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Correio Braziliense

Sabores de aventura

A culinária chinesa desperta a curiosidade do ocidental, embora o foco seja dado a pratos exóticos que vão de cartilagem a lavas. Nos restaurantes tradicionais, as refeições são experiências inesquecíveis


postado em 27/09/2019 10:00 / atualizado em 26/09/2019 12:34

(foto: Nahima Maciel/CB/D.A Press)
(foto: Nahima Maciel/CB/D.A Press)


Pequim — A comida é um episódio à parte em uma viagem à China. Os extremos do bom e do ruim são uma realidade e, com frequência, o ocidental fica meio perdido ao se deparar com ingredientes bastante exóticos. Mas sempre há a opção do noodle, embora não se deva desprezar os hotpots e alguns pratos típicos. Muito popular e antigo — vestígios arqueológicos evidenciam o consumo em cerca de 200 anos a.C., o hotpot é sempre uma aventura.

Ele consiste, basicamente, em uma salmoura ou um caldo feito com carnes, especiarias e legumes que vêm à mesa fervendo e no qual se mergulha uma variedade sem fim de ingredientes. O caldo pode ser muito apimentado, e essa é uma tradição, mas há opções também sem pimenta em alguns restaurantes. Aliás, para quem tem problemas com pimenta é questão de sobrevivência aprender a expressão “méiyou hújião”, que significa “sem pimenta”.

(foto: Nahima Maciel/CB/D.A Press)
(foto: Nahima Maciel/CB/D.A Press)


Alguns hot pots são servidos com espetinhos para serem mergulhados no caldo, outros têm buffet para os clientes escolherem. Em todos, você pode encontrar coisas como esôfago e sangue de pato, sapo-boi, pulmão de porco, todo tipo de cartilagem e até larvas. É uma quantidade de iguarias digna de Indiana Jones. Mas vale a experiência, que também pode ser uma descoberta.

(foto: Nahima Maciel/CB/D.A Press)
(foto: Nahima Maciel/CB/D.A Press)

No campo dos noodles, a empreitada é mais segura. Feitos com caldinhos leves nos quais se cozinha o macarrão de arroz ou trigo, folhas, verduras e carnes, o noodle  sempre salva a hora da refeição quando se trata de comida asiática.

(foto: Nahima Maciel/CB/D.A Press)
(foto: Nahima Maciel/CB/D.A Press)


Outra peculiaridade da China é a temperatura da bebida. A medicina tradicional diz que líquidos gelados podem desequilibrar o corpo, especialmente o feminino. Resultado: boa parte da água disponível nos restaurantes é morna e a cerveja nem sempre vem gelada. Se você quiser algo frio, tem que ser enfático no uso do “bing”, que quer dizer gelado.


Uma experiência imperdível está nos restaurantes tradicionais nos quais são servidos rodízios com pratos típicos. Aí, é preciso ter estômago, lembrar que muita coisa na culinária chinesa é frita, a combinação agridoce é uma constante e boa parte será não identificada, por mais que haja foto no cardápio. E se não tiver, o jeito é encarar a aventura.

 

Em busca de caminhos 

 

A juventude chinesa na casa dos 20 anos é fruto da política do filho único implantada em 1979 para conter o crescimento populacional. Em 2015, as regras foram aliviadas e hoje é permitido ter dois filhos. No entanto, com o crescimento econômico e os bolsões capitalistas, criar uma família tem um preço e muitos jovens não querem ter filhos. “Você trabalha a vida inteira e só consegue comprar um banheiro”, repara a estudante Qianyi Fei, 21 anos. “Eu não quero ter filhos, já tenho um gato.”

Bai Hao, jornalista, estuda português(foto: Nahima Maciel/CB/D.A Press)
Bai Hao, jornalista, estuda português (foto: Nahima Maciel/CB/D.A Press)

A pressão sobre as meninas começa cedo na China. “Aqui, com 30 anos, já sou considerada velha para ter filhos”, conta a jornalista Bai Hao, que, por enquanto, também não quer filhos. A revolução comunista pregava que todos são iguais e a ideia de um feminismo chinês seria uma consequência disso, mas ainda há vários costumes e tradições com peso forte nessa sociedade. A política do filho único ajudou a aumentar a exigência de que todos tenham filhos logo, porque, para muitas famílias, o nome pode não ter continuidade. Mas há também uma certa herança machista. As estudantes Qianyi Fei, Luo Wenying, 23, e Zhu Jie, 23, ambas filhas únicas, acreditam que os meninos são privilegiados e mimados. Para elas, isso tem um reflexo, inclusive no desempenho escolar. “Eles estudam menos porque são mimados”, garante Qianyi.

Luo Wenying:
Luo Wenying: "meninos são mimados" (foto: Nahima Maciel/CB/D.A Press)

Mas há outro problema, mais complexo para as estudantes: quando se tem um filho homem, é preciso, ao longo da vida, comprar um apartamento para ele. A posse do imóvel é praticamente uma exigência para o casamento. Nas grandes cidades, muitas jovens estão enfrentando essa tradição e admitindo casar sem o imóvel, mas a pressão familiar é sempre uma realidade. Zhu Jie, 23 anos e mestranda em língua portuguesa, conta que não vai condicionar o próprio casamento à aquisição do imóvel e pode até ajudar na compra. “Mas é verdade que existe essa exigência”, diz.

Zhu Jie: para casar, precisa ter imóvel (foto: Nahima Maciel/CB/D.A Press)
Zhu Jie: para casar, precisa ter imóvel (foto: Nahima Maciel/CB/D.A Press)

Qianyi Fei, Luo Wenying e Zhu Jie escolheram estudar letras na universidade e fazem parte de uma elite crescente com acesso ao ensino universitário. A China está focada na inserção em mercados em desenvolvimento e a quantidade de estudantes dedicados ao português é grande. As três falam o idioma e, para facilitar a interação com os ocidentais, se apresentam com nomes em português, escolhidos durante um sorteio nos primeiros dias de aula. É um costume entre os estudantes de língua na China, especialmente aqueles que lidam com estrangeiros.

Qianyi, Luo e Zhu foram selecionadas pelo Ministério do Comércio da República Popular da China para acompanhar o grupo de 26 jornalistas de língua portuguesa, originários do Brasil, Guiné Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique convidados para um seminário focado em aulas sobre a cultura e a história do país e em interação com jornalistas dos veículos oficiais chineses, como o Diário do Povo, a Rádio Internacional da China, a revista China Hoje e a agência de notícias Xinhua.

 

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