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Correio Braziliense

Um senhor cajueiro e muitas histórias em Natal

A maior árvore do suculento fruto nasceu na capital potiguar e atrai milhares de visitantes por ano. Arte, ciência e acontecimentos históricos também são destaques no roteiro


postado em 29/08/2019 10:00 / atualizado em 29/08/2019 10:43

(foto: Fotos: Alexis Regis/MTur - 13/3/18)
(foto: Fotos: Alexis Regis/MTur - 13/3/18)


As belas praias não são as únicas atrações para os turistas que desembarcam em Natal. Conhecer as inúmeras histórias potiguares, que remontam aos tempos do descobrimento do país e que passam pela Segunda Gerra Mundial, acrescenta significativo conteúdo à viagem. Um início interessante para traçar esse roteiro pode ser a partir do município de Parnamirim, ao sul da capital do estado, onde se encontra o maior cajueiro do mundo e uma grande produção artesanatos.

A árvore de mais de 130 anos impressiona pelos 8.500m² de área que ocupa. Na década de 1980, chegou a produzir mais de 80 mil frutos por safra. Em uma contagem mais recente, realizada em 2015, a colheita caiu para 9 mil — em decorrência natural do envelhecimento da planta. Ainda assim, continua sendo um espécime de rara beleza, com galhos sinuosos que se elevam e se expandem em múltiplas direções, encantando o olhar dos visitantes.

Como continua em crescimento, o cajueiro provoca polêmicas. Os troncos invadiram uma rua vizinha e ameaçam chegar as casas. A comunidade e o governo local discutem se será necessário promover desapropriações de imóveis. Entre outros fatores, a medida se justificaria pela relevância econômica do cajueiro, responsável por cerca de 1.300 empregos diretos e indiretos na região. Há uma movimentada feira nos arredores e diversos profissionais especializados, de guias a biólogos, trabalham na manutenção do espaço, que cobra taxa de R$ 8 por visitação. “São várias questões em discussão, mas não podemos perder de vista que estamos falando de um ser vivo secular, que tantos bons frutos trouxe para essa terra”, comenta o orientador turístico Alessandro Araújo, que há seis anos trabalha no local.


(foto: Alexis Regis/MTur)
(foto: Alexis Regis/MTur)

Próximo ao cajueiro, a psicopedagoga Neusa Coronel aproveita a movimentação da região para empreender com foco na produção artesanal local. Há quatro anos, ela trocou São Paulo pelo Rio Grande do Norte, onde hoje se articula com sete etnias indígenas locais, além de grupos de mulheres presidiárias, para revender belas peças aos turistas na simpática loja de nome Atelier de Arte. “Sempre trabalhei nas escolas consideradas mais problemáticas em São Paulo, pois queria oferecer minha contribuição. Minha família é natural de Natal. Após me aposentar, voltei para continuar minha missão”, diz com um tenro brilho no olhar.

Ainda no município de Parnamirim, o Centro de Lançamento da Barreira do Inferno exibe uma face mais moderna e tecnológica da região. Fundada em 1965, foi a primeira base aérea de foguetes da América do Sul, oferecendo a Natal o título de “capital espacial do Brasil”. No local, os visitantes podem apreciar uma exposição com peças e fotos históricas.

 

 

De Cascudo ao Potengui  

(foto: EbenezerNobrega/SenacRN/Divulgação)
(foto: EbenezerNobrega/SenacRN/Divulgação)


Ainda perambulando na viagem no tempo pela história de Natal e arredores, o turista passará pelo colorido Beco da Lama, onde nas noites de quinta-feira acontece um animado samba, e chegará à casa de Câmara Cascudo, escritor, advogado, jornalista e estudioso da cultura popular brasileira, que deixou uma vasta obra e sempre viveu na capital potiguar, sendo considerado um dos maiores folcloristas do país. O espaço é administrado pela neta Deliana Cascudo, 56 anos, guardiã da memória intelectual da família. A entrada custa R$ 5.

“A Casa de Cascudo é mantida de forma privada. Preservamos o acervo de vovô e divulgamos a obra dele, guiando visitas de inúmeros grupos pelo espaço e vendendo novas edições dos livros que ele escreveu. É uma pena que ainda não tenhamos o devido reconhecimento da administração pública, pelo relevante serviço que prestamos à cultura do estado, mas continuamos na luta para manter o trabalho”, diz Deliana.

Complexo de Rampa, às margens do rio, foi projetado pelo arquiteto Carlos Dantas e deverá ser inaugurado até o fim deste ano(foto: Fernando Brito/CB/D.A Press)
Complexo de Rampa, às margens do rio, foi projetado pelo arquiteto Carlos Dantas e deverá ser inaugurado até o fim deste ano (foto: Fernando Brito/CB/D.A Press)

Seguindo o passeio pelo centro histórico, um pouco mais adiante, chega-se ao Complexo da Rampa, uma instalação às margens do Rio Potengi, que teve relevância estratégica e militar na década de 1940, pois servia como base dos hidroaviões norte-americanos durante a Segunda Guerra Mundial. Há uma famosa foto de época no local em que os presidentes brasileiro, Getúlio Vargas, e dos Estados Unidos, Franklin Roosevelt, selaram o acordo de cooperação para combater os nazistas.

Com projeto do arquiteto Carlos Ribeiro Dantas, o Complexo da Rampa ganhou uma edificação inspirada nos traços do 14-bis, que servirá como centro cultural. Os trabalhos de construção e reformas de todo o espaço foram orçados em cerca de R$ 8 milhões. “A expectativa é de inauguração até o fim deste ano. Falta pouca coisa. O principal, agora, é definir quem cuidará da administração”, explica Dantas.

(foto: Fernando Brito/CB/D.A Press)
(foto: Fernando Brito/CB/D.A Press)

O horário do pôr do sol vai se aproximando, mas ainda há tempo de embarcar em um agradável passeio pelo Rio Potengi, que em tupi-guarani significa “águas de camarão”. O ingresso custa R$ 70 e, do barco de médio porte com dois pavimentos, observa-se um magnífico crepúsculo, com direito a uma brisa refrescante, enquanto o guia e historiador Ítalo de Araújo, 26 anos, conta uma versão potiguar para o descobrimento do país. “Há fortes indícios, baseados na localização geográfica, nas correntes marítimas e mesmo por uma análise mais profunda da carta de Pero Vaz de Caminha, de que os portugueses desembarcaram no Brasil pelo Rio Grande do Norte e não pela Bahia”, defende. Seja lá como tenha sido e controvérsias à parte, Natal é um destino encantador. (FB) 

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