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Correio Braziliense EXPERIÊNCIAS

De olhos para o alto, saiba mais sobre a observação de pássaros

O birdwatching, prática de observação de pássaros, leva milhares de turistas principalmente a regiões brasileiras que guardam 1,8 mil espécies desses animais. A atividade foi incorporada ao turismo


postado em 03/11/2018 10:00 / atualizado em 01/11/2018 19:20

(foto: Samory Santos/Wikipédia)
(foto: Samory Santos/Wikipédia)

 
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.


Esse trecho de Canção de Exílio que o poeta Gonçalves Dias compôs possui uma musicalidade que se assemelha a notas vindas dos pássaros existentes no mundo. Por isso, não é de surpreender que há aqueles que dedicam um bom tempo para apreciar os cantos e belezas desses pequenos seres. Há também aqueles que têm como hobby a observação de pássaros e aves, uma prática a qual dá-se o nome de Birdwatching, conhecida nacionalmente e internacionalmente; ela foi incorporada ao turismo em 1960, quando esse simples ato ganhou o coração dos amantes do turismo ecológico.

Embora, os ingleses tenham o domínio dessa atividade, o birdwatching tem crescido cada vez mais no país, segundo a ONG Avistar Brasil, que organiza o maior encontro de observação de aves da América Latina, atualmente com 35 mil adoradores de pássaros e estimativa de chegar aos 100 mil nos próximos três anos. Esses números também são acompanhados de outro fator importantíssimo: o de que o Brasil é o segundo país no mundo com a maior diversidade de aves com 1.809 espécies — perde somente para a Colômbia, com 1.877 espécies.

O biólogo e professor da Universidade de Brasília João Martins acredita que a prática possa oferecer uma sensibilização da população com a natureza. “Quando as pessoas conhecem os organismos que vivem em um determinado hábitat, criam uma ligação muito forte entre elas e o meio ambiente”, explica. Por ser uma atividade bastante curiosa para quem não pratica, o professor garante que o birdwatching pode oferecer ao turista uma conexão com o meio ambiente. “Uma integração maior com a natureza, uma sensação de pertencimento ao meio, não apenas como expectador, mas como sujeito do processo de conservação do meio ambiente.  É como se, ao observar aves, a pessoa passasse a ter lentes que lhe permitissem enxergar o meio ambiente com novos olhos”, avalia.

 

Coleção de olhares 

(foto: Bart van Dorp/Flickr - 29/3/14 )
(foto: Bart van Dorp/Flickr - 29/3/14 )

O que era para ser apenas mais um trabalho para a fotógrafa paulista Silvia Linhares, 48 anos, se transformou em uma grande e prazerosa descoberta. “Eu fotografava automobilismo e fui convidada, em 2010, pela revista Cavallino, especializada em esportes a motor, para fazer fotos na Patagônia a fim de ilustrar uma matéria. Tive contato direto com pinguins e outras aves e fiquei apaixonada”, conta. Após essa aproximação, a paulista colocou a atividade em sua vida até os dias atuais. “Durante um curso de fotografia em Ubatuba, vi os comedouros cheios de pássaros coloridos do hotel, me encantaram, e desde então nunca mais parei. Passarinhar (no sentido de observar aves) vicia e não tem cura”, revela.

A atividade pode ser praticada na cidade, em parques(foto: Hélder Conceição/Flickr)
A atividade pode ser praticada na cidade, em parques (foto: Hélder Conceição/Flickr)

Para a jornalista Ana Júlia Cano, 23 anos, o começo se deu pelo fato de gostar muito de animais e de ser muito observadora no cotidiano. “Isso sempre foi presente na minha vida, sempre tive essa atenção para os sons da natureza, desde observar um bando de periquitos comendo coquinho em cima do coqueiro, ou o sabiá-laranjeira cantando de manhã”, declara. Para estimular ainda mais o desejo de seguir com a prática, iniciada no fim do ano passado, a jovem contou com ajuda do destino. “Eu estava fazendo uma matéria sobre esse assunto para o meu trabalho e através disso me dei conta do tanto de espécies que a gente tem no Brasil, e percebi que eu precisava ver isso até porque eu moro aqui”, relata.

Ana Júlia acha que observar os pássaros é um momento especial(foto: Arquivo Pessoal)
Ana Júlia acha que observar os pássaros é um momento especial (foto: Arquivo Pessoal)

“O birdwatching é algo que me permite viajar constantemente e também entrar em contato com a natureza, que, principalmente para quem mora em São Paulo, é fundamental para uma melhor qualidade de vida”, destaca a jornalista que prioriza uma rotina que possa ir às florestas, observar os passarinhos. “A primeira vez que a pessoa vê um pássaro é um momento muito especial, chamamos de lifer”, explica a jovem que também compara a prática com um jogo de capturar espécies raras. “Sempre que você avista uma espécie, é sempre um momento muito interessante, eu gosto muito de falar que os passarinhos do Brasil são pokémons, você vai colecionando novos passarinhos que você vê”, brinca.

Os tons de laranja são vistos mais facilmente em meio à floresta(foto: Wikipedia/Reprodução)
Os tons de laranja são vistos mais facilmente em meio à floresta (foto: Wikipedia/Reprodução)

A recordação do primeiro contato com a observação de aves, para Ana Júlia, ainda é inesquecível. “Vi o Saíra-sete-cores, e depois a Viuvinha Dominicana, que é um pássaro preto que tem uma modificação em duas penas na cauda”, lembra. As dicas para quem quer começar o birdwatching são fáceis, o biólogo João Martins acrescenta que a prática não tem segredo. “A observação de aves é uma prática bem simples, que exige pouco para ser iniciada. Com um binóculo e disposição para caminhadas, o iniciante já pode começar a praticar, contudo, eu recomendo ingressar em grupo de observadores, pois há muita experiência a ser compartilhada pelos que praticam a observação”.

(foto: Silvia Linhares/Divulgação)
(foto: Silvia Linhares/Divulgação)

A empolgação  de Ana Júlia assemelha-se com a de Silvia Faustino, embora esta já possua uma trajetória de oito anos colecionando visões de passáros. “O Brasil todo é lindo. Difícil destacar o melhor lugar a que já fui, aliás, a América do Sul toda. Cada expedição é uma nova experiência”, afirma. A espécie que marcou Silvia durante todo seu curso foi a Rolinha-do-Planalto, “é uma espécie ameaçada de extinção e que ficou 75 anos sem registros e por isso  fiquei esperando e sonhando com o momento em que eu iria registrá-la”, conta. A prática para ela ainda não terminou, pois seu desejo ainda é de encontrar mais categorias. “Sonho ver as chamadas aves-do-paraíso, o que espero fazer nos próximos anos”, finaliza.

Silvia Faustino gosta de se vestir igual aos pássaros que ela registra. Na foto, homenagem à rolinha do planalto(foto: Silvia Linhares/Divulgação)
Silvia Faustino gosta de se vestir igual aos pássaros que ela registra. Na foto, homenagem à rolinha do planalto (foto: Silvia Linhares/Divulgação)

Embora a prática possa ser prazerosa, Martins destaca a prioridade que o observador deve ter e sinaliza alguns cuidados.  “A prática do uso de playback é um bom exemplo disso. Quando uma ave é atraída com o canto gravado por um observador, ela deixa de buscar alimento e pode ficar exposta à ação de predadores”, alerta. “Uma recomendação para os observadores: o bem-estar das aves deve estar sempre em primeiro lugar. Quando percebemos que essa frase é seguida, o observador consciente não coloca a obtenção de um lifer ou a realização de uma ótima foto como prioridade”. (AB)

Centro de Visitantes Paineiras, no Parque Nacional da Tijuca, recebe a 6ª edição do Avistar Rio

A contemplação dos pássaros em seu habitat natural reunirá centenas de pessoas no Centro de Visitantes Paineiras, no Parque Nacional da Tijuca, nos dias 9, 10 e 11 de novembro, no Rio de Janeiro. A sexta edição do Avistar Rio irá reunir, pesquisadores, gestores ambientais, artistas plásticos, fotógrafos e entusiastas da causa animal com o objetivo de estimular a atividade de observação e fotografia de aves. Além de promover a visitação pública consciente dos parques nacionais e celebrar a biodiversidade.

 

Programação Avistar Rio 2018

 

Sexta, 9 de novembro

19h – Abertura do Avistar Rio

 

Sábado, 10 de novembro

7h - Passarinhada no Parque Nacional da Tijuca;

9h – Plantio de mudas;

9h - Oficina de Condutores de Trilha - Tietta Pivatto

10h – Exposição “Modelos didáticos para ensino de Biologia”;

10h às 11h30 – Palestras

·         Fotografando aves amazônicas com bridge camera – Aisse Gaerter;

·         Cristo Redentor: as aves do entorno – Ana Aroeira;

·         Povos indígenas – Viviane Cunha/ Secretaria de Educação de São Félix do Xingu (PA);

·         Aves do Campo de São Bento – Alessandro Alegretti.

13h – Vídeos: “As aves através da janela".

13h30 – Projeção de fotos selecionadas pelo Clube de Observação de Aves (COA- RJ);

14h - Oficina Ilustração de aves para crianças - Lucas Henrique

14h às 16h30 – Palestras

Unidades de Conservação para a Avifauna Fluminense - Paulo Schiavo INEA;

Centro de Reabilitação de Animais Silvestres em Unidades de Conservação – Eduardo Lardosa;

RioZoo e conservação – Fernando Souza;

Projeto Pássaro Solto – Diogo Luiz;

Rede Brasileira de Trilhas - Pedro Cunha Menezes.

16h30 – Mesa redonda – Parques para todos, com Fernando Souza (Grupo Cataratas), Kika Bradford (Confederação Brasileira de Montanhismo e Escalada) e Pedro Cunha Menezes - ICMBio

Domingo, 11 de novembro

 7h – Passarinhada no Parque Nacional da Tijuca;

9h – Plantio de mudas;

9h - Oficina de Condutores de Trilha - Tietta Pivatto

10h - Oficina Ilustração Naturalista - Gustavo Marigo

10h às 12h – Palestras

Aves Extintas no Estado do Rio de Janeiro;

Astrofotografia – Carlos Fairbairn;

Plantas que atraem aves – Jovani Monteiro;

AquaRio – Marcelo Szpilman;

Programa Amigos da SAVE – Alecssandra Tassoni.13h Vídeos: “As aves através da janela".

 

13h30 – Projeção de fotos selecionadas pelo Clube de Observação de Aves (COA- RJ);

14h Oficina Gravação e tratamento - Gabriel Mello

14h às 15h30 – Palestras

Régua – Nicholas e Raquel Locke;

Abrolhos, entre aves e baleias – Marco Terranova;

Atento ao Céu e na Trilha – Guilherme Jones;

Birdwatching e mudança social – Daniel Cywinski;

 

16h – Mesa redonda – Refaunação, com participação de representantes dos projetos “Volta Guará” (Bruno Cid/INEA), “Refauna” (Maron Galliez/ LECP-UFRJ), “Reintrodução da Jacutinga” (Alecsandra Tassoni/ SALVE- BRASIL) e “Papagaio-do-peito-roxo” (Vanessa Kanaã/ Espaço Silvestre)

 

Mais informações sobre o evento: avistarbrasil.com.br/av19/index.php/avistar-rio

 

Serviço

AvistarRio 2018

Datas: 9,10 e 11 de novembro

Local: Centro de Visitantes Paineiras (Estrada das Paineiras, s/n)

Como chegar:  As vans oficiais que chegam até o Centro de Visitantes Paineiras saem de dois pontos da cidade: Copacabana e Largo do Machado. Também é possível chegar de táxi ou Uber.

Preço vans oficiais:  Saídas Copacabana e Largo do Machado: R$33,00

Horário de funcionamento das bilheterias: Das 8h às 17h

Informações: www.paineirascorcovado.com.br

 

 Mais informações sobre o evento: avistarbrasil.com.br/av19/index.php/avistar-rio

 

* Estagiária sob supervisão de Taís Braga

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