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Correio Braziliense

De portas abertas para a história

Importante zona industrial, Dessau teve a população reduzida em 40%. Agora, tenta se reinventar com o turismo ligado aos princípios da escola Bauhaus


postado em 13/12/2019 10:00 / atualizado em 11/12/2019 11:13

(foto: Ana Maria Campos/CB/D.A Press)
(foto: Ana Maria Campos/CB/D.A Press)


Dessau (Alemanha) — É impossível pensar em Dessau sem associá-la a Bauhaus. A cidade é o centro do movimento de vanguarda que revolucionou a arquitetura e as artes modernas, a partir dos anos 1920. Hoje é um polo de discussões sobre urbanismo e um local de visitação do legado da Bauhaus.

Localizada no Nordeste da Alemanha, Dessau abriga a escola de Bauhaus, as casas em que viveram os mestres do movimento e o recém-inaugurado museu que abriu as portas como parte das comemorações do centenário da Bauhaus, fundada em 1919.

A própria história da cidade é um laboratório para a discussão sobre a destinação e a ocupação dos prédios e espaços. Dessau perdeu a força econômica de importante zona industrial que ostentava nos anos 1920, quando produzia até mesmo aviões. Com o fim da industrialização, a cidade viu reduzir em quase 40% a sua população. Hoje, em muitos locais, a sensação é de um ambiente abandonado, com mais oferta de moradia do que a demanda. Mas a cidade tenta se reinventar com o turismo ligado à Bauhaus.

Um dos pontos de visitação é a Masters’ Houses, a colônia dos artistas da Bauhaus. A partir de 1926, os mestres da escola viviam lado a lado em casas praticamente iguais. O visitante pode conhecer o interior das residências de artistas como o russo Wassily Kandinsky, o suíço Paul Klee e suas famílias. Também viveram lá o fundador da escola de Bauhaus, Walter Gropius, e artistas como Lázló Moholy-Nagy, Lyonel Feininger, Oskar Schlemmer e Gunta Stölzl.

O local é agradável, arborizado e as quatro casas são bem funcionais, construídas com base no princípio de produção em larga escala usando um kit pré-fabricado com gesso e concreto. Projeto de Gropius, concebido a algumas quadras de distância da escola, com um certo afastamento da calçada, o que garantia a privacidade dos professores.

É possível imaginar as festas e a circulação dos artistas que tinham uma vida cultural agitada. As janelas grandes em vidro e as paredes coloridas dão leveza ao traço reto das construções.

Duas casas destruídas durante a Segunda Guerra Mundial, a do próprio Gropius e a do fotógrafo, designer e pintor Lázló Moholy-Nagy foram reconstruídas. Do local onde Gropius morava, sobrou muito pouco e virou uma moradia fora dos padrões da Bauhaus. A antiga casa de Moholy-Nagy ficou totalmente destruída pela guerra e a de Feininger virou um centro de atendimento médico durante o regime comunista. As reformas deixaram evidentes as diferenças em relação às originais para que ficasse caracterizado que houve uma restauração. O mesmo ocorreu em outros prédios destruídos na guerra.

Durante o período nazista e já na ocupação soviética, as casas dos mestres da Bauhaus ficaram abandonadas ou foram cedidas para famílias morarem. Mas, com a queda do muro de Berlim e a reunificação da Alemanha, tiveram o valor histórico e cultural reconhecido pela Unesco. Hoje estão abertas à visitação.

 

Bauhaus Museum Dessau 

 

(foto: Ana Maria Campos/CB/D.A Press)
(foto: Ana Maria Campos/CB/D.A Press)


O museu Bauhaus de Dessau foi construído no coração da cidade, dentro de um parque, com projeto da Addenda Arquitetura, de Barcelona, depois de vencer um concurso internacional do qual participaram 831 escritórios de todos os continentes.

O prédio é um bloco de aço suspenso em vidro, como se fosse um envelope, com 3,5 mil metros quadrados de área construída. Funciona como uma linha entre a cidade e a natureza. De um lado do prédio, há a parte urbana. Do outro, o parque. O vidro, matéria-prima presente na maioria dos projetos da escola de Bauhaus, cria uma atmosfera em que, a depender da luz, a paisagem é refletida de um lado ou de outro na fachada.

No térreo, não há paredes. Um anfiteatro se apresenta como uma área de apresentações, debates e leituras. Foi denominado Open Stage. “No momento em que se entra no prédio, é mágico. De repente, você está no meio dele. Sem limites. Tudo parece aberto, transparente e fluido”, descreve o arquiteto espanhol Roberto González, da Addenda Arquitetura.

O Museu, com o segundo maior acervo da coleção de Bauhaus do mundo, mantém 49 mil peças catalogadas. No piso superior, chamado de Black Box (Caixa Preta), há exposição de peças, móveis, pinturas, artesanatos, tapeçarias e documentos da Bauhaus. 

O Museu estreia com a exposição Versuchsstätte Bauhaus (banco de ensaio Bauhaus) com mais de 1 mil peças que contam a história da escola de Bauhaus em Dessau. A impressão é de um lugar com vida intensa, onde as pessoas ensinavam e aprendiam, conversavam, faziam experimentos artísticos e trabalhavam em protótipos industriais. A primeira exposição não está focada nos famosos ícones, artistas e professores da Bauhaus e, sim, na escola em si e nos estudantes. (AMC)

 

Brasília em Berlim 

 

(foto: Ana Maria Campos/CB/D.A Press)
(foto: Ana Maria Campos/CB/D.A Press)


Berlim — No ano em que comemora o centenário da Bauhaus, a Alemanha também celebra os 30 anos da queda do Muro de Berlim e a reunificação do país. Foi o fim da divisão não só da cidade como também do país e da Europa, que, durante 28 anos, separou amigos e familiares. Estilos de vida, a economia, o regime de governo e também a arquitetura se opunham.

Embora fosse assumidamente comunista, o arquiteto Oscar Niemeyer fez um único projeto em Berlim, justamente na parte ocidental, capitalista: um prédio construído com elementos pré-moldados de concreto armado, como vários de Brasília. Com oito pavimentos, o edifício, de 78 apartamentos, foi erguido em uma área arborizada, nos padrões das quadras residenciais do Plano Piloto, no Hansaviertel, dentro do parque Tiegarten.

Niemeyer esteve entre outros 53 renomados arquitetos que participaram da Exposição Internacional de Arquitetura: a Interbau 1957, em Berlim. O momento era o da construção da nova capital. Entre os profissionais, estava o alemão Walter Gropius, o fundador da Bauhaus, que a essa altura já se considerava cidadão norte-americano. Além de Gropius e Niemeyer, participaram Alvar Aalto, Egon Elermann, Arne Jacobsen, Wassilli Lukhardt, Max Taut e Le Coubusier.

(foto: Ana Maria Campos/CB/D.A Press)
(foto: Ana Maria Campos/CB/D.A Press)

O prédio de Niemeyer, apoiado sobre pilares em forma de V, tem pilotis e um elevador construído em anexo, num estilo que se repetiu em monumentos de Brasília. Vale uma visita ao prédio de Niemeyer próximo ao edifício construído com base em projeto de Gropius. A edificação tem as cores azul, amarelo e vermelho, características da Bauhaus.

Ao apresentar o projeto, Niemeyer explicou sua concepção, segundo registros da Fundação que leva o nome do artista: “Baseou-se o projeto no conceito de que uma habitação coletiva não deve ser simplesmente um agrupamento de casas num só prédio. Além das vantagens construtivas e econômicas que um sistema de centralização oferece, ela deve — antes de tudo — dar aos seus moradores certas vantagens de conforto que separadamente não lhes seria possível possuir. Uma sala de festas, um restaurante, um ginásio, um local de recreação etc... são elementos que dariam à vida coletiva maior alegria e interesse”. (AMC) 



Visite


Bauhaus Museum Dessau

 

  • Mies-van-der-Rohe-Platz 1
  • 06844 Dessau-Roßlau
  • Das 10h às 17h
  • Tickets
  • para a exibição: 8,50 euros
  • para todo o museu: 15 euros
 
 

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