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Correio Braziliense ENOTURISMO

Caverna milenar de vinhos no Líbano é uma das maiores do mundo

No Líbano, a sétima maior cave natural do mundo mantém os vinhos entre 11ºC a 13ºC . Seis túneis se entrelaçam por dois quilômetros de grutas


postado em 20/08/2018 10:00

(foto: Wikimedia Commons/Divulgação)
(foto: Wikimedia Commons/Divulgação)


A memória viva do mais antigo vinho produzido no Líbano está cuidadosamente enterrada entre os picos e os cumes da Cordilheira Antilíbano e do Monte Líbano, sobre lençóis freáticos da porção Nordeste do Grande Vale do Rift, que se espreguiça no fértil Vale do Bekaa, no Líbano. Seis túneis se abrem em labirintos, entrelaçados por dois quilômetros de grutas subterrâneas e milhares de tonéis que, dia a dia, curtem o envelhecimento. Escavadas em inúmeras saliências das paredes, a poeira e os resíduos deixam a sua marca em 2 milhões de garrafas intocadas desde 1917, constituindo a impressionante “biblioteca” da sétima maior caverna natural de vinhos do mundo.

A história dessa caverna, por séculos a fio selada sem se revelar, está intimamente relacionada à vinícola Chateau Ksara e à produção moderna de vinho no Líbano, iniciada em 1857, por jesuítas, quando a região ainda estava sob o domínio do Império Turco-otomano. Uma das versões de seu descobrimento, todas envolvendo o acaso e também um dos reis da história, foi registrada em diário, em março de 1898, por Jean Gharios, que mais tarde se tornou monge no monastério cristão até a sua morte, aos 94 anos. “O inverno está excepcionalmente frio e longo. Não podíamos trabalhar no vinhedo e, sem ter o que fazer, resolvemos procurar a gruta lendária que sabíamos que existia.” Esquecidos do propósito e entretidos por uma raposa que assombrava as galinhas, os meninos viram o animal desaparecer numa das elevações do terreno.

Seja esta ou outra a verdadeira versão, o fato é que a revelação dessa caverna representou um ponto de inflexão na incipiente vinicultura dos jesuítas, que enfrentavam o problema de armazenamento: naquele ambiente úmido, a temperatura mantinha-se estável entre 11 e 13 graus. Eram condições ideais. Pelas mesmas razões, possivelmente, a caverna fora usada pelos romanos, fazendo jus à tradição cultural do vinho no vale do Bekaa. Não por coincidência, no coração dessas terras, em Baalbek, a poucos quilômetros da vinícola Chateau Ksara, esteja Baco — deus da ebriedade, expressão dos cultos de fertilidade e do ciclo agrícola —, entre os deuses cultuados no mais bem preservado complexo de templos romanos do mundo.

(foto: Wikimedia Commons/Divulgação)
(foto: Wikimedia Commons/Divulgação)

Muito antes dos romanos, contudo, o berço da produção do vinho — identificada por volta de 7000 a.C. — era acalentado no Vale do Bekaa, que se insere no triângulo compreendido pelo Cáucaso — moderna Armênia e Geórgia — Mesopotâmia (Iraque) e o Sul da Palestina. Seria nesse ambiente inspirado na cultura dos vinhedos que os fenícios, instalados nas cidades antigas de Biblos, Sídon e Tiro, milênios mais tarde, por volta de 3000 a.C., passaram a comercializar e a exportar o produto ao Egito, Cartago, Chipre, Grécia, Roma Antiga, Sardenha e à Espanha. Também para além do estreito de Gibraltar, esses comerciantes, aos quais é atribuída a criação do primeiro alfabeto e cuja cultura marítima floresceu durante mais de 2 mil anos na região, levaram o gosto à França e aos povos habitantes da costa inglesa.

Quando, no século 1 a.C., o Líbano passou a fazer parte do Império Romano, a cultura dos vinhedos havia sobrevivido às sucessivas invasões: Alexandre Magno, em 332 a.C., passado pela dominação do Egito ptolomaico e dos selêucidas. Mas foram os invasores que absorveram o gosto pelos vinhedos, cultivados em excepcionais condições naturais — de 1.200 a 1.500 metros de altitude e um microclima que possibilita, sem grande esforço, o crescimento dos vinhedos em uma das melhores condições sanitárias do mundo.

No Líbano, a produção do vinho venceu duas grandes guerras, uma guerra civil e inúmeros conflitos regionais e atravessa o tempo numa região de instabilidade política, assolada por interesses internacionais. Atualmente administrada por empreendedores privados, a vinícola Chateau Ksara segue exibindo ao mundo o seu domínio sobre a bebida de Baco, das videiras extraindo um raro equilíbrio entre a delicadeza e a aspereza, o frescor e o vigor que brotam nesse fértil vale do Bekaa.

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