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Correio Braziliense SOB O SOLO

Lugares que abrigam memórias crescidas de maneira talentosa

Nascidas de uma necessidade, cidades subterrâneas abrigam histórias seculares e mostram que é possível evoluir de formas engenhosas e inimagináveis


postado em 03/05/2019 09:00 / atualizado em 02/05/2019 18:52

(foto: Wikimedia Commons/Reprodução)
(foto: Wikimedia Commons/Reprodução)

Um pesadelo para os claustrofóbicos, um convite aos curiosos. As cidades subterrâneas são um espetáculo que guardam tesouros históricos e também moderníssimos. Utilizar o espaço sob a superfície poderia ser a alternativa mais inteligente às aglomerações urbanas e a consequente disputa de espaços para a expansão das cidades. Até que o recurso se torne comum e os países desenvolvam suas cidades abaixo do solo, quem quiser conhecer locais como estes precisa viajar o mundo. Milenares ou contemporâneas, a necessidade é palavra de ordem no desenvolvimento e construção subterrânea. Utilizadas como abrigo de condições climáticas adversas ou refúgios em tempos difíceis de guerra, as cidades quase escondidas revelam a perspicácia do homem para enfrentar as contrariedades impostas pela natureza ou criadas pela própria humanidade.

 

As saídas inteligentes encontradas para contornar essas dificuldades são o aspecto que mais impressionou o engenheiro florestal Daniel Castro, 31 anos. Ele conheceu quatro lugares construídos sob a superfície, as Minas de Sal polonesas e os túneis subterrâneos de Hong Kong, em 2014, Dogon Country no Mali, em 2016 e Path, no Canadá, em 2018. “Admiro a engenhosidade das populações em todos os ambientes e lidando com os mais variados materiais, como na África com a terra ou em Hong Kong, com metal e vidro, e assim conseguiriam desenvolver opções adequadas às suas necessidades”, conta. “Os passeios às Minas de Sal são muito interessantes e diferentes. Não existe nada igual, alinhar o turismo à história da mineração e a questões religiosas é mindblowing. Explorados desde o século 18, os túneis apresentam todo tipo de enraizamento. Há uma capela gigantesca, a estátua do papa João Paulo II e uma parede com o quadro da última ceia de DaVinci esculpidas em sal, é inacreditável”, Daniel lembra do passeio à Polônia.

 

Em um cenário mais moderno, na cidade de Path, em Toronto, o engenheiro impressionou-se com o gerenciamento das enormes galerias. “É o maior complexo comercial subterrâneo, é uma metrópole totalmente funcional que torna possível o desenvolvimento dos trabalhos, apesar das intempéries externas. Path renova a ideia de que cidades subterrâneas não precisam ser algo antigo, que podem assumir uma face totalmente moderna. Andando pelos túneis, nem parece que estamos no interior da terra”, diz.

 

Os outros dois locais visitados por Daniel contrastam em sua finalidade e período histórico. “Hong Kong tem um sistema de túneis enraizado e centralizado, cuja rocha-mater é o concreto, é quase uma trilha. Ela atende a uma demanda atual de urbanização. Há uma dupla utilização dos espaços já saturados, é solução engenhosa para a arquitetura e urbanismo. Para o turista vale a reflexão de que, além de um ponto a ser visitado, é uma saída funcional para a população e a cidade”. Em Dogon Country, a cidade secular se mantém como foi criada. “É um paredão de rocha com mais de 600 anos, utilizado para abrigar refugiados no período de guerra e islamização dos povos. A região fronteiriça ainda abriga pessoas que fazem do refúgio sua moradia”, narra o engenheiro.

 

 

 

Path- Toronto, Canadá

 

 

(foto: Wikimedia Commons/Reprodução)
(foto: Wikimedia Commons/Reprodução)

 

 

 

 O maior complexo subterrâneo do mundo está em Toronto. Sua grandeza foi reconhecida pelo Guinnes Book, são mais de 30 quilômetros de túneis de uso exclusivo para pedestres. O local abriga cinco estações de metrô, um terminal ferroviário, um comércio variado que oferece desde clínicas médicas a lavanderias. Nos corredores do Path, é possível encontrar dois shoppings centers, seis hotéis, 20 estacionamentos e 50 edifícios. Quatro pavimentos formam o conjunto comercial e, hoje, são estudados projetos para a ampliação de mais 30 quilômetros cavados sob a maior cidade do país.

 

 

 

Os túneis canadenses subterrâneos começaram a ser construídos no início do século 20, com sucessivas expansões ao longo das décadas seguintes. O projeto do Path visava unificar a série de corredores individuais que cortavam Toronto por baixo da superfície. Em 1987, o conselho da cidade autorizou o avanço das obras de ampliação. Além de ampliar o comércio local, as galerias são um abrigo do conhecido frio canadense, uma vez que toda a extensão é artificialmente climatizada. Nos dias mais gélidos, a temperatura dos túneis permanece agradável aos mais de 200 mil passageiros que trafegam nas linhas metroviárias e ferroviárias e aos clientes das lojas.


Edinburgh Vaults - Edimburgo, Reino Unido

 

 

(foto: Wikimedia Commons/Reprodução)
(foto: Wikimedia Commons/Reprodução)



Sob os 19 arcos da South Bridge, na capital da Escócia, existe uma série de câmaras subterrâneas datadas do século 18. As galerias foram inicialmente utilizadas para abrigar parte do comércio local, como sapatarias, tavernas e oficinas, e manteve o seu propósito por cerca de três décadas. Entretanto, as condições climáticas precárias do interior da caverna, com grande umidade e pouca ventilação, afastaram os comerciantes. Abandonados, os saguões se tornaram abrigo para moradores de rua e também para a prática de atividades ilegais, como a produção de bebidas. Reza a lenda que o lugar passou a ser usado como desova de cadáveres pela famosa dupla de assassinos em série da época, Burke e Hare. Essa hipótese, no entanto, nunca foi confirmada pelas autoridades, mas o boato se espalhou e contribuiu para a fama sombria da caverna.

 

 

O local ficou abandonado até os anos 1980, sendo gradativamente explorado. Os túneis viraram cenário para produções televisivas sobre atividades paranormais, em 2010. Hoje, grande parte está desativada, mas alguns pontos recebem os corajosos turistas que desejam conhecer as histórias macabras que o local abriga, além de dois grandes saguões, o The Cave e o The Rowantree, que recebem eventos específicos, como shows e casamentos.


Coober Pedy - Austrália

 

 

(foto: Wikimedia Commons/Reprodução)
(foto: Wikimedia Commons/Reprodução)

 

Expoente quando o assunto é a produção da pedra preciosa opala, a cidade de Coober Pedy não é um local tão famoso como opção de morada. As condições climáticas extremas, típicas de áreas desérticas, com dias escaldantes e noites gélidas, levaram os moradores a explorarem o interior da terra, para se abrigarem dessas intempéries. Pouco habitada, asila cerca de 3,5 mil habitantes. O nome é derivado do termo aborígene kupa piti, que significa homem branco em um buraco. Lá, existem 70 poços de extração de opala, o maior do mundo e as opções turísticas valem-se da configuração curiosa da cidade, assim como das pedras como atrativo.

 

 

A paisagem selvagem e avermelhada, devido à areia abundante que recobre toda a área, atrai turistas que desejam conhecer as peculiaridades do modo de vida do lugar. Os passeios, quase em sua totalidade, recorrem às minas de opala. O visitante pode adentrar os campos de extração e entender como é realizado o processo exploratório, e as minas já abandonadas tornaram-se museus. Os céus guardam um espetáculo à parte, à distância das ofuscantes luzes das grandes cidades, quem estiver sob o luar em Coober Pedy desfrutará do intenso e farto brilho dos milhões de estrelas visíveis na região.


Minas de Sal - Wieliczka, Polônia

 

 

(foto: SteveThompson/Flickr)
(foto: SteveThompson/Flickr)

 

Um dos pontos mais visitados do país, as Minas de Sal,  conhecidas como a catedral subterrânea de sal, foi reconhecida como Patrimônio da Humanidade pela Unesco em 1978. A gigantesca rede de galerias soma 300 quilômetros de extensão e está a 327 metros de profundidade, a uma distância de 15 quilômetros da cidade de Cracóvia. A exploração de minério foi iniciada no século 18, e a produção de sal de cozinha extraído das minas perdurou até 2007. Anualmente, os túneis recebem 800 mil turistas.

 

 

Os corredores que guardam histórias dos mineradores abrigam uma forte influência religiosa cristã. Dos nove andares que formam o complexo, com mais de 3 mil câmaras, três estão abertos à visitação. As minas oferecem dois tipos de passeios guiados, um destinado à história da exploração do sal. Outro dedicado aos fiéis, que podem conhecer a estátua do papa João Paulo II, esculpida em sal e, ao final , assistir a uma missa na catedral subterrânea.



Réso - Montreal, Canadá

 

(foto: SteveThompson/Flickr)
(foto: SteveThompson/Flickr)



Inspirada pela cidade compatriota de Path, Réso é um desenvolvido centro comercial canadense. Assim como a primeira, os túneis somam incríveis 30 quilômetros escavados sob a metrópole. A frequência diária é de cerca de meio milhão de pessoas que trafegam no interior da terra. O rigoroso frio do país também foi o principal motivo para a construção das passagens e da urbe.

 

 

Réso também é conhecido como The Underground City ou a Cidade Subterrânea. Seu nome deriva da palavra francesa réseau, que significa rede. Inaugurada em 2006, ela teve suas primeiras escavações na década de 1960 e aos poucos os corredores individuais foram sendo unificados. O complexo abriga sete estações de metrô, cerca de 1.500 lojas e possui 120 pontos de acessos na superfície de Montreal. Além de um importante ponto comercial, o local tem muitas opções culturais, como uma biblioteca, cinema e galerias de arte.


Portland Underground - Oregon, Estados Unidos

 

 

 


A série de túneis que cortam a cidade de Portland, ligando Chinatown a Downtown, também conhecidos como Shanghai Tunnels ou Túneis de Xangai, foram criados no século 19. Inicialmente criados para o transporte de mercadorias chegadas pelas águas do rio Willamette, as galerias subterrâneas, entre 1850 e 1940, foram cenário de práticas criminosas, como tráfico humano e, posteriormente, contrabando de bebidas durante o vigor da Lei Seca, que proibia a comercialização de álcool no território estadunidense, no início do século 20.

 

 

Grande parte dos túneis foi desativada, mas há espaços dedicados à visitação turística. Sempre guiados, os passeios contam a história da criação e das atividades desenvolvidas na cidade de Portland e a utilização legal e ilegal dos túneis. Com lanternas em mãos, o visitante trilha os caminhos escuros das galerias.

 

 

 

*Estágiária sob supervisão de Taís Braga

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