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Viajar nos versos de Cora

Cidade onde nasceu a poetisa brasileira, Goiás Velho é Patrimônio da Humanidade e guarda a literatura e a arquitetura de um Brasil do século 18. A 130km de Brasília, é um mergulho no tempo


postado em 16/08/2019 08:00 / atualizado em 14/08/2019 18:48

(foto: Foto: Renato Alves/CB/D.A Press)
(foto: Foto: Renato Alves/CB/D.A Press)


Goiás Velho — Goiás tem duas cidades históricas que valem uma visita. A mais famosa é Pirenópolis. Certamente, por estar mais perto de Brasília (150km). A outra (distante 310km da capital e a 140km de Piri), no entanto, tem muito mais atrações, por muito menos.

Mais conhecida como Goiás Velho, a cidade de Goiás, com 22 mil habitantes, foi a primeira capital do estado. Desde 2001, ostenta o título de Patrimônio da Humanidade, concedido pela Unesco. Ela conserva mais de 90% de sua arquitetura barroco-colonial original. Uma vitrine do Brasil do século 18. Tudo em meio a um vale envolvido pelos morros verdes e ao sopé da lendária Serra Dourada.

Há outro bom motivo para visitar Goiás Velho. Ela é a cidade de Cora Coralina. Uma das mais admiradas poetisas brasileiras completaria 130 anos na próxima terça-feira. A mulher que estudou apenas até a terceira série do curso primário criou versos preciosos. Nascida em 20 de agosto de 1889 e batizada Anna Lins dos Guimarães Peixoto, começou a publicar os seus trabalhos aos 75 anos. As letras eram um passatempo. Ganhava a vida como doceira.

A cidade descrita por Cora em seus poemas e contos pode ser contemplada e explorada em um passeio pelas ruas e pelos becos de pedra ladeados pelo casario dos séculos 18 e 19, onde mulheres bordam e fazem doces cristalizados. Ou nas praças, nas lojas, nos bares e à beira do Rio Vermelho.

 

 

Construções, como a do antigo chafariz, estão cuidadosamente preservadas e formam um cenário bucólico(foto: Fotos: Renato Alves/CB/D.A Press)
Construções, como a do antigo chafariz, estão cuidadosamente preservadas e formam um cenário bucólico (foto: Fotos: Renato Alves/CB/D.A Press)

 

A vida sem pressa

Longe da agitação de Pirenópolis, Goiás tem uma atmosfera bucólica. Suas ruas silenciosas e o seu casario colonial bem conservado convidam para caminhadas sem roteiros pré-definidos. Feitas de pau a pique, sem muros ou grades e unidas umas às outras, as casas centenárias do centro histórico chamam a atenção de quem está acostumado com asfalto e arranha-céus.

O calçamento de pedra — construído com o suor e o sangue de escravos — e a arquitetura são testemunhas de outros tempos, iniciados com o bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera, que liderou um grupo de desbravadores do Brasil Central que capturavam índios e buscavam ouro para enriquecer os colonizadores portugueses.

Goiás cresceu às margens do Rio Vermelho, se tornando um dos primeiros municípios fundados no Brasil colonial. A cidade foi a capital do estado de Goiás por mais de 200 anos. Perdeu o posto com a inauguração de Goiânia, em 1933.

A cidade de Goiás, que originalmente se chamava Vila Boa, também oferece aos turistas rica arte sacra nas seculares igrejas e nos museus. De todos, o mais visitado é o Museu Casa de Cora Coralina, também conhecido como Casa Velha da Ponte. Ele fica à margem do Rio Vermelho, ao lado de uma ponte de madeira.

Após a morte da poetisa, amigos e parentes se reuniram e criaram, em 1989, o museu em sua homenagem. A família doou o acervo: objetos pessoais, fotos, utensílios domésticos, livros e imóveis. Por meio de visitas guiadas, os turistas conhecem detalhes da vida e da obra de Cora.


Museus

Igreja de São Francisco de Paula, no centro histórico em Goiás Velho
Igreja de São Francisco de Paula, no centro histórico em Goiás Velho

Alguns dos prédios históricos mais importantes de Goiás estão ao redor da praça. Entre eles, a Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte, construída em 1779, com arquitetura religiosa e fachada com elementos característicos do Barroco. O templo foi tombado pelo Iphan em 1950 e passou a museu em 1968, com nome de Museu da Boa Morte.

Seu acervo inclui os altares da igreja, diversas imagens sacras do escultor goiano Veiga Valle, além de uma Nossa Senhora do Rosário de origem portuguesa, único bem móvel tombado individualmente pelo Iphan em Goiás. O Museu de Arte Sacra também tem pratarias e telas de cunho religioso, terços e coroas dos séculos 18 e 19, mobiliários do século 19, entre outros.

Outra atração é  Palácio Conde dos Arcos. Antigo Palácio dos Governadores da Província de Goiás, guarda vestígios da passagem de D. Marcos de Noronha, o Conde dos Arcos. No jardim, há o brasão do Conde dos Arcos, daí o nome do edifício. Abriga coleções de móveis, quadros e outros objetos. (RA)

 

 O que visitar, ver e fotografar

 

Becos
Eles inspiraram a poesia de Cora Coralina e os versos e canções.

Rio Vermelho
Corta a cidade, passando também pelo quintal de casas antigas.

Cruz do Anhanguera

(foto: Fotos: Renato Alves/CB/D.A Press)
(foto: Fotos: Renato Alves/CB/D.A Press)
    
Um dos símbolos da Cidade de Goiás. A relíquia foi transferida para a antiga Vila Boa por Luiz do Couto, em 1918, que a reencontrou depois de ter sido arrastada com a Igreja da Lapa, pela enchente de 1839. Nova tempestade no fim de 2001, destruiu mais uma vez a cruz, que será reconstruída nos mesmos moldes da original.


Casa de Cora Coralina


O casarão onde viveu a poetisa e doceira fica na cabeceira da ponte sobre o Rio Vermelho (foto). Uma das primeiras construções de Goiás, é uma típica residência do século 18 e inspirou alguns de seus poemas. Hoje é um museu que homenageia a mais famosa das filhas de Goiás. Abre de terça a domingo. Preço: R$ 10.

Igrejas


A Igreja da Boa Morte (1779) é a única que apresenta elementos típicos do Barroco na fachada. Abriga o Museu de Arte Sacra, com destaque para as imagens de Veiga Valle, escultor local, que viveu no século 19. Igrejas São Francisco de Paula (1761), N.S. do Carmo (1786), N.S. da Abadia (1790) e de Santa Bárbara (1780) — com uma linda vista da cidade, esse é um dos pontos turísticos imperdíveis. Pequena e antiga, fica no alto do morro. Ela só é aberta na festa da padroeira em dezembro. Para chegar até ela, é preciso subir cerca de 100 degraus.


Museus


No grande prédio construído em 1761, onde funcionaram a cadeia, a câmara e a Justiça, fica o Museu das Bandeiras, que expõe objetos usados na exploração do ouro (foto). Entrada gratuita. O Palácio Conde dos Arcos (1755), onde há um museu, foi construído para acomodar o governador da capitania. Todos os anos, no aniversário da cidade, abriga a sede do governo, que se transfere de Goiânia por alguns dias. Ingresso a R$ 5.

Outras construções
Quartel do 20 (obra de 1747, serviu de hospital durante a Guerra do Paraguai e atualmente seu pátio interno serve como local de festas populares), a Casa do Bispo, os chafarizes da Boa Morte; a Fonte da Carioca e a Casa de Fundição (1752, onde se fundia o ouro extraído das minas).

 

 

 

 

 

 

 

 

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