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Correio Braziliense NORDESTE

Vidas que salvam vidas, um programa alternativo na região Costa dos Corais

O peixe-boi marinho é uma das espécies em extinção preservada na Costa dos Corais (APACC). Um programa alternativo na região é conhecer os centros de proteção desse animal


postado em 07/06/2018 10:00

 

(foto: Rafael Munhoz/Divulgação)
(foto: Rafael Munhoz/Divulgação)


Preservar a vida marinha é o novo objetivo de muitas pessoas, que mudaram de vida por conta de projetos como a Associação Peixe-boi, em Porto de Pedras. A entidade reúne 47 pessoas que vivem em função da preservação do peixe-boi em parceria com Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e a Fundação Toyota, se organizam para salvamentos de encalhe de algum animal e oferecem passeios turísticos e lembrancinhas que ajudam a manter a entidade.

Pescadores que mudaram de profissão, como o mestre Pato, 62 anos, hoje levam turistas em sua embarcação “motorizada” com dois remadores na popa para verem a riqueza do mangue no rio Tatuamunha, e, com sorte, algum peixe-boi nas redondezas. “Aos 9 anos eu vi o primeiro peixe-boi e tive medo. Há 30 anos, batia nele. Hoje eu não bato mais. Todos os que estão na natureza só querem carinho”, conta o mestre de barco desde os 12 anos de idade. Há 12 anos, ele faz parte da Associação Peixe-boi. “Somos uma família”, completa.

O passeio de visitação ao peixe-boi é limitado a 70 pessoas por dia e é uma experiência inesquecível se você tiver a sorte de assistir a soltura de um desses animais gigantes. O custo do passeio é de R$ 50 por pessoa e é necessário agendamento.

(foto: Rafael Munhoz/Divulgação)
(foto: Rafael Munhoz/Divulgação)

A última soltura de um peixe-boi ocorreu dia 5 de abril. Ivi, uma fêmea de seis anos e cerca de 436 quilos, foi o 46º animal devolvido à natureza desde 1994 pelo Programa Peixe-Boi/Cepene (Centro de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade Marinha do Nordeste) do ICMBio. Em Tamandaré, a primeira soltura ocorreu em 2008.

O peixe-boi é um mamífero herbívoro que pode atingir quatro metros e 600 quilos. Em média, ele se alimenta de 8% a 13% de seu peso de plantas, como capim-agulha, folhas de mangue e algas marinhas. O programa vem desenvolvendo pesquisa para substitutos alimentares ao capim-agulha, que está cada vez mais difícil de encontrá-lo para alimentar os animais que ficam em cativeiro, como era o caso de Ivi. O ICMBio ganhou instalações maiores do que o trailer usado no início do programa, nos anos 1990. No segundo semestre deste ano, estão previstas outras duas solturas. As datas não estão definidas e vão depender da situação de cada animal.

A ação de preservação do peixe-boi conta com o apoio da Fundação Toyota do Brasil e da Fundação SOS Mata Atlântica, que integram uma parceria público-privada com ICMBio, desde 2011, no projeto Toyota APA Costa dos Corais. A SOS Mata Atlântica é responsável pela gestão técnica e financeira dos recursos aplicados pela Toyota, que aplica R$ 1 milhão por ano durante 10 anos. “O objetivo é fazer com que o projeto se torne economicamente sustentável no fim desse contrato. E para isso, investimos em um fundo de investimentos praticamente metade desse montante para que, no futuro, o rendimento dele possa manter a operação do programa”, explica Camila Keiko Takahashi, bióloga da SOS. De acordo com dados de Camila, R$ 3,7 milhões estão aplicados nesse fundo que será utilizado para manter o projeto após o fim do contrato com a Fundação Toyota.

(foto: Rosana Hessel/CB/D.A Press - 24/5/18)
(foto: Rosana Hessel/CB/D.A Press - 24/5/18)

O presidente da Fundação Toyota, Percival Maiante, é um entusiasta do projeto. Ele conta que, nesses sete anos, a troca de experiência com a população ribeirinha nos programas de capacitação foi intensa e gratificante. “Um dos objetivos do projeto é fazer com que os moradores e turistas aprendam a viver com a biodiversidade e preservá-la. Não se trata de impor normas, mas educar para sustentar”, destaca. Ele lamenta que a parceria está chegando ao fim quando completar 10 anos. “Vamos avaliar se o projeto consegue ser autossustentável, porque esse é o objetivo da parceria”, destaca.

Na avaliação do chefe da APA Costa dos Corais do ICMBio e um dos pioneiros na preservação do peixe-boi, Iran Normande, a parceria vai além da ajuda financeira porque “aprimorou a infraestrutura para a preservação das atividades, permitindo um melhor diálogo entre os agentes locais da unidade de conservação”.  Segundo ele,  há pelo menos 75 empregos diretos e outros 130 indiretos relacionados à preservação do peixe-boi. Esses dados consideram como diretos 55 pessoas da Associação de Condutores do Peixe-boi e 20 trabalhadores do Projeto Peixe-Boi/ICMBio. Os condutores da Associação não têm relação empregatícia com o ICMBio. Os empregos indiretos estão relacionados a artesanatos, produção de camisetas e oficinas. De acordo José Ulisses dos Santos, chefe substituto da APA Costa dos Corais, esse número pode ser ainda maior se for incluído na conta todos os receptivos (hospedagem, guias, restaurantes...) que levam turistas para a região em busca do passeio.

 

Preservação com resultados 

 

(foto: Rafael Munhoz/Divulgação)
(foto: Rafael Munhoz/Divulgação)


A história da APA Costa dos Corais, aliás, não deixa dúvidas sobre a necessidade de preservação da biodiversidade. Depois de 31 anos de existência, as praias estão registrando aumento da flora e da fauna e, felizmente, até mesmo a volta de espécies que já nem apareciam mais por lá, como tartarugas marinhas, conforme dados do Instituto Biota de Conservação, que registrou, em 2017, um número bastante atípico de mamíferos e tartarugas marinhas encalhados. Até mesmo o encalhe de baleias Jubarte aumentou na região. Essa espécie estava ameaçada de extinção nos anos 1980 e hoje os especialistas estimam existir aproximadamente 21 mil unidades delas no país.

“O aumento dos encalhes segue proporcionalmente ao aumento da população. Alguns locais próximos a Maceió, antes considerados fora do mapa de reprodução das tartarugas marinhas, voltaram a ser berços para os ovos desses animais”, comemora Bruno Stefanis, presidente do Instituto Biota, que capacita moradores e os incentiva a utilizar um aplicativo da entidade para registrar as ocorrências reprodutivas e encalhe de animais na região, o Biota Mar.

Após a criação da Zonas de Preservação da Vida Marinha (ZPVM) e o fechamento da área, especialistas identificaram um local conhecido como Poço do Mero, onde exemplares desse animal (Epinephelus itajara), que é ameaçado de extinção, começou. A primeira ‘área fechada’ há 18 anos encontra-se em Tamandaré, Pernambuco, cidade localizada a 107 km da capital Recife. No início, a área coordenada pelo Instituto Recifes Costeiros (Ircos) enfrentou grande resistência, principalmente por parte dos pescadores.  “Muitos reclamaram, mas hoje são favoráveis. Perceberam que com a moratória os peixes maiores e crustáceos aos poucos voltaram a colonizar as áreas e passaram a frequentar as regiões adjacentes à área fechada. A ZPVM funciona como um berçário marinho. Os peixes se reproduzem, crescem e depois se deslocam para fora da área fechada.”, explica o oceanógrafo e professor da Universidade Federal de Pernambuco Mauro Maida, conselheiro do Ircos. 

Conheça

Associação Peixe-Boi de Condutores

Porto de Pedra (AL)
Telefone: (82) 3298-6247
Horários: 10h às 16h
www.associacaopeixeboi.com.br

Instituto Biota
Maceió-AL
(82) 991152944/  991155516/ 988150444?
www.institutobiota.org.br

 A Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais (APACC) foi criada por um decreto presidencial de 1997 e, até março deste ano, era a maior aérea de conservação federal marinha do país, com 400 mil hectares de extensão, conforme dados do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

A APA Costa dos Corais está distribuída entre os municípios de Maceió, Barra de Santo Antônio, São Luís do Quitunde, Passo de Camarajibe, São Miguel dos Milagres, Porto de Pedras, Japaratinga e Maragogi, em Alagoas, e de São José da Coroa Grande, Barreiros, Tamandaré e Rio Formoso, em Pernambuco. Mas o único município que não faz parte da APA marinha é Rio Formoso.

A APA Costa dos Corais não é mais a maior Unidade de Conservação marinha do país. Ela foi a primeira e é a mais próxima do continente. Em março deste ano, duas APAs foram criadas por um decreto do presidente Michel Temer: os arquipélagos São Pedro e São Paulo, em Pernambuco, e o de Trindade e Martim Vaz, em Vitória (ES). Ambas têm cerca de 40 milhões de hectares. Hoje, são as maiores do país e estão localizadas nos dois pontos mais remotos do território nacional.(RH)


* A jornalista viajou a convite da Fundação Toyota

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