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Correio Braziliense

Portais para o passado

Em meio aos arranha-céus, complexos unidos por vias aéreas, pequenas ruas estreitas guardam o antigo jeito de viver dos nativos. O turista pode observar a rotina dos moradores que preservam as tradições chinesas de pai para filho


postado em 20/09/2019 10:00 / atualizado em 18/09/2019 10:52

(foto: Fred Dufour/AFP - 3/2/19 )
(foto: Fred Dufour/AFP - 3/2/19 )


Pequim (China) — Os hutongs são um espetáculo à parte em Beijing. São tão fascinantes quantos os velhos palácios e as construções monumentais típicas da era socialista. Pequim é uma cidade extremamente moderna e abriga centenas de arranha-céus e complexos comerciais gigantescos, como os shoppings luxuosos interligados por vias aéreas de Xidan, mas os hutongs são uma fresta para como era a vida na cidade antigamente e como alguns de seus habitantes ainda vivem.

Essas ruelas formam pequeninos bairros com casas cuja frente dá para um pátio interno compartilhado pelos moradores. A esses, o turista não tem acesso, mas pode vislumbrar suas dinâmicas pelas portas descuidadosamente abertas durante as caminhadas. Nos hutongs, os banheiros costumam ser compartilhados. Alguns moradores inovam e constroem seus próprios sanitários, mas nem sempre é o caso. Há também centrinhos comerciais para atender aos moradores, eventuais casas de massagem e alguns restaurantes. E muitos locais circulando, assim como dezenas de veículos elétricos de duas rodas. Como o espaço é pequeno nas ruelas e, eventualmente, um carro de grande porte se aventura, tome cuidado, porque na China não tem essa de pedestre ter prioridade.


Se o verde e o dourado são as cores dos palácios, o cinza e o vermelho marcam as casas dos hutongs. Para recuperar o estilo de vida nesse tipo de habitação, o Instituto Municipal de Planejamento e Projeto de Cidades de Pequim criou o Museu do Hutong Shija, aberto desde 2013 e com oito salas de exposição que reproduzem as residências. O local foi a moradia da escritora Ling Shuhua, autora de contos muito populares nas décadas de 1920 e 1930.

Alguns hutongs foram transformados em ruas turísticas, como o Luogu. Localizado ao lado da estação de metrô de mesmo nome, o local é repleto de lojas, restaurantes, bares e abriga até um hostel e uma escola de artes dramáticas. Ali se come comida de rua típica da China, como o pastel de durian (fruta parecida com a jaca) com queijo e o crepe de pato de Pequim. Também se compra chá e lembrancinhas típicas chinesas, além de artesanato feito na hora por artistas locais. Na saída, logo à frente do hutong Luogu, um restaurante de hotpot pode ser uma experiência única, com espetinhos de sapo-boi e esôfago de pato mergulhados em caldo apimentado.

 

História guardada 

 

(foto: Pixabay/Divulgação )
(foto: Pixabay/Divulgação )


Projetado pelo arquiteto francês Jean-Marie Duthilleul e pelo chinês Cui Kai, o Museu da Cidade ocupa uma área de 24.800m² distribuídos por cinco andares destinados a contar a história de Pequim desde a chegada da dinastia Ming, a primeira a fazer da capital uma cidade imperial. A arquitetura chinesa tradicional é celebrada logo na entrada com um pórtico que contrasta com a modernidade do prédio inaugurado em 2006.

Até então, o museu funcionava onde hoje é o Templo de Confúcio, ao lado do Templo dos Lamas. Seis episódios da história da cidade foram selecionados para ocupar as salas do museu, entre eles a era da dinastia Qing, as batalhas para proteger a cidade de invasores, a fundação da República Popular da China, em 1949, e o movimento de 4 de maio, que ajudou a expulsar os japoneses do território chinês após a Primeira Guerra.

Além de muita porcelana e artefatos em jade, a pedra nacional, documentos e fotografias, há salas dedicadas também à vida nos hutongs e à maneira como viviam os imperadores. Eventualmente, audioguias estão disponíveis e são essenciais, já que não há tradução das explicações em chinês que acompanham as exposições permanentes. Vale também comprar livros sobre o museu, disponíveis na lojinha do subsolo, em inglês.

Monitorada    


Todo estrangeiro sabe que é preciso baixar o VPN para poder ter acesso ao Gmail, ao Google, ao Whatsapp e às redes sociais quando desembarca na China. A realidade da internet monitorada e censurada também se estende para os meios de comunicação, boa parte deles pertencentes ao próprio governo. “Nosso slogan é servir ao partido, ao país e ao povo”, explica Yu Huijuan, ex-diretora do departamento de português da Rádio Internacional da China, em seminário para jornalistas de língua portuguesa organizado pelo ministério do Comércio da República Popular da China, em Pequim. “Nem todas as verdades são convenientes para sociedade. Depende da necessidade”, diz.
(foto: FRED DUFOUR/Reprodução)
(foto: FRED DUFOUR/Reprodução)

Bi Yuming, vice-diretora do gabinete português do Departamento Exterior da Agència de Notícias Xinhua, explica que a extensão continental da China levou ao investimento por parte do governo em toda a estrutura de mídia do país. “Nosso presidente e nosso governo têm um plano muito claro para o desenvolvimento da mídia”, explica, ao falar, sobretudo, das tecnologias de integração entre veículos como a China Radio Internacional (CRI), o Diário do Povo, a Rádio e Televisão Central da China (CCTV) e revistas oficiais. A imprensa privada é praticamente inexistente e todos os meios de comunicação são controlados pelo governo.

Sobre as redes sociais ocidentais, Chen Duqing, diretor do Centro de Estudo Brasileiro da Academia Chinesa de Ciências Sociais de Pequim diz que não há temor de livre circulação de informação e dá como explicação uma fórmula muito típica do discurso oficial chinês: “Temos que ver é o que funciona para nós”. O país é praticamente autossuficiente quando se trata de consumir produtos de comunicação ocidentais.

Na China, a maior rede social é o WeChat, com mais de 1 bilhão de usuários e um sistema que funciona tanto para a interação e comunicação quanto para transações financeiras. À base de QR Code, faz-se tudo pelo WeChat, da leitura de jornais às compras. Cartões de crédito são usados, mas com uma bandeira local. Pouquíssimos estabelecimentos estão preparados para Visa e Master, por isso ter dinheiro vivo no bolso é medida importante. Desde a abertura comandada por Deng Xiaoping, presidente entre 1978 e 1990 e responsável por implantar um capitalismo de Estado definido oficialmente como “socialismo com características chinesas”, o país vem crescendo vertiginosamente e se modernizando a uma velocidade difícil de acompanhar pelas economias do Ocidente. 

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