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Correio Braziliense FRANÇA

Conheça local na França onde foram travados combates da Primeira Guerra

Newfoundland Memorial Park preserva sítio histórico da Batalha do Somme em Beaumont Hamel, no norte do país. No local foram travados os mais violentos combates da Primeira Guerra


postado em 15/10/2018 10:00 / atualizado em 11/10/2018 18:50

(foto: Wikimedia Commons/CB/D.A Press)
(foto: Wikimedia Commons/CB/D.A Press)


Eram protegidas por uma rede de arames. Nelas, sob a ordem do ataque frontal, não poucos soldados inimigos ficaram presos e foram dizimados pela artilharia. Em ziguezague, elas se estendiam por 40 mil quilômetros, da costa francesa ao Norte, cortando toda a região da Picardia, até a fronteira com a Suíça. Eram labirintos desenhados em três linhas. À frente, a Trincheira de Fogo se abria para o lançamento de granadas, postos de metralhadoras e lança-chamas sobre a chamada “Terra de Ninguém”, estreito território que separava as forças combatentes. À retaguarda, a Trincheira de Apoio: uma rede de túneis fora do alcance da artilharia adversária e, ao fundo, a Trincheira de Reserva para alojamentos dos combatentes.

Estamos no Newfoundland Memorial Park Beaumont Hamel, Norte da França, num dos dois únicos sítios históricos canadenses fora daquele país, com as mais bem preservadas trincheiras da Batalha do Somme (1º de julho de 1916 a 18 de novembro de 1916). O parque se abre por 30 hectares que exibem, em cemitérios e trincheiras, a memória dos horrores: esses combatentes da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) conheceram, como “toupeiras”, uma tenebrosa rotina sujeita a fome, lama, frio, piolhos, doenças e epidemias diversas, inclusive do tipo “pé de trincheira” — em que a carne úmida infectada apodrecia, para não falar no terror constante da morte iminente sob bombardeios, granadas e artilharia.

Franceses e ingleses pretendiam, com a Batalha do Somme, região ocupada por alemães desde agosto de 1914, uma rápida e fulminante ação, destinada a atenuar a pressão do inimigo sobre a cidade-fortaleza de Verdun, onde se travavam, até então, os mais violentos combates. Mas o que se seguiu na batalha do Somme, que marcou no teatro militar importantes inovações tecnológicas, entre as quais o primeiro tanque de guerra Mark I, foi a maior carnificina da guerra: mais de um milhão de mortos e desaparecidos entre as forças aliadas — França, Grã-Bretanha, Austrália, Nova Zelândia, Canadá, Terra Nova, África do Sul — e do Império Alemão.

O cenário dos atores mundiais que desencadeou a Primeira Guerra Mundial tem vários aspectos similares ao atual. O principal deles, a transição de um mundo de poder hegemônico para um mundo multipolar. À época, a enfraquecida liderança do Império Britânico acusava a ascensão econômica e bélica do Império Alemão, além do surgimento de potências como os Estados Unidos e o Japão. Também jogadores importantes a França, principal rival econômica da Alemanha na Europa; o Império Russo, que apesar de sua acelerada decadência era ainda uma potência militar, além do também em baixa Império Austro-Húngaro e, por fim, o já esquartejado Império Turco Otomano, que lutava para manter as suas colônias no Oriente Médio.

Sob os discursos militaristas e nacionalistas que antecederam à Primeira Guerra Mundial estavam os interesses por novos mercados consumidores dos grandes industriais de cada um desses países, além da necessidade de reduzir o chamado “exército industrial de reserva”: os desempregados, que ameaçavam a ordem vigente. Esse duplo interesse em manter a velha ordem, com a anexação de novas colônias ou territórios, alavancou mais uma carnificina na Europa e no mundo.

Visitar o Memorial Park Beaumont Hamel é conhecer as consequências de um suicídio coletivo. Foi uma guerra que se iniciou por causa de uns poucos homens que pensavam como Cecil Rhodes e sua célebre frase “eu anexaria os planetas se pudesse”. Mas Rhodes nunca esteve numa dessas trincheiras da morte. Àqueles que conheceram o inferno e às suas famílias que os perderam, talvez faça mais sentido a máxima expressa sobre o nacionalismo e o seu filho bastardo, o militarismo: “O nacionalismo é a última trincheira dos idiotas”.

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