luiz, que foi o pioneiro nesse tipo de atendimento, resolveu criar o Personal Flyer, serviço que tem como objetivo levar informações técnicas e de segurança de voo para quem tem medo de voar. Embasado em sua experiência, pesquisas de campo e comportamento humano, o trabalho começou em 2008. Inicialmente, Luiz acompanhava os passageiros durante os vôos, hoje são realizadas consultorias.

“Notei que a maioria das pessoas que tem medo não conhecem bem o assunto. Acredito que o medo não é nada mais que o temor do desconhecido.”  Luiz, que já publicou um livro sobre o assunto e hoje trabalha como investigador de acidentes aéreos na Europa, declara que o importante é poder ajudar pessoas. “Tenho tido resultados extraordinários com a maioria das pessoas, elas passam a viver de novo. É muito gratificante.”

 

Força para superar

Hellen decidiu enfrentar os seus temores por estar grávida: viagens com Tiemi (foto: Caroline Evelym/Arquivo Pessoal )
Hellen decidiu enfrentar os seus temores por estar grávida: viagens com Tiemi (foto: Caroline Evelym/Arquivo Pessoal )

A pesquisadora Hellen Kato, 31, costumava ter tanto pânico de voar que chegou a perder oportunidades de emprego em decorrência disso. Ela não sabe muito bem de onde surgiu esse medo, já que viajou de avião por uma boa parte da vida. “Por ter uma família espalhada pelo Brasil, sempre viajei muito de avião e nunca tive problemas. Até que em 2008 passei mal pela primeira vez num trecho Brasília-Belém. Não aconteceu nada durante o vôo, ainda não descobri o que desencadeou o pânico, mas foi uma sensação horrível que me fez não querer mais subir no avião.”

Para Hellen o problema é o avião. Ela relata ter perdido 3 quilos em decorrência da ansiedade que antecedeu um voo, causando insônia e perda de apetite. “A simples ideia de que terei uma viagem já me faz  passar mal. Costumava entrar num quadro em que não conseguia me concentrar no trabalho e me isolava de todos.”

A pesquisadora evitou entrar numa aeronave por quatro anos, iniciou tratamentos psicológicos e fez novas tentativas de viajar de avião, todas frustradas. “Tentei até o uso de medicamentos, porém eles só fizeram efeito depois do voo e eu acabei dormindo por 26 horas seguidas. Depois disso não fiz nenhuma outra tentativa. Conheci o Brasil todo, viajei para o Uruguai, Argentina, Bolívia, Peru... Sempre de carro.”

Seu amor por viajar esbarrava no problema do avião, causando muita frustração. “Essa situação me incomodava extremamente, até que voltei para a psicologia, estava determinada a tomar remédios, o que fosse. Fiz um bom tempo de terapia, exercícios de respiração, mas ainda não me sentia pronta para viajar. Até que precisei fazer uma viagem a trabalho para o Japão. Eu me consultei com psicólogo, psiquiatra e levei o remédio na nécessaire. Fui de carro até Brasília para reduzir uma decolagem e uma aterrissagem. Chegando a Brasília, a nécessaire ficou em Palmas. Como era remédio controlado, não consegui comprar outro. Foram 40 horas acordada passando mal. Lembro que um tio que mora em Brasília tentou me recomendar alguns florais. Eu devia pingar 10 gotas embaixo da língua. Antes de chegar a São Paulo, eu já tinha virado a garrafa toda e nada do efeito”, conta.

Apesar do desconforto, Hellen conseguiu chegar ao Japão. Passados os 40 dias de viagem, já de volta ao Brasil, ela sentiu que não podia mais retroceder. “Comecei a ler, estudar e entender como o avião funcionava e estou nesse processo. De 2015 pra cá, eu me forcei a viajar, não foi fácil, mas sempre tinha os exercícios de respiração e tudo que eu li. Até que em uma dessas, eu passei realmente mal e tive um ataque de pânico, em um trecho Lisboa-Roma. Desci do avião direto para a ambulância e cheguei a ficar internada. Era como se todo meu progresso tivesse ido por água abaixo.”

Em agosto do ano passado, Hellen descobriu sua maior motivação para superar o medo. “Quando descobri minha gravidez, pensei no quanto eu queria mostrar o mundo para o meu bebê, o quanto eu queria que ela gostasse de viajar tanto quanto eu. Precisei tirar forças da barriga e recomeçar do zero. Durante a gravidez foram nove trechos. Fomos a Manaus, Santarém, Brasília, Lisboa, São Paulo e Paris. Sem passar mal. Eu me forcei a ser forte, porque sabia que, se eu sentisse medo, minha bebê sentiria também.”

Tiemi, como vai se chamar, ainda não veio ao mundo, a mãe já sonha com as próximas viagens. “O desafio depois que ela nascer é fazer uma viagem sozinha. Já consigo pensar nas possibilidades e planejar sem ficar ansiosa, o que é uma supervitória. Assim que ela tomar as vacinas e estiver tudo ok, vamos fazer uma viagem.” Para comemorar o progresso, Hellen e o marido resolveram fotografar o ensaio de gestante no aeroporto e dentro de um avião, na tentativa de criar lembranças boas atreladas às aeronaves. “Segundo as aeromoças que estavam no dia do ensaio, ela vai acabar sendo comissária de bordo”, brinca.

 

Extravazando o medo 

Salvatore Carozzo espanta o pânico escrevendo histórias e reunindo curiosidades sobre aviação: divã virtual (foto: Rafael Silva/Arquivo Pessoal )
Salvatore Carozzo espanta o pânico escrevendo histórias e reunindo curiosidades sobre aviação: divã virtual (foto: Rafael Silva/Arquivo Pessoal )

O jornalista Salvatore Carozzo, 36, transformou o medo em munição para fazer o que faz de melhor: escrever. Assim nasceu o site Rivotravel, em que Salvatore reúne crônicas, histórias e curiosidades sobre aviação, o amor e o medo de voar. Segundo ele, o terror de voar começou em 2010, após fazer uma viagem a Roma com os pais. “Meu pai já estava bem debilitado devido a um tratamento de câncer e quis visitar sua terra natal uma última vez. Ao fim da jornada, eu me despedi de meus pais no aeroporto e segui para Paris. Quando retornei para Salvador dias depois, onde morávamos, meu pai já se encontrava na UTI, onde acabou falecendo” conta.

Após esse episódio Salvatore passou a associar viagens de avião a perdas, pois foi num aeroporto onde viu seu pai pela última vez. “Antes disso eu amava voar, inclusive escolhia voos com o maior número de escalas e conexões apenas por esse motivo. Meu sonho de criança era ser piloto, sempre li tudo sobre aviação. Agora, para mim, o tormento começa já na hora da compra da passagem. Suo frio. Os dias que antecedem a viagem também são bem problemáticos. Na véspera do voo, já tomo o remédio prescrito por uma psiquiatra para ir me acalmando. E no dia da viagem, geralmente viajo bem dopado.”

Para ele, a decolagem e os momentos que a antecedem são os momentos mais críticos. “Fico muito nervoso. Quando a comissária anuncia que as portas estão fechadas e que o avião está pronto para decolar, sempre tenho vontade de gritar: “Não! Para tudo, quero sair!”. “Tenho sempre a certeza absoluta de que aquele avião vai cair. Fecho os olhos e rezo para todos os santos e orixás.”

Na tentativa de se distrair do pânico, ele leva sempre consigo um arsenal de livros, revistas e palavras-cruzadas. “Pareço uma  livraria, mas, como fico realmente muito nervoso, acabo não conseguindo me concentrar em nada. Quando viajo com meu namorado, ele sempre promete me acalmar, mas o danado dorme sempre o voo inteiro. Ou seja, fico entregue ao próprio pânico. Muitas vezes acabo confessando meu medo aos comissários, eles são treinados para essas situações e sempre têm uma palavra amiga, acolhedora”, brinca.

São essas histórias que alimentam o Rivotravel, que acabou virando  um divã virtual, recheado de desabafos de leitores que também se identificam com o tema. “Fiquei surpreso com a resposta dos internautas, muitas pessoas contam sobre seus medos, que vão de um simples desconforto até verdadeiros traumas de voar.” Salvatore conta aproveitar o espaço para lidar com suas barreiras e também para desmistificar ideias relacionadas à aviação, de forma a tranquilizar seus leitores.

 

Em busca de tranquilidade    
Preparados para situações como essas, alguns aeroportos pelo mundo passaram a oferecer serviços exclusivos que visam relaxar e acalmar os passageiros. Embora a maioria dos aeroportos brasileiros não tenha um programa específico para lidar com episódios desse tipo, muitos deles têm as chamadas salas VIPs, que são salas privativas e aconchegantes, com serviços diferenciados que podem auxiliar no conforto e, por consequência, relaxamento dos viajantes. Nos aeroportos de Brasília, Congonhas, Guarulhos e Rio de Janeiro, por exemplo, são oferecidos serviços de televisão, bar, buffet, duchas, quartos, academia, business centers e espaço exclusivo para crianças. As taxas de entrada nas salas VIPs podem variar de R$ 150,00 a R$ 373,00. Crianças pagam meia-entrada. 

 

* Estagiária sob supervisão de Taís Braga

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