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Correio Braziliense ARQUITETURA

Casas que espelham a história nas cores e arquitetura

Há muitas regiões que preservam heranças culturais manifestadas pelo conjunto de habitações coloridas, que extasiam os viajantes


postado em 24/07/2019 16:21 / atualizado em 24/07/2019 16:22

“As casas tão verde e rosa, que vão passando ao nos ver passar. Os dois lados da janela, e aquela num tom de azul quase inexistente, azul que não há. Azul que é pura memória de algum lugar”

Trem das cores — Caetano Veloso

Bairro de Bryggen na cidade de Bergen- Noruega(foto: Visit Norway/Divulgação)
Bairro de Bryggen na cidade de Bergen- Noruega (foto: Visit Norway/Divulgação)


Boa parte das cidades do mundo que se apresentam como polos de turismo tem uma arquitetura comum, com cores monótonas que, muitas vezes, frustram os viajantes. Não por acaso, aquelas que optam por encher os olhos de cores de quem se dispõe a conhecê-las encantam a ponto de despertar o desejo de uma nova visita. Esse colorido que mexe com o imaginário foi cantado em verso e prosa por Caetano Veloso.

Cidades da Noruega, da Itália, da França, de Curação e da África do Sul representam, com suas cores, as memórias da multiplicidade da pintura nos conjuntos de habitações, que mudam até o formato da construção. O colorido é usado como instrumento para facilitar a locomoção, como manifestação cultural, para alívio dos olhos e, claro, para espalhar um clima de alegria. Gosto artístico de antepassados que é preservado pelos novos moradores.

Estudos arqueológicos revelam que construções de até seis mil anos atrás da Ilha de Creta, na Grécia, de cidades egípcias e da antiga Babilônia eram multicoloridas. A diversidade do colorido tinha como significados a proteção dos deuses,  fertilidade de plantações, as criações dos animais e a saúde dos moradores, além de atrair bons visitantes. O professor de arquitetura e urbanismo da Universidade de Brasília (UnB) Frederico Flósculo explica que a tendência de usar o multicolorido nas casas é cultural, e ressalta a diferença entre o gosto antigo e o atual.

“Colorir casas, casarões, bairros é traço cultural marcante, comum em muitas civilizações antigas, tanto nos planaltos asiáticos quanto da América pré-colombiana. Já a civilização moderna segue códigos de cores repletos de combinações despidas de significados religiosos ou mágicos; estão mais associados a preferências visuais, que tendem a uma padronização tediosa, como cinza, bege, cores neutras que são usadas em carros”, afirma o professor.

Contrastes

Apesar de tudo se resumir à cultura, cada povo tem a sua diferenciação. Na Noruega, por exemplo, são os restos de tradições antigas de nórdicos que vivem nas pequenas vilas. São conservadores, amorosos, os moradores de vilarejos de cidades da Itália e de Portugal, que valorizam características medievais, e até mesmo do Brasil. Os tons claros de Paris são a descrição das culturas urbanas — cidades e vilas — e revelam um clima acolhedor, pacífico e educado. A Itália, com cores fortes para atração de visitantes, faz contraste com a clareza das montanhas e de plantações.

A manifestação social da África do Sul, por sua vez, está presente nas cores pela identidade que possui. A pintura faz um trabalho essencial na transmissão dessa mensagem, conforme relatado pelo professor da UnB. “As cores cumprem um papel fundamental para a identidade de um povo. Até hoje, adoramos as nossas cores, nas bandeiras, nos brasões, nos símbolos de nossa pátria, regiões, etnias, famílias e empresas, quando adotamos o tom de tinta para sua identificação. Vermelho e azul determinam contextos políticos e significados ideológicos. Cores são para identificar o bem e o mal.”, explica.

 

Dos tempos dos Vikings

 
Bergen — Noruega

(foto: Marius Fiskum/Divulgação)
(foto: Marius Fiskum/Divulgação)

Bergen é a segunda cidade da Noruega em população. Desde 1979, é considerada patrimônio mundial da humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) em razão da riqueza da cultura medieval na região, distribuída em sua arquitetura colorida, principalmente do bairro de Bryggen. A cidade que apresenta um clima frio que persiste em maior parte do ano e muita chuva atraiu, em 2018, mais de 2 milhões de visitantes. Deles, 10.339 eram brasileiros. O ambiente acolhedor é ocupado por um pouco mais de 280 mil habitantes. A cidade está localizada em uma península ao longo da costa Sudoeste norueguense, no centro dos fiordes — mar e montanhas rochosas. Bergen, cercada pelas De syv fjell (Sete Serras), fica a uma distância de 304 km de Oslo, capital do país.

A cidade norueguesa foi fundada em 1070 pelo rei Olav Kyrre. Até o século XIV, acolheu a fortificação viking, povo nórdico ou normando, originário da Escandinávia, região antiga da Europa. Os vikings praticavam atividades agrícolas, artesanato e comércio marítimo. O conjunto arquitetônico de casas presentes em Bergen representa o que sobrou do tratado alemão mercantil com a Europa e o Báltico, nos séculos XIII e XV. Esse tratado era conhecido como a Liga Hanseática, em que os alemães controlavam o comércio dessas regiões. A cidade foi a atração dos germânicos no verão pelo bacalhau seco, que, durante esse período, foi comercializado para a Europa. Já nesse tempo, Bergen era um dos locais mais importante da Noruega.

O Cais do Porto, as quase 60 casinhas de madeiras coloridas em amarelo e vermelho e mais seis de pedra, ocre e tijolo, com telhados pontudos, remetem à lembrança cultural do contexto medieval em que Bergen viveu. Vários estabelecimentos, como armazéns e estalagens, tornaram-se restaurantes, museus e lojinhas. De acordo com a embaixada da Noruega, o que pode justificar o colorido das casas é o céu de muitas nuvens e a predominância das chuvas.

A justificativa se dá também pela cultura enraizada, segundo Frederico Flósculo, professor da Universidade de Brasília (Unb). “A relação entre cor e clima é mais devida à expressão de identidades culturais e de clãs — grupo de pessoas unidas por parentesco e linhagem, definido pela descendência de um ancestral comum — do que da reação ao clima sombrio”, diz.

Os tons coloridos que fazem de Bergen um local acolhedor para os visitantes passaram por algumas tragédias. A cidade foi vítima de dois incêndios. O primeiro ocorreu em 1702, quando grande parte das casas que pertenciam à Liga Hanseática pegaram fogo, com edifícios, comércios e prédios administrativos. Após a tragédia, 11 casas coloridas foram reconstruídas. O segundo se deu em 1955, quando foram destruídas as obras de Bryggen. Após 13 anos de escavação arqueológica, foram reveladas inscrições em ruínas, conhecidas como inscrições de Bryggen, guardadas no acervo do Bryggen Museum, construído em 1976. Atualmente, apenas um quarto das construções dessa parte antiga de Bergen é original, o restante é predominante de estruturas jovens, apesar de existirem algumas adegas de pedra que datam do século 15.

 

 No reflexo das águas

 

Burano, Itália

(foto: All Free Photos/ Reprodução)
(foto: All Free Photos/ Reprodução)

 

A 11 quilômetros de Veneza e Murano, na Itália, está a ilha Isola di Burano, onde vivem 3 mil pessoas simples, cujo sustento vem da pesca, do turismo e do comércio. Entre as ilhas próximas, Burano é a mais visitada pelos turistas, devido às casinhas coloridas e tradicionais do século XVI. As obras são sucesso na internet. Para ver as moradas de perto, pode-se fazer o trajeto de barco ou a pé.

Os primeiros habitantes na ilha de Burano foram os romanos. Mas foi no século VI que o local recebeu o nome atual, quando foi dominado pelo município denominado Altino. As peças de renda produzidas por mulheres locais tiveram grande relevância comercial. A mercadoria começou a ser exportada para toda a Europa, e era a preferida de reis, rainhas, princesas. O bordado feito por elas é conhecido como punto in aria. Na região, há lojinhas, que exibem o modelo de renda, e o Museo del Merletto.

Turistas que visitam Burano se deslumbram com as casinhas coloridas que refletem nas águas verdes de canais, com a torre do sino da igreja de San Martino. De acordo com a lenda, as casas eram pintadas de cores fortes e diferentes para que os pescadores pudessem vê-las de longe quando estavam voltando para casa depois de o sol se pôr. As cores que predominam nos muros são tradição do século XVI e têm um sistema específico de tons. Os moradores precisam pintar a casa a cada dois anos. Antes de fazer a coloração, é preciso pedir autorização do governo, que determina o tom certo da localidade.

 

 Uma rua de emoções


Rue Crémieux, Paris
 

(foto: Wikipedia Reprodução)
(foto: Wikipedia Reprodução)

Em Paris, na França, não faltam lugares charmosos. Mas poucos despertam tanto a emoção dos turistas como a Rue Crémieux, localizada no 12° Distrito administrativo da capital francesa. A viela tem menos de 200 metros de casas centenárias e coloridas. O fenômeno de cliques nas redes sociais, que teve, no Instagram, mais de 32 mil menções, foi envolvida em uma polêmica em 2019 pelo excesso de visitas. São milhares aos fins de semana.

A rua foi planejada em 1857 por Moses Polydore Millaud, que foi jornalista e fundou, à época, um dos principais jornais da França, o Le Petit. O local teve como objetivo inicial ser um abrigo para trabalhadores. Ente 1865 e 1898, foi conhecida como Rue Millaud. Só depois foi renomeada para Adolphe Crémieux, um advogado e político francês tido como defensor dos direitos dos judeus da França. As casas da via remetem ao século XIX, pela simplicidade elegância.

O colorido das residências surgiu em 1996. Há fachadas pintadas em tons claros ou tons pastéis e casas com cores amarela vibrante, roxa, laranja e rosa. A entrada da rua inclui uma pintura lilás e um gato perseguindo pássaros. O chão de paralelepípedos, as flores nas janelas e as plantas ao lado das portas dão um tom especial.

A rua é famosa por ser usada em campanhas publicitárias e gravação de clipes, o que ajuda a despertar a atenção dos turistas. Dados da prefeitura de Paris afirmam que a rua foi visitada por 23 milhões de pessoas em 2017. Em 2018, esse número foi 11% maior. Não à toa, alguns moradores ficam incomodados. Tanto que já pediram à prefeitura da cidade para que a via fosse fechada por portões a fim de impedirem a entrada de turistas à noite e aos fins de semana.

 

 Tesouro no meio do Caribe

 

Willemstad, Curaçao

(foto: Wikimmedia Reprodução )
(foto: Wikimmedia Reprodução )


Maior ilha do antigo arquipélago das Antilhas Holandesas, Curaçao está localizada no mar do Caribe. Atualmente, a ilhota é uma das mais procuradas pelos turistas. Sua capital, Willemstad, tem 125 mil habitantes. Sem o clima de praias paradisíacas, a cidade conta com diversos prédios e casas coloridas, lojas, bancos e restaurantes. Tudo pode ser conhecido a pé. O lugar é carregado de cultura, condição para ser considerado Patrimônio da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Willemstad foi construída em 1888. A estrutura atual é de 1939. As principais atividades econômicas vão do turismo às importações e exportações — o maior porto do país fica aí — e uma refinaria de petróleo. A capital está dividida entre os bairros de Punda e Otrobanda, ligados por duas pontes. A primeira é flutuante e brilhosa, a Queen Emma Bridge, de 168 metros, exclusiva para pedestres. É um dos símbolos de Curaçao, assim como o skyline (prédios coloridos) da capital, que são exibidos nas placas de carros. A segunda ligação é feita pela Queen Juliana, que fica suspensa a 56 m acima do nível do mar. Pela ponte, é possível se ter boas vistas de Willemstad.

A arquitetura de Willemstad é misturada com a da Holanda. Os prédios coloniais dos séculos XVII e XVIII são um espelho do que também se encontra em Amsterdã. O motivo para o colorido das obras, segundo moradores, é de que, no século XIX, o governador holandês Albert Kikkert sofreu dores de cabeça provocadas pela enxaqueca, que foi piorada pelo reflexo do sol brilhante do Caribe em seus edifícios brancos. Desse modo, o governante fez um decreto para pintar todas as estruturas naquela ilha de qualquer cor, menos branco.

 

Símbolos da liberdade


Boo-Kaap, Cidade do Cabo

 

(foto: Wikimmedia Commons)
(foto: Wikimmedia Commons)


A Cape Town ou Cidade do Cabo é uma das três capitais na África do Sul. Na cidade, a segunda mais populosa do país, atrás de Joanesburgo, estão situados o parlamento nacional, o governo e o setor financeiro. Para os turistas, o que realmente enche os olhos é o bairro de Bo-Kaap, declarado, em 2019, pelo ministro das Artes e da Cultura da África do Sul, Nathi Mthethwa, como patrimônio histórico do país. O local, com 6 mil habitantes, está situado nas encostas da Colina Signal, acima do centro da cidade, e chama a atenção pelas casas coloridas, algumas do século XVIII.

Bo-Kaap era conhecido como Bairro do Malaio. Lá, moravam os escravos das colônias holandesas do Sudeste Asiático. As casas, de aluguel, foram construídas por Jan de Waal, em 1763. Os moradores vinham de países como Malásia, Indonésia e de outras partes da África, devido à resistência de tribos indígenas aos holandeses. A maioria deles era de origem muçulmana. Muitas mesquitas foram construídas. A primeira, a Mesquita Auwal na Rua Dorp, em 1740.

Entre os anos de 1790 e 1825, foram construídas mais habitações em estilo georgiano, marcado pela simetria e proporção com base na arquitetura clássica da Grécia e de Roma. Os prédios reviveram a arquitetura renascentista que envolvia o pensamento grego e romano, com colunas, pilastras e lintéis (peça dura). Muitos acabaram recebendo a influência de exilados políticos de Java, Indonésia, que chegaram à região por volta de 1820.

Com a libertação dos escravos, em 1833, e a chegada dos novos proprietários, as casas, que eram brancas durante o arrendamento, foram pintadas. Mas foi em 1943 que elas ganharam cores fortes e, delas, 15 foram restauradas por um grupo de cidadãos proeminentes, com o apoio da Comissão de Monumentos Históricos.

Após o fim do Apartheid, em 21 de abril de 1993, sistema caracterizado pela cultura política autoritária baseada na supremacia branca, o bairro de Bo-Kaap se tornou colorido, em manifestação à diversidade racial. No local, há uma combinação entre os vizinhos para não repetirem as cores das casas.

 

 

 
* Estagiária sob supervisão de Vicente Nunes

 

 

 

 

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