Jornal Correio Braziliense

Turismo

Na região do Vale do Paraíba, o Rio de Janeiro abre as porteiras ao turismo

Nem só de praia vive o turismo do Rio de Janeiro. Aos poucos, cariocas, mineiros, paulistas e estrangeiros descobrem as belezas escondidas entre as serras do estado. Composta por 15 municípios, a região, durante o século 19, chegou a produzir 70% do café %u2014 o %u201Couro negro%u201D %u2014 brasileiro. A exemplo do vale francês, que abriga cerca de 300 castelos, o Vale do Café pretende se tornar um roteiro histórico pelas fazendas centenárias fluminenses.



Existe uma região na França mundialmente conhecida por conta dos seus 300 castelos históricos. O Vale do Rio Loire (pronuncia-se luar) recebeu, em 2000, o título de patrimônio mundial da humanidade concedido pela Unesco por sua importância arquitetônica, cultural e turística. No Brasil, a região do Vale do Rio Paraíba, no Rio de Janeiro, divisa com Minas Gerais, quer se tornar o Vale do Loire brasileiro, cujas características geográficas, climáticas, históricas e arquitetônicas se assemelham.

Estima-se, hoje, existirem mais de uma centena de fazendas históricas na região. Algumas serviram de moradia para os nobres da época, outras apenas para o trabalho de plantio, colheita, secagem, moagem e torrefação dos grãos de café. Agora, em pleno século 21, a história preservada de algumas delas está aberta ao público em geral ; as que resistiram ao tempo são mantidas por empreendedores, que decidiram abrir suas portas à visitação, seja para hospedagem seja para oferecer experiências que remetem ao passado glorioso do Brasil imperial, quando durante o século 19 os 15 municípios próximos chegaram a produzir 70% do café brasileiro.

Viagem histórica

Em Vassouras, o casarão da fazenda São Roque, um dos mais antigos da região, foi recém-restaurado e planejado para festas e eventos, cujo mobiliário antigo e arquitetura podem trazer à festa atmosfera antiga e nobre. O casarão, do século 19, é mensalmente palco para a peça Decadência com elegância, cujo elenco percorre os salões, varanda e antigo terreiro de café na apresentação da trama sobre o período abolicionista. A encenação é finalizada ao som de tambores, que entoam cânticos acompanhando o maculelê, dança originária do Brasil, de influência africana. Aos convidados, a vivência ainda inclui a degustação de farto e variado lanche colonial.

Jardim sonoro


Um bom lugar para meditar, fazer piquenique e tomar vinho em meio à natureza é o Jardim Ecológico Uaná Etê ; com mais de 135 mil metros quadrados, concebido pela harpista Cristina Braga, que sempre traz eventos de música à região. Além da visitação, o lugar mágico também recebe hóspedes no charmoso solar e nas chamadas eco-hospedagens, casas de vidro no topo do morro, sem energia elétrica e com uma vista única. O Uaná Etê tem o único labirinto da música do mundo, idealizado pela paisagista Maritza de Orleans e Bragança, que pretende contar a história da música e sua importância para a evolução humana.

Além do Labirinto, o Uaná Etê tem diversas instalações permanentes que estimulam o contato com a natureza, como as redes, onde é possível deitar e observar com tranquilidade a copa das árvores e o canto dos pássaros, o bosque dos sinos, a árvore das infinitas possibilidades, onde os desejos são enlaçados, e o oásis do lagarto, com filetes de água corrente para refresco dos visitantes.

Conforto no campo



Para os que preferem beira de piscina, brincadeiras náuticas no lago, boa comida e recreação programada, a fazenda Ribeirão, em Barra do Piraí, é o hotel de lazer perfeito. Sua gigantesca área conta até com pista de pouso para bimotor, pista de minibugre e uma fazendinha, com avestruz e pôneis. A fazenda também investe em produção de cachaça e cerveja artesanal, esta última uma novidade, e tem ambientes propícios para diversos tipos de eventos, como o alambique, onde, além de conhecer a produção, todos as variedades podem ser provadas. Aos sábados, o local prepara-se para receber os hóspedes com apresentação de música regional animada, própria para dançar, cantar e com a chance de experimentar os petiscos do interior.

Imponente deslumbre


Rodeado por magnífica paisagem de campo, o casarão, de 1836, com mais de 1.000 metros quadrados, foi construído pelo barão Visconde do Rio Preto e encontra-se conservado e ambientado com seu mobiliário original e com peças recuperadas em antiquários e incursões pela região. Os atuais proprietários adquiriram, há 10 anos, o imóvel, que, hoje, está tombado pelo patrimônio histórico nacional. Depois de passar por minuciosa reforma, a fazenda tornou-se um dos hotéis mais luxuosos do Brasil.

Camila Carrara, proprietária da fazenda, lembra do estado de conservação quando fecharam o negócio. ;Quando eu e meu marido, Mário Vasconcellos Fernandes, pegamos esta fazenda, ela estava em ruínas. Dava para ver o céu por causa do buraco no telhado. Estava completamente abandonada. Reformamos, pintamos e a transformamos neste lugar agradável para receber a visita de todos;, lembra.

A construção, impecável, abriga memórias do Ciclo do Café e remonta à nobreza da aristocracia brasileira. Hoje, o turista se depara com o bom gosto da decoração e dos móveis em estilos variados: colonial, barroco e neoclássico, em perfeita sintonia. Os proprietários, que não negam a paixão pela arte sacra, não têm medo de dispor as peças barrocas por vários ambientes. Imagine poder tomar um café da manhã, almoçar ou jantar com os olhares complacentes de Nossa Senhora da Conceição ou na presença de São José de Botas. Essas imagens compõem a decoração e provocam contentamento. Garimpadas em antiquários, as peças, relíquias dos séculos 18, 19 e 20, dão ar requintado ao hotel-museu.

A fazenda abriga a terceira maior coleção de pratos, que pertenceram a personalidades da época do Brasil Império. São objetos raros, que revelam alguns curiosos hábitos do passado. O turista também vai se encantar com o Museu de Arte Sacra . Na coleção, várias relíquias, entre elas um entalhe de madeira feito por Aleijadinho. Há alguns anos, foi construída uma capela que reproduz as características do século 19. Por dentro, os afrescos foram pintados pelo artista da região Jerônimo Magalhães. Camila Carrara não esconde sua admiração pelo artista. ;O jovem, autodidata, aprendeu o ofício desde cedo. Ele também é responsável pelas esculturas em cera realistas que formam o Museu do Escravo que montamos na antiga senzala. Elas revelam, com fidelidade, a dura e triste realidade dos negros, submetidos aos trabalhos forçados no século 19;, explica.

Menu é tradição



Com total conforto na hospedagem, o hotel-fazenda União tem 24 suítes, divididas em cinco categorias ; Real, Imperiais, dos Viscondes, dos Barões e dos Quilombos ; equipadas com TV de LED, ar quente/frio e frigobar customizado. Algumas têm cama king ou queen, blu-ray, lareira digital e hidro. As suítes dos Viscondes e dos Barões estão localizadas dentro do casarão, com mobiliário original. Já as suítes dos Quilombos estão localizadas na antiga senzala, e as suítes Real e Imperiais na Rua dos Casarios.

A gastronomia de época das antigas fazendas do Vale do Paraíba continua sendo preservada em sua essência. As receitas são selecionadas e preparadas com requinte, tornando as refeições uma experiência ainda mais especial. Do café da manhã ao jantar, tudo é servido como se se estivesse em um banquete dos deuses. A prataria e louças antigas dão um toque refinado em cada refeição. O pastel de angu, panqueca de taioba e as rabanadas com geleias de frutas são algumas das iguarias servidas em diferentes ambientes, que vão desde a varanda do casarão à suntuosa sala de jantar do visconde ou, até mesmo, em um autêntico fogão a lenha na cozinha da senzala.

A adega climatizada oferece diferentes rótulos para harmonizar com o excelente cardápio e tornar sua experiência ainda mais inesquecível. Cenário perfeito para casamentos, locação de filmes, novelas e anúncios para produtos com cenário de época. Os banquetes e jantares históricos são conduzidos por historiadores, sommeliers e especialistas em alimentação, no sentido de harmonizar cultura e hábitos com a culinária histórica.



Na charmosa e histórica cidade de Vassouras, o turista encontra o hotel Santa Amália. Com quartos amplos e confortáveis, oferece recreação para todas as idades e pensão completa. A grande atração fica por conta de suas festas temáticas, que variam de acordo com a época do ano e unem comida gostosa, recreação e muita música, perfeito para interagir e fazer amigos. Em Vassouras, o visitante pode conhecer o museu Casa da Hera, onde viveu Eufrásia Teixeira Leite, uma das mais importantes personagens do ciclo cafeeiro e a primeira mulher brasileira a investir em bolsa de valores.

Em datas específicas, o hotel Santa Amália realiza o evento ;A cozinha da baronesa e o batuque do quilombo;, com cardápio inspirado em receitas do período imperial e apresentação de grupo de capoeira, que contextualiza as influências africanas e europeias na cultura e gastronomia que a região ainda preserva. Até o fim do mês, a cultura cigana será prestigiada com a tradicional festa realizada no hotel Santa Amália, também em Vassouras, que recebe todo o colorido, a animação e o mistério da cultura cigana, em festa que ocorre sempre aos sábados, aberta também aos que não estão hospedados.

E para quem prefere uma charmosa e aconchegante pousada, bem próxima ao Centro Histórico, pode ficar na Vila Hibisco, novíssimo apart-hotel, que faz o visitante esquecer o carro e percorrer, a pé, as ruas de pedra da cidade. Com decoração retrô e atenção a cada detalhe, a pousada oferece café da manhã e apartamentos que podem ser tipo conjugados, com estrutura de cozinha independente como opção de moradia.

Viagem ao passado



A fazenda do Paraízo é outra construção histórica em Rio das Flores. Antes mesmo de atravessar o portão original, da época do barão do Rio Preto, o turista surpreende-se com as dezenas de palmeiras-imperiais. As árvores, centenárias, vieram do Jardim Botânico carioca ; foram doadas por dom Pedro II, no início do século 19, e são registro de nobreza daquela época. A propriedade pertence à mesma família há 105 anos. Hoje, a fazenda é produtora de leite e gado de corte.

Há pouco tempo, os proprietários decidiram abrir suas portas para o turismo. Ao visitar os 55 cômodos do casarão principal, o turista depara-se com o mobiliário conservado, com as pinturas impressionantes nos vários salões, além dos lustres belgas e dos objetos de decoração espalhados pela fazenda. Logo depois da visita guiada, um lanche delicioso, feito no forno a lenha, é oferecido aos vistantes no antigo prédio onde se encontra a tulha (local onde era feita a torrefação do café), que mantém intacto o maquinário da época, porém, o mais moderno do Brasil naqueles tempos. A fazenda do Paraízo já recebeu 10 produções audiovisuais, entre novelas, séries e filmes, e também é um belo cenário para casamentos.


História unida ao estilo moderno e engajado



Em Barra do Piraí, é possível visitar a fazenda Alliança, referência em produção de hortaliças orgânicas e muçarela de búfala. Além de deliciosos queijos, oferece guest house (hospedagem com agendamento) para grupos em eventos fechados, com quartos temáticos, desenhados pela arquiteta argentina Josefina Durini. A fazenda Alliança é ideal àqueles que querem não só o turismo histórico, mas também conhecer estilo de vida moderno e engajado, participando da colheira na horta e aprendendo todas as peculiaridades e desafios para o cultivo dos alimentos orgânicos, com destaque para as pancs (plantas alimentícias não convencionais). ;Cultivamos aqui várias plantas que já existiam há milhares de anos.

Aprendemos com a sabedoria popular o valor nutritivo de cada uma delas. Plantas desprezadas pelo público em geral são ricas em vitaminas e ganham força em tempos de alimentação saudável. Taioba, ora-pro-nóbis e samambaia, entre outras hortaliças tidas como mato, fazem parte do cardápio que oferecemos aos visitantes;, informa Josefina. A fazenda Alliança também integra o projeto que visa à revitalização do cultivo de café na região, pretendendo inovar a maneira de se consumir café. A proprietária já visualiza a possibilidade de faixas de produção exclusivas para clientes, que poderão acompanhar o crescimento e optar por diferentes tipos de torra. Sem deixar de ser orgânico, que é a principal característica da fazenda.

Cachaça e artesanato


Se o que não pode faltar em uma região tão próxima a Minas Gerais é cachaça e artesanato, o Vale oferece a premiada Cachaça Werneck, com a mais recente premiação no Ranking Nacional da Cúpula da Cachaça, ficando entre as 20 primeiras colocadas. O sítio da Werneck, em Rio das Flores, pode ser visitado e lá o turista ficará conhecendo o processo artesanal e cuidadoso de uma das melhores aguardentes do país. Ainda em Rio das Flores, é possível adquirir um dos (ou muitos) maravilhosos artesanatos produzidos na região. É só visitar a loja Florart, associação de artesãos locais e se encantar com os bordados para casa, os queijos, geleias e inúmeras lembranças disponíveis. A Florart conta com mais de 15 artistas associados. (CA)


* O jornalista viajou a convite do Vale do Café Rio