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Correio Braziliense

Um muito de tudo na China milenar

País de complexidades, a China, muito mais que o Brasil, não é para iniciantes, mas pode cativá-los à primeira vista. História e cultura milenares se fundem com o futurístico. É uma grande experiência


postado em 18/09/2019 04:17 / atualizado em 18/09/2019 10:51

(foto: Nahima Maciel/CB/D.A Press)
(foto: Nahima Maciel/CB/D.A Press)


“A China é particularmente importante na narrativa humana por sua condição singular: simultaneamente, a civilização contínua mais antiga do mundo e, talvez, a maior potência mundial do século 21”
(Jessica Harrison-Hall, em China — Uma história em objetos)



Pequim (China) — Esqueça os filmes, os estereótipos que vêm com a parafernália eletrônica e a montanha de bugigangas da Feira do Paraguai, os relatos sobre espetinhos de cachorro e os olhares tortos para a suposta falta de higiene dos chineses. Tudo isso não passa de superficialidade e é pouco para descrever a China, um gigante que atende pelo título de uma das mais antigas civilizações do planeta e uma cultura que vai muito além do discurso comum ocidental.

A capital, Pequim é o centro histórico do país. Com mais de 26 milhões de habitantes, não é a maior cidade porque perde para Xangai, mas esse complexo urbano pontuado por palácios e parques é capaz de contar mais de mil anos de história, incluindo duas dinastias e toda a trajetória mais recente do país. Começar uma viagem à China por Pequim é o melhor jeito de sentir o impacto cultural causado pela combinação de elementos de uma civilização milenar com a pujança do desenvolvimento em alta velocidade experimentado desde a abertura do país, nas últimas décadas.

A cidade é o símbolo das dinastias Ming e Qing, que governaram a China entre os séculos 14 e 20, e representa perfeitamente a estrutura das antigas capitais chinesas: palácios em disposição sequencial, sempre com jardins ao fundo e lagos auxiliares, e os hutongs, conjuntos de casas residenciais tradicionais voltadas para pátios. Para o escritor Edmund Bacon, autor de Design of cities, Beijing é “possivelmente o maior trabalho unicamente humano na face da terra (...). Essa cidade chinesa, desenhada para ser o domicílio do imperador, foi feita com a intenção de marcar o centro do Universo”.

(foto: Agência Brasil/ Divulgação)
(foto: Agência Brasil/ Divulgação)

 

 

Mas Pequim é também um símbolo da era comunista, com a Praça Tiananmen rodeada de largas avenidas, de monumentos como o mausoléu de Mao Tsé-Tung, o grande líder da revolução comunista, e o Grande Salão do Povo. A monumentalidade é a marca da arquitetura comunista — vale lembrar que boa parte da praça foi erguida em um ano para celebrar o aniversário de uma década da revolução comunista —, mas há também os arranha-céus, que hoje colocam Pequim em pé de igualdade com qualquer metrópole ocidental.


Rodeada de portões que foram demolidos por Mao Tsé-Tung durante a Revolução comunista de 1949, a cidade é hoje um centro cosmopolita, com 21 linhas de metrôs e mais de 400 estações que atendem a praticamente todos os bairros centrais e são um verdadeiro alívio para o turista. O trânsito é infernal em um país que despeja nas ruas, em média, 20 milhões de carros por ano com uma frota que só aumenta, embora seja regulada pelo governo com sorteios anuais para liberação de novas licenças. Pequim, que já foi conhecida como a cidade das bicicletas, hoje leva a marca de uma variedade surpreendente de veículos de duas rodas, todos elétricos, uma estratégia governamental para lutar contra a poluição. Há centenas de ciclovias e elas abastecem praticamente todas as ruas da cidade.

 

Cidade proibida e popular

 

(foto: Nahima Maciel/CB/D.A Press)
(foto: Nahima Maciel/CB/D.A Press)


A Cidade Proibida é, naturalmente, a estrela da capital e não há como não ser. Inaugurado em 1420 e construído em pouco mais de 14 anos, esse conjunto de mais de 900 edifícios distribuídos de forma retangular por mais de 700 mil m² serviu de residência a duas dinastias e se tornou um símbolo da era feudal quando a revolução comunista fundou a República Popular da China, em 1949. Hoje, recebe mais de 10 milhões visitantes por ano e o volume, marcado principalmente por turismo interno, é tão grande que a visitação é limitada a 80 mil pessoas por dia.

Por isso, é recomendado comprar o ingresso pela internet, antecipadamente, e escolher entre várias opções: você pode apenas visitar os palácios principais (R$ 37) e se perder por mais de cinco séculos de história ou pagar um pouco mais e mergulhar na Galeria dos Tesouros (o tíquete combinado fica em R$ 45). O local é tão grande que é necessário, no mínimo, um dia para a visita. Além da arquitetura típica — reproduzida em vários outros palácios de Pequim — as cores têm significado especial: somente os imperadores podiam se permitir pintar de dourado o teto de seus palácios e o verde e o vermelho dos edifícios eram típicos da nobreza chinesa.

(foto: Nahima Maciel/CB/D.A Press)
(foto: Nahima Maciel/CB/D.A Press)

A China tem se tornado um destino turístico cada vez mais popular. Em 2018, a capital recebeu cerca de 4 milhões de turistas. De acordo com a Comissão Municipal de Desenvolvimento do Turismo de Pequim, houve um aumento de 2% em relação ao ano anterior e boa parte desse fluxo veio do turismo interno ou de regiões asiáticas próximas. Portanto, não espere encontrar explicações em plaquetas com línguas ocidentais nem mesmo na Cidade Proibida. Os chineses se orgulham de seu sistema de ideogramas — que não é um alfabeto — e têm motivo para isso: uma criança consegue ler  textos escritos há 2500 anos por Confúcio. Difícil achar um ocidental de 10 anos capaz de ler aramaico.

Na Cidade Proibida, a dica é pegar um audioguia, que pode ser alugado na entrada do palácio mediante depósito reembolsável de R$ 45. Esses aparelhos vêm com sensores que detectam a localização do visitante e narram a história do palácio a cada novo pátio. Mesmo assim, leia sobre o local e as dinastias antes da visita para entender um pouco da história da China: o audioguia é superficial e a visita básica não esclarece muito

O local é acessível de metrô, pela praça Tiananmenn, mas lembre-se de levar o passaporte: o documento é condição para circular pela praça, que foi palco dos protestos para reivindicar um sistema democrático em outubro 1989, um turbilhão que balançou a China e terminou com uma estimativa de mais de 400 mortos. É bom ter em mente que a saída da Cidade Proibida se dá no lado contrário ao da praça e é preciso caminhar mais de um quilômetro para retornar a Tiananmenn. A dica aqui é aproveitar para se perder um pouco nos hutongs que margeiam a rua Beichizi, de volta à praça mais famosa de Pequim.

Onde dorme o fundador


(foto: Nahima Maciel/CB/D.A Press)
(foto: Nahima Maciel/CB/D.A Press)

A praça também merece uma atenção especial. Ali ficam o Grande Salão do Povo e o mausoléu de Mao Tsé-Tung, no qual o corpo do fundador da República Popular da China fica exposto apenas três meses durante o ano. É um local cívico e, assim como em outros sítios históricos, é comum ver famílias tirando foto na frente dos monumentos com a bandeirinha do país, em sinal de patriotismo.

O Grande Salão do Povo é o local destinado ao encontro anual dos mais de 3 mil representantes da população. Não há eleições diretas na China, mas há escolha de representantes regionais que se reúnem em Pequim uma vez ao ano. Todos, claro, devem ser ligados ao Partido Comunista Chinês (PCC). O Grande Salão é também o local no qual são realizadas as cerimônias oficiais do PCC e da República Popular da China. (NM)

 



* Viajou a convite do Ministério do Comércio da República Popular da China

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