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Correio Braziliense PATAGÔNIA

50 tons de azul da Patagônia Argentina

Entre estrondos cíclicos da ruptura do Perito Moreno reside a quietude. Nas palavras de Blaise Pascal, o silêncio eterno, preenchendo espaços infinitos, que atormentam


postado em 07/10/2018 09:00 / atualizado em 03/10/2018 17:14


Ver galeria . 2 Fotos Douglas Scortegagna/Flickr
(foto: Douglas Scortegagna/Flickr )


Em suave e constante movimento, sob efeito de ventos furiosos que se originam no Pacífico, um oceano de gelo eterno, em tons azul -translúcido e púrpuro, formado durante a última glaciação, se arrasta e comprime a Península Magalhães. O paredão aparta e represa o Brazo Rico do Canal de los Tempanos e do Lago Argentino. Sobre a barragem que se eleva em picos de até 60 metros, as águas se insinuam, abrem gretas, enfraquecem a base do colosso gelado, esculpindo um arco monumental. Uma ponte se equilibra sob o ranger das hastes laterais, que ainda resistem.

O colapso da parede frontal do Glaciar Perito Moreno é iminente. Quando, enfim, a catarata de gelo se desmorona, uma nuvem de estilhaços e água se levanta. O estrondo corta o silêncio de norte a sul do Campo de Gelo Patagônico — a terceira maior extensão de geleiras continentais do mundo — afastando guanacos e condores, fazendo tremer as florestas de faias, principalmente lengas e coihues que brotam à beira dos glaciares, no entorno dos lagos e escalam encostas. O grande cataclisma, esperado fenômeno cíclico da ruptura, continua a ecoar pelo Parque Nacional Los Glaciares, em El Calafate, na Argentina, patrimônio natural da humanidade pela Unesco, em seus 356 glaciares esparramados por 2,6 mil quilômetros quadrados no grande platô congelado dos andes sulinos.

Com 250 quilômetros quadrados de tamanho, superior ao de Buenos Aires, Perito Moreno é o mais espetacular entre todos os 47 glaciares do parque, que abraçam os lagos Argentino e Viedma no manto gelado da Patagônia meridional. São 13 geleiras na bacia do Atlântico — Marconi, Viedma, Moyano, Upsala, Agassiz, Bolado, Onelli, Peineta, Spegazzini, Mario, Ameghino, Frías e Moreno. Tomou o nome do geógrafo argentino Francisco Moreno, um dos primeiros exploradores do gelo continental patagônico, região de excepcional beleza natural, que integra a grandiosidade de glaciares aos lagos e picos andinos.

São enormes geleiras horizontais entre montanhas, remanescentes da Era do Gelo, quando avançavam até as estepes patagônicas ,onde formavam profundos vales, portanto, muito além dos atuais limites. Ao final da Era Pleistocênica, há cerca de 10 mil anos, com o recuo das geleiras, formaram-se nas valas os grandes lagos da região. Com 160 quilômetros de extensão, o Lago Argentino é abastecido por três grandes glaciares: Perito Moreno, Upsala e Onelli, que se desintegram em blocos flutuantes, ao sabor da correnteza, competindo com navegadores pelas águas de forte tom azul-esverdeado, de aparência leitosa. É o chamado fenômeno do “leite glacial”, causado pelos sedimentos arrastados pelas geleiras da cordilheira para o lago e que não se depositam em seu fundo. Entre estrondos cíclicos da ruptura do Perito Moreno, reside a quietude. Nas palavras de Blaise Pascal, o silêncio eterno, preenchendo espaços infinitos, que atormentam.

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