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Correio Braziliense SVIYAZHSK

Pura história e fantasia se mesclam na ilha russa da conquista

Fincada na intersecção das rotas da seda e do Volga, é banhada pelas águas dos rios Volga, Sviyaga e Schuka. Lá está o Monastério da Assunção


postado em 28/05/2018 12:14

(foto: Wikipedia Commons/Divulgação)
(foto: Wikipedia Commons/Divulgação)


Naquele inverno de 1570, as toras foram meticulosamente escolhidas pelos melhores carpinteiros. Com diâmetros de 71 centímetros, arrancadas das florestas de Uglich — localidade em que o Anel de Ouro se fecha sobre Moscou —, foram esculpidas a machadadas. Numeradas, empilhadas, acomodadas nas embarcações, já na primavera seguinte iniciaram, pelas curvas do Rio Volga, a jornada de cerca de mil quilômetros até o estuário do Rio Sviyaga. A preciosa carga era nada mais, nada menos, do que a base militar que seria montada ao alto da colina Kruglaya, na Ilha de Sviyazhsk, que, em posição estratégica, secretamente observava o Canato da poderosa Khazan, a 30 quilômetros dali.

Os afrescos são raros exemplos da pintura mural da Igreja Ortodoxa Oriental(foto: Orthodox Christianity/Divulgação)
Os afrescos são raros exemplos da pintura mural da Igreja Ortodoxa Oriental (foto: Orthodox Christianity/Divulgação)


Silenciosamente e em hábil sincronia, em quatro semanas 75 mil pares de mãos montaram o quebra-cabeça: do perfeito encaixe das toras nasceu a silhueta do forte. A Igreja Trinity, parte do complexo militar, foi levantada em um único dia. Sem um só prego, resiste por mais de quatro séculos. Dizem que nela, atualmente parte do Monastério de João Batista, Trinity, Ivan, então com 22 anos, ao lado de seus principais comandantes, Gorbatiy-Shuisky e Andrey Kurbsky, rogaram ao seu deus pela intercessão antes da última batalha contra os tártaros. Restaurada, a Igreja de Trinity é a única ainda preservada em madeira do século 16 nessa região do Volga.

 

A Ilha de Sviyazhsk é a primeira vila medieval ortodoxa nos confins do Volga(foto: Orthodox Christianity/Divulgação)
A Ilha de Sviyazhsk é a primeira vila medieval ortodoxa nos confins do Volga (foto: Orthodox Christianity/Divulgação)

 

Patrimônio da humanidade 

 

Cercadas por muralhas, as edificações integram o Monastério da Assunção(foto: Flickr)
Cercadas por muralhas, as edificações integram o Monastério da Assunção (foto: Flickr)


A Ilha de Sviyazhsk é a primeira vila medieval ortodoxa nos confins do Volga. De seu forte militar partiram, descansados, os 150 mil homens do Exército de Ivan — para alguns, o Terrível —, que surpreenderiam, em 1592, o adversário. Khazan, a capital tártara, foi cercada em agosto e, dois meses depois, com o emprego de aríetes, torres, minas e canhões, ruíram as muralhas da até então inexpugnável fortaleza, nas margens em que o Volga se encontra com o Rio Kazanka. Foi o fim de uma era. Os estados sucessores das Hordas de Ouro, descendentes do Império Mongol fundado por Gengis Khan (1206-1227), não mais ameaçariam o território russo.

A vitória russa de Ivan foi celebrada com a edificação de igrejas país afora. A mais emblemática delas, a Catedral de São Basílio, na Praça Vermelha, paira como miragem colorida da arquitetura ortodoxa oriental sobre a Praça Vermelha, em Moscou. Em seus geniais delírios, foi erigida pelo arquiteto predileto de Ivan, Postnik Yakovlev, responsável por muitas das edificações e traçado original da Ilha de Sviyazhsk.

Circundada pelo doce mar que nasce da confluência dos rios Volga, Sviyaga e Schuka, fincada na interseção das rotas da Seda e do Volga, e cercada por brancas muralhas, os domos da Ilha de Sviyazhsk se anunciam ao longe, marcando os históricos conjuntos arquitetônicos religiosos, entre eles a Catedral da Assunção — que integra o Monastério da Assunção —, listada patrimônio da humanidade pela Unesco. Exibe afrescos que constituem raro exemplo da pintura mural da Igreja Ortodoxa Oriental, ao mesmo tempo em que ilustra a fusão entre religião e ação militar encarnada pela igreja como base para a fundação do Estado russo e poder do czar. Arte e fantasia se mesclam nessa emblemática ilha na atual República do Tartaristão, na Rússia, onde também o celebrado poeta Alexandre Pushkin (1799 – 1837), o maior entre os russos da era romântica, sonhou com a terra mágica de Buyan, do príncipe Gvidon e o seu cisne encantado.

 

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