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Correio Braziliense

Mata adentro cortando a Serra do Mar em Curitiba

Na Serra do Mar, trajeto entre a capital e o litoral, um cenário impressionante, quase primitivo, leva o visitante por um passeio de trem. Roteiro perfeito para aproveitar a natureza e o ar puro


postado em 21/03/2019 10:00

O trem de Serra Verde, na Serra do Mar, Curitiba (PR).(foto: Wikimedia Commons)
O trem de Serra Verde, na Serra do Mar, Curitiba (PR). (foto: Wikimedia Commons)


A vegetação nativa da Mata Atlântica foi praticamente exterminada durante a colonização do país. Hoje, existem somente 15% preservados do total que um dia recobriu a costa brasileira. Na Serra do Mar, conjunto montanhoso que separa Curitiba do litoral, encontram-se 4,5% do que sobrou da mata. Esse cenário fantástico, praticamente intocado e selvagem, é a principal atração no passeio de trem na linha que corta as cidades de Paranaguá a Curitiba.

A viagem é bem democrática e traz opções tanto ao público mais exigente quanto àquele que só deseja conhecer as maravilhas naturais e o delicioso ar puro da região serrana. À porta de embarque, estava Hugo Silva, um jovem estagiário de 21 anos, que visitava pela primeira vez o Paraná. Planejando a viagem há meses, o brasiliense conta que sempre teve o sonho de conhecer a Região sul do país. “Eu vinha idealizando o passeio há bastante tempo, assim que cheguei a Curitiba, há três dias, passei a buscar o que a cidade poderia oferecer de diferente, e foi assim que cheguei ao passeio de trem. Logo me encantei com as fotos das paisagens por onde passa e, também, estou muito curioso com a culinária típica daqui”, diz o jovem turista.

Paisagem histórica

 

Vagão/varanda Barão Serro Azul - Trem Serra Verde Express. Curitiba, Paraná. (foto: Serra Verde Express/Divulgação)
Vagão/varanda Barão Serro Azul - Trem Serra Verde Express. Curitiba, Paraná. (foto: Serra Verde Express/Divulgação)

 


As atenções se voltam para as janelas que descortinam incrível riqueza de tons, paisagens, aromas e sensações. Os sentidos são aguçados ao atravessar o hiato entre a capital e a cidade de Morretes (destino final), um recanto que conserva muita história em suas ruas de pedras e casarões antigos. Os quase 70 quilômetros que separam a capital da costa marítima são percorridos em três horas e meia de viagem, a uma velocidade média de 30 km/h. A lentidão é a desculpa perfeita para aproveitar ao máximo todo o panorama verde.

Além das maravilhas naturais, o viajante conhecerá as histórias que envolvem a construção da ferrovia e de uma das figuras mais aclamadas da memória paranaense, o Barão do Serro Azul, como ficou conhecido Ildefonso Pereira Correia. Expoente da produção de erva-mate e político de biografia controversa, cheia de meandros inesperados, traições e reviravoltas. Ele empresta o nome ao último vagão do Trem da Serra Verde, inaugurado em 22 de fevereiro e aberto para viagens em 1º de março.

Inovando a experiência de quem anda sobre os trilhos, o carro recém-lançado promove ao visitante a sensação de integração à natureza. Além das amplas janelas, o Barão do Serro Azul também possui uma agradável varanda, climatizada da melhor forma, com o límpido ar das montanhas verdes. Enquanto sente o frescor da Serra do Mar, o viajante ouve o guia contar sobre os fatos que marcaram a abertura do caminho do trem e sobre o barão, que foi morto às margens daqueles trilhos, após sofrer uma traição política.


O mártir injustiçado

 

 

Ildefonso Pereira Correia, o Barão do Serro Azul.(foto: Luiza Fernanda P.S/Flickr/Reprodução)
Ildefonso Pereira Correia, o Barão do Serro Azul. (foto: Luiza Fernanda P.S/Flickr/Reprodução)
 



Em oposição à curta vida do Barão do Serro Azul, sua biografia rendeu dezenas de desdobramentos ao passar dos anos. O maior produtor ervateiro do país e, desde jovem, engajado nos problemas sociais e políticos que afligiam o Brasil Colônia, Ildefonso foi eleito deputado provincial em 1882, assumindo interinamente o governo do atual estado do Paraná em 1888. A figura popular, progressista e abolicionista foi rapidamente relacionada aos maragatos, rebeldes que deram início à Revolução Federalista e que lutavam contra a política instituída no período pós-Proclamação da República.

Após represália militar, um novo governo foi instituído no Paraná, e o Barão do Serro Azul perdeu seu cargo. Com o nome relacionado às forças revolucionárias, ele foi considerado um traidor da República e, sem o devido processo legal de julgamento ou denúncia formalizada, Ildefonso foi levado a uma emboscada junto de cinco amigos copartidários. Escoltados pelo exército, os seis homens embarcaram no trem e foram sumariamente executados em um trecho de declive, para dificultar as ações de busca.

Ildefonso teve seu nome apagado dos anais paranaenses, por ter sido associado à revolução. Entretanto, em 1942, uma biografia trazia a verdadeira história do político e o afastava da lama em que foi posto por anos a fio. Com o reconhecimento do trabalho do Barão, título concedido pela princesa Isabel, a capital paranaense rendeu-se aos feitos de Ildefonso, homenageando-o em sua história e por monumentos espalhados na cidade. Sua trajetória de luta hoje é contada nas escolas, em livros e filmes.

No trajeto Curitiba-Morretes, feito pelo Trem da Serra Verde, há uma cruz fincada no exato local onde os injustiçados foram sumariamente executados. Como forma de gratidão à luta do barão e de seus companheiros, os passageiros do vagão homônimo ao mártir recebem rosas brancas para serem lançadas ao pé da cruz. Momento emocionante dentre as maravilhas naturais.

 

 

 

Onde Comer  

 

Prato de vagem salpicada com sal grosso, do restaurante Hai Yo, do Gran Hotel Rayon, em Curitiba (PR).(foto: Restaurante Hai Yo/Divulgação)
Prato de vagem salpicada com sal grosso, do restaurante Hai Yo, do Gran Hotel Rayon, em Curitiba (PR). (foto: Restaurante Hai Yo/Divulgação)


Delícias orientais
Grand Hotel Rayon - Rua Visconde de Nacar, 1424, Centro - Curitiba (PR)
@haiyo_restaurante, @grandhotelrayon

» Assim como o restante da capital, o restaurante Hai Yo une ares moderninhos à história, a última fica a cargo do hotel onde está localizado, o Grand Hotel Rayon. Famosa pelas noites dançantes existentes há 25 anos, a hospedaria do Rayon é uma antiga conhecida de Curitiba; as acomodações luxuosas mesclam-se aos ambientes abertos ao público, que pode desfrutar de boa comida e boa música sem a necessidade de hospedagem. Mais novo querido e aposta certeira de boas experiências, o Hai Yo é um restaurante oriental, chefiado pelo renomado Kazuo Harada, ganhador da estrela do Guia Michelin por três anos seguidos.

 

 

Viaje 

 

Último vagão que possui varanda da Serra Verde Express, em Curitiba, Paraná. (foto: Serra Verde Express/Divulgação)
Último vagão que possui varanda da Serra Verde Express, em Curitiba, Paraná. (foto: Serra Verde Express/Divulgação)


Os passeios no vagão Barão do Serro Azul do Trem Serra Verde Express saem diariamente da Estação Rodoferroviária de Curitiba às 8h30 e seguem até a cidade de Morretes. Os bilhetes custam R$ 235 por adulto e R$ 145 por criança (de até 12 anos). No valor estão inclusos serviços, welcome drink (espumante moscatel), café da manhã, bebidas à vontade (água, café, chá, refrigerante e cerveja) e guia bilíngue. É possível comprar as passagens pelo site www.serraverdeexpress.com.br ou no balcão da estação. Mais informações: telefone (41) 3888-3488, WhatsApp (41) 9 8867-8022, ou e-mail contato@serraverdeexpress.com.br.

 




* Estagiária sob supervisão de Taís Braga

» Viagem a convite do Trem Serra Verde Express

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