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Correio Braziliense COMPORTAMENTO

Visita aos que se foram em campos santos que exalam cultura

Conhecer cemitérios como roteiro de passeios atrai pela história, monumentos, esculturas e obras arquitetônicas erguidas em homenagem a pessoas que deixaram exemplos de vida


postado em 23/05/2019 10:00 / atualizado em 22/05/2019 15:31

“Deixemos de coisa, cuidemos da vida
Pois se não chega a morte ou coisa parecida
E nos arrasta moço sem ter visto a vida...”


(Belchior, em Hora do almoço)

(foto: pxhere- reprodução)
(foto: pxhere- reprodução)

Amor, admiração e saudade são guardados com carinho em meio ao silêncio, à natureza , sob a proteção de anjos e santos. O cenário nem sempre é o mesmo, mas a sensação ao visitar cemitérios quase sempre é de respeito. Muitos consideram mórbido, até assustador, mas um novo olhar revela as belezas guardadas em jazigos, túmulos, trabalhos arquitetônicos criados para atravessar a história. Conhecer os locais onde foram sepultadas figuras públicas, históricas, tem se tornado frequente. Alguns cemitérios pelo mundo fazem parte de destinos turísticos.

De acordo com o Ministério do Turismo (MTur), no Brasil, cemitérios como o da Consolação, em São Paulo, e São João Batista, no Rio de Janeiro, têm serviço de guias para orientar visitas pelas ruas e quadras e identificar túmulos. Estudantes, curiosos e turistas foram os grupos mais interessados. Pelo mundo, alguns ganham destaque, como o Cemitério da Recoleta, em Buenos Aires, na Argentina, e Père Lachaise, em Paris, na França.

Além de apreciar as esculturas e jazigos construídos em diversos formatos, é possível aprender um pouco da história de personagens que foram importantes para a história, as artes e outros aspectos das sociedades. Para a especialista em Segmentação de Turismo e professora do Departamento de Excelência em Turismo da Universidade de Brasília (UnB) Mara Flora, o que determina esse tipo de visita é a motivação do público que vê relevância em determinado assunto. “É um turismo que pode agradar a até três públicos, quem estuda arte e arquitetura, pessoas que se interessam pelas histórias dos países ou até mesmo aqueles que vão ao local para prestar homenagem ao ídolo que já faleceu”, complementa.

A especialista explica que há um engano ao falar dessa prática de turismo e que deve haver uma atenção à denominação que se dá à ação. “Não devemos ficar renomeando ou dando nomes específicos como turismo cemiterial, necroturismo ou qualquer outro tipo”, alerta. “É apenas uma visita como qualquer outra e que está no âmbito cultural do turismo”, esclarece.

Tatiana no túmulo de Napoleão: poder(foto: Blog A Nomade/Divulgação)
Tatiana no túmulo de Napoleão: poder (foto: Blog A Nomade/Divulgação)

Aberto em 1852, pelo então imperador D. Pedro II, o cemitério São João batista, no RJ, recebe visitantes interessados em conhecer os jazigos de brasileiros ilustres como o inventor do avião Santos Dumont, os cantores Carmen Miranda, Cazuza, Tom Jobim, o escritor Machado de Assis e o ex-presidente da República Floriano Peixoto. Ele é aberto aos turistas na última sexta-feira do mês. De acordo com o MTur, é oferecido um sistema de QR Code, em que as pessoas podem aprender mais sobre a vida dos famosos sepultados ali por meio de obras, fotos, vídeos, textos biográficos e outras curiosidades.

“Eu sempre me interessei por essas visitas e costumo colocá-las nos meus roteiros de viagem. Não se trata de nenhum interesse mórbido, apenas cultural e turístico”, diz Tatiana Rocha, administradora do site A nômade, que ressalta ao valor histórico dos locais. “Quando tem uma história interessante, arquitetura rica e personalidades enterradas ali, acho superbacana visitar”, ressalta. Ela visitou o Palácio dos Inválidos, onde estão os restos mortais de Napoleão Bonaparte, imperador e líder político e militar francês e recomenda a experiência. “Acho muito bacana comparar quem ele foi e a grandeza que ele buscava na vida, o poder, o reconhecimento, o império. Foi uma pessoa importante para a história. O corpo e a energia dele estão ali, pertinho de você, e o túmulo reflete exatamente isso, uma grandeza e imponência surreal”, descreve.

Em Nova York, a estudante de relações internacionais Renata Lima, 21 anos, descobriu a pequena necrópole da St. Paul’s Chapel (Capela de São Paulo), conhecida como “a pequena igreja que permaneceu de pé” por ter resistido ao grande incêndio ocorrido na cidade em 1776 e ao ataque às Torres Gêmeas em 2001, que ficavam bem à frente do terreno da igreja, que na ocasião serviu de abrigo para as vítimas e os profissionais que ajudaram no socorro às vítimas. “Gosto das esculturas, lápides antigas e é interessante pensar como cada um viveu sua vida antes de chegar até aqui”, disse.

Aproveitar a tranquilidade de campos santos para refletir sobre a vida a partir dos exemplos deixados por pessoas comuns e figuras de destaque das sociedades pode enriquecer um roteiro turístico. Um tipo diferente de riqueza é escondida em mausoléus e sepulturas, capazes de fazer o visitante ficar horas observando. Conheça alguns desses locais.

Pére-Lachaise, Paris (França)

(foto: Ester GB/Pixabay)
(foto: Ester GB/Pixabay)


O local tornou-se um dos pontos turísticos mais frequentados do país. São mais de 3 milhões de visitantes por ano. Lá, descansam figuras célebres como Jim Morrison (1943-1971), Frédéric Chopin (1810-1849), Auguste Comte (1798-1857), Oscar Wilde (1854-1900), Édit Piaf (1915-1963), Marcel Proust (1871-1922), Allan Kardec (1804-1869), Honoré de Balzac (1799-1850).

Os mais românticos poderão conhecer o local onde finalmente o casal Pedro Abelardo e Heloísa de Paráclito conseguiu ficar unido, após ser separado pelo tio da moça e vivido para a religião. A história virou filme (Em nome de Deus, 1988) que fala sobre a paixão do filósofo e professor da catedral de Notre Dame pela aluna de 16 anos. Eles tiveram um filho, Aastrolábio. Abelardo, vítima de um ataque planejado pelo tio, separa-se dela, que vive o resto da vida em um convento. Heloísa pediu para ser enterrada ao lado do amado.

Cemitério La Recoleta, Buenos Aires (Argentina)
(foto: Halloween HIB/Pixabay)
(foto: Halloween HIB/Pixabay)

Elogiado pela belíssima arquitetura, o cemitério é uma boa opção de visita para admiradores de arte e contadores de histórias. Vizinho à Praça Intendente Torcuato de Alvear, no bairro Recoleta, é, atualmente, lugar para grandes personalidades argentinas descansarem. Pequenos e grandes mausoléus que exibem 4 mil abóbodas, construídos em mármores e belíssimas estátuas são remetidas às imagens de santos e anjos. La Recoleta, foi inspirado em Pére- Lachaise, na França, e construído em 1822, pelo arquiteto e engenheiro francês, Prosper Catelin.

A ideia principal era de ter um cemitério público em Buenos Aires, mas no início apenas os católicos podiam ser enterrados no lugar. A suntuosidade dos jazigos, que guardam verdadeiras obras de arte, demonstra que lá repousam integrantes de diversas famílias da aristocracia argentina, personalidades políticas e artistas, além de prêmios Nobel. Uma das mais conhecidas é Evita Péron, segunda mulher do general Perón (presidente do país) a quem se atribui a conquista do voto feminino na Argentina.
O túmulo dela é um dos mais visitados.

Cemitério da Consolação, São Paulo
(foto: Agemt/Reprodução)
(foto: Agemt/Reprodução)

A visita guiada dura uma hora e meia, às terças e sextas-feiras. O cemitério, inaugurado em 1858, é o mais antigo da cidade de São Paulo. Além de nomes importantes da história brasileira, estão sepultados artistas, escritores e políticos. Um dos túmulos mais visitados é o do escritor Monteiro Lobato. Lá estão os restos mortais de Oswald de Andrade, da pintora Tarsila do Amaral, em jazigos que podem ser identificados por endereços com rua, quadra e número de lote.

O ambiente tranquilo, numa das zonas mais importantes da cidade, é repleto de árvores e esculturas criadas por artistas como o arquiteto Ramos de Azevedo, que projetou o órtão de entrada do cemitério e o escultor Victor Brecheret, responsável por algumas das belas imagens angelicais que guardam pessoas queridas e admiradas pelos brasileiros.

Cemitério Judeu de Praga (República Tcheca)

(foto: Olhares Sapo/Reprodução)
(foto: Olhares Sapo/Reprodução)

Embora não haja registro de nomes importantes e conhecidos da história mundial sepultados naquele local, o cemitério é um dos locais mais surpreendentes da capital da República Tcheca. Lá estão fincadas 12 mil lápides, mas estima-se que estejam enterrados cerca de 100 mil corpos. Durante mais de 300 anos, o espaço era o único permitido ao sepultamento de judeus. Os historiadores acreditam que em cada cova eram colocados até 10 corpos sobrepostos. O cemitério é uma das provas mais chocantes, embora silenciosa, do genocídio nazista.
 

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