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Correio Braziliense

Moradas reais chinesas

A estrutura da Cidade Proibida, em maior ou menor proporção, impactou a arquitetura tradicional de Pequim e pode ser encontrada em dois outros palácios


postado em 19/09/2019 10:00 / atualizado em 18/09/2019 10:52

Com vários lagos, o palácio foi dado como presente de aniversário à mãe do imperador(foto: Nahima Maciel/CB/D.A Press)
Com vários lagos, o palácio foi dado como presente de aniversário à mãe do imperador (foto: Nahima Maciel/CB/D.A Press)


Pequim (China) — A visita à Mansão do Príncipe Gong é um passeio perfeito para entender um pouco a concepção urbana e arquitetônica de Pequim. Uma caminhada a partir da estação de metrô Beihai North, na linha 6, até a mansão, vai levar o visitante por dentro de um hutong no qual é possível ver os pátios internos das casas, pessoas tomando chá na calçada e vislumbrar um pouco do cotidiano nesses bairros tão típicos da cidade.

Construída no final do século 19, a mansão tem uma história curiosa, que acompanha a trajetória da China. Concebida por Heshen, um oficial importante da corte do imperador Qianlong que foi acusado de corrupção e decapitado porque ousou reproduzir no pequeno palácio as cores e estruturas da Cidade Proibida, a mansão sobreviveu a várias intempéries e conflitos.

Esse palácio serviu de casa para os filhos de imperadores até que o último deles, Puyi, decidiu doá-la à Ordem de São Benedito, da Igreja Católica, em 1921, 10 anos após a revolução que tirou a dinastia Qing do poder. Mais tarde, durante a Revolução Cultural, a mansão se tornou sede de uma empresa de ar-condicionado até que, na década de 1980, foi reconhecida como patrimônio cultural e restaurada.

Verão

 

 

(foto: Nahima Maciel/CB/D.A Press)
(foto: Nahima Maciel/CB/D.A Press)
 

 

O Palácio de Verão é outra estrela da lista de complexos imperiais da capital e tem a estrutura mais agradável graças ao conjunto de jardins suntuosos e ao Lago  Kunming, no qual é possível andar de pedalinho e apreciar o palácio de outra perspectiva. Construído pelo imperador Qianlong no final do século 18 para celebrar os 60 anos de sua mãe, a imperatriz Chongqing, o Palácio de Verão serviu, durante muitas gerações, como refúgio das altas temperaturas de verão, quando o termômetro pode chegar a 43ºC durante o mês de julho.

Nos jardins, além de pequenos lagos artificiais e varandas há dezenas de pedras, as mesmas que aparecem em outros jardins imperiais. Retiradas de lagos, essas pedras eram muito apreciadas por conta de seus formatos inusitados, resultado da erosão provocada pela água. Distribuído por 290 hectares, o monumento histórico é o exemplo mais completo e preservado de jardim imperial chinês, mas passou por maus bocados no século 19, quando foi praticamente destruído pelos franceses durante a Guerra do Ópio. O acesso ao local é fácil, pelo metrô, e as entradas custam R$ 15.

 

 

Templo dos céus e dos Lamas 


(foto: Nahima Maciel/CB/D.A Press)
(foto: Nahima Maciel/CB/D.A Press)


Há muitos templos budistas em Pequim, mas dois merecem atenção especial e tempo. O Templo do Céu exige disposição e, pelo menos, um dia inteiro de dedicação. Datado do século 15 e destinado às orações dos imperadores das dinastias Qing e Ming pela colheita, esse complexo reúne mais de 10 templos e hoje faz parte da lista de patrimônio mundial da Unesco. Com um formato circular ao norte e quadrado ao sul, união de elementos simbólicos na cultura chinesa, o Templo do Céu é também um dos maiores do país e acabou ocupado e quase destruído durante a Revolta dos Boxers, movimento nacionalista que tomou a China no início do século 20.

Mais humano por conta da escala menor, o Templo dos Lamas também quase acabou destruído em várias ocasiões. Conhecido como Yonghe Temple, ou Templo da Harmonia, sua arquitetura resulta de uma combinação de elementos budistas e tibetanos e o local já foi refúgio de monges da Mongólia e do Tibet. Em 1929, abrigou uma revolta armada contra o governo e, anos depois, durante a Revolução Cultural, só não foi destruído porque o primeiro-ministro, Zhou Enlai, proibiu os ataques. Naquele período, entre 1966 e 1976, a orientação do Partido Comunista Chinês para destruir todos os símbolos que remetessem ao período feudal ou à cultura tradicional quase fez estragos irreversíveis no patrimônio chinês.

Não precisa ser budista para apreciar o maior templo tibetano de Pequim. Difícil não ficar pasmo diante de uma escultura de 18 metros do Buda, construída em peça única durante o reinado do imperador Qianlong, da dinastia Qing. Ou não se deixar inebriar pelo cheiro de incenso que brota antes mesmo de ultrapassar o portão principal. O visitante pode, inclusive, fazer oferendas e acender o próprio incenso. E, com alguma sorte, cruzar um dos monges moradores do templo. É curioso como o clima é diferente dos palácios, apesar da estrutura arquitetônica semelhante: no templo, há silêncio e os visitantes parecem menos afobados no empurra-empurra de um salão para o outro.

 

Onde se vende e se compra de tudo

 

(foto: Nahima Maciel/CB/D.A Press)
(foto: Nahima Maciel/CB/D.A Press)


Wangfujing é a rua de comércio mais movimentada de Pequim e vale uma visita. É também uma região repleta de hotéis e pequenos shoppings, mas é no comércio de rua que estão as lojas mais interessantes. Muitas delas exibem fachadas coloridas com vermelho predominante e são especializadas em guloseimas locais, como os sanduíches de jujuba, uma fruta asiática que tem semelhança com a juá nordestina, os iogurtes para serem tomados de canudinho (os chineses adoram) e os sucos extremamente adocicados.

Também há várias lojas de bugigangas para quem quiser levar lembrancinhas e uma das lojas de chá mais prestigiadas do país, a Wuyutai Tea Shop, de propriedade de um fabricante cuja família mantém plantações desde a dinastia Qing.

É na Wangfujing que se tem certeza do desenvolvimento e da capacidade de consumo da China contemporânea. A segunda maior economia do mundo viu seu PIB aumentar em 6,6% nos últimos dois anos e toca um programa que, entre 2012 e 2018, tirou cerca de 13 milhões de pessoas da pobreza. Número invejável, assim como os 3% de desemprego.

Os chineses fazem a economia girar com o consumo e na Wangfujing há de tudo: da Apple à Prada, do Hilton à Dior. E livrarias, embora nem toda leitura seja permitida no país. Sim, vale lembrar que é um regime autoritário e extremamente controlador. Recentemente, o presidente Xi Jinping conseguiu aprovar mudanças na constituição chinesa que eternizam seus poderes na presidência.

 

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