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Correio Braziliense

Aulas de inspiração

Há 100 anos nascia a escola de arte e design que originou o modernismo do século 20 na arquitetura. Bauhaus, que se renova na era digital, se tornou referência em todo o mundo


postado em 11/12/2019 04:18 / atualizado em 11/12/2019 10:45

(foto: Fotos: Ana Maria Campos/CB/D.A Press)
(foto: Fotos: Ana Maria Campos/CB/D.A Press)


Dessau (Alemanha) — Em 2019, a Alemanha comemora o centenário da Bauhaus, a escola de arte e design que originou o modernismo na arquitetura do século 20 e inspirou gerações de arquitetos. Rejeitado no período de dominação nazista, o laboratório modernista, criado pelo arquiteto e designer alemão Walter Gropius, sobreviveu apenas 14 anos, de 1919 a 1933, mas se tornou referência para artistas em todo o mundo.

Hoje atrai turistas e estudantes para conhecerem a experiência de misturar arte e tecnologia, artesanato e design, só que agora na era digital, com conceitos como sustentabilidade e eficiência energética.

A Staatliches Bauhaus foi a primeira escola de arte do mundo. O nome surgiu da junção entre o verbo alemão bauen (construir) com o substantivo haus (casa). A Bauhaus contava com professores, como Paul Klee, Johannes Itten, Josef Albers, Herbert Bayer, Lázló Moholy-Nagy e Wassily Kandinsky, entre outros.

Os alunos aprendiam a utilizar materiais modernos no contexto da industrialização. Muito vidro, para começar, sinônimo de transparência, e cores, mas formatos sóbrios e traços retos. A palavra-chave era funcionalidade. A Bauhaus revolucionou também ao introduzir um método de estudo interdisciplinar que prestigiava todas as facetas do bem-estar social: arquitetura, design de móveis e utensílios domésticos, arte, artesanato, tecelagem e marcenaria.

 

(foto: Ana Maria Campos/CB DAPress)
(foto: Ana Maria Campos/CB DAPress)
 


Era uma experiência de vanguarda que tinha como filosofia a praticidade e o acesso popular conjugados com a beleza. Para Gropius, todo projeto deveria ser feito com uma premissa: a possibilidade de se multiplicar. Uma visão do coletivo que repudiava o individualismo.

Para os nazistas, tratava-se de uma concepção comunista até porque muitos artistas russos, como Kandinsky, mergulharam na experiência, trabalhando ou estudando na escola de design.

A Bauhaus foi banida da Alemanha, mas se espalhou pelo mundo. Por ironia, a perseguição se tornou o motivo da diáspora e o fortalecimento do conceito que influenciou outros artistas, já que migrou para os Estados Unidos, Israel, México e América do Sul.

Para saber mais

 

 

Arquiteto fundador


(foto: Ana Maria Campos/CB DAPress)
(foto: Ana Maria Campos/CB DAPress)


Walter Gropius foi um dos principais arquitetos do século 20. Criador da Bauhaus, o alemão iniciou sua carreira em seu país natal, mas com a ascensão do nazista, a partir da década de 1930, migrou para os Estados Unidos e se tornou professor de Arquitetura em Harvard. Gropius fundou a Bauhaus inicialmente em Weimar, cidade no centro da Alemanha. Mas, em 1925, a escola de design foi transferida para Dessau, onde funcionou até 1932, quando migrou para Berlim. Um ano depois, fechou as portas. Depois de emigrar para os Estados Unidos, em 1937, Gropius passou a se considerar cidadão norte-americano.

Bauhaus candanga 

 

(foto: Ana Maria Campos/CB DAPress)
(foto: Ana Maria Campos/CB DAPress)


Brasília é um dos exemplos da importação do estilo. Todo o Plano Piloto foi concebido sob a influência de Bauhaus. Os prédios das Asas Sul e Norte são um ícone desse modelo, assim como a Esplanada dos Ministérios. Em cidades alemãs como Dessau, onde surgiu e funciona a escola de design de Bauhaus, e em Berlim, na antiga parte oriental, onde houve a ocupação soviética, há edifícios tão semelhantes aos do Plano Piloto que a sensação é de estar numa quadra de Brasília.

Mas o mestre da arquitetura da capital federal tinha críticas ao modelo Bauhaus. É famosa a visita de Gropius à casa de Canoas, de Niemeyer, em São Conrado, no Rio, na década de 1950, para participar da 2ª Bienal de São Paulo. Gropius disse a Niemeyer: “A casa é bonita, mas não é multiplicável”. Niemeyer não gostou.

A casa foi feita respeitando as formas em curva, adaptadas ao terreno. Um projeto autoral, que não permite cópias. Em entrevista ao Correio, em 2008, aos 101 anos, Niemeyer disse: “Pensei: que filho da p….! Para ser multiplicável, teria que ser em terreno plano, teria que procurar um terreno igual e meu objetivo não era uma casa multiplicável, era uma casa boa para eu morar. Eles eram assim, sem brilho nenhum. O trabalho que ele deixou é um monte de casas que se repetem. Foi um momento que ameaçou a arquitetura, mas Le Corbusier e os outros reagiram. Foi um momento em que a burrice queria entrar na arquitetura, mas foi reprimida”.

A história foi contada por Niemeyer em várias conversas. Apesar disso, o arquiteto dos monumentos de Brasília é citado como um representante do modelo no Museu de Bauhaus, inaugurado em setembro, em Dessau, como parte das comemorações do centenário da escola fundada em 1919 em Weimar. Há mais semelhanças que desavenças.

Em Brasília, a influência de Bauhaus também pode ser notada no design de Sérgio Rodrigues. Ele assinou móveis para os principais palácios da cidade, como o da Alvorada e o Itamaraty. Também as cadeiras do Cine Brasília e as do auditório Dois Candangos da UnB, além de poltronas do Teatro Nacional, são criações do designer carioca, que morreu em 2014.

Apontada pelos nazistas como uma escola voltada para os princípios do comunismo, a Bauhaus é a inspiração para um dos projetos mais emblemáticos do símbolo capitalista: o iPhone. Minimalista, funcional, intuitivo, o maior legado de Steve Jobs tem características de Bauhaus.

A convite do Centro de Turismo Alemão, a reportagem do Correio visitou Dessau, o berço da Bauhaus, Berlim e Quedlinburg, uma cidade com arquitetura medieval preservada, em que há também projetos ao estilo Bauhaus. (AMC)

* Repórter viajou a convite do Centro de Turismo Alemão 

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