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Correio Braziliense

Solos abençoados

Na terra sagrada, paisagens inspiram a alma dos visitantes. São jardins que ressaltam a exuberância da natureza e seus elementos e trazem bons sentimentos


postado em 15/01/2020 04:46 / atualizado em 15/01/2020 11:08

(foto: Fabíola Góis/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Fabíola Góis/Esp. CB/D.A Press)


Japão — Atami é uma cidade com estância de águas termais, montanhas, mar, praias de linhas sinuosas, boas para a prática de surf, paisagens variadas e com vista fabulosa. Mokiti Okada encontrou o cenário ideal para a construção do Solo Sagrado de Atami, também chamado de Terra Celestial.

Foi lá onde construiu o Palácio de Cristal, um grande salão envidraçado adotado como símbolo do mundo ideal, sem impurezas: o “Mundo Cristalino”. A obra é uma circunferência de 22 metros de diâmetro cortada ao meio. Para que os fiéis e todas as pessoas que visitassem a Terra Celestial pudessem apreciar da melhor forma possível a paisagem, o mestre construiu a face sul do prédio em acrílico, sem nenhum pilar, com formato arredondado. Eram raras as construções desse tipo na época. Até hoje é um mistério como, sem ser engenheiro ou arquiteto, ele conseguiu calcular sua resistência porque a planta original nunca foi encontrada. Não se sabe se um dia existiu. O prédio foi construído em três meses, com a dedicação de voluntários, em 1954, e até hoje é estudado.

Além dos jardins e de outras edificações, foi construído no local o Museu de Arte MOA, com mais de 1.200 obras, sendo três tesouros nacionais, e mais de 60 obras consideradas patrimônios culturais do Japão. É o maior museu particular do país. A coleção foi adquirida por Mokiti Okada e guarda preciosidades, como Red and White Blossoms (Biombo das Ameixeiras), de Ogata Korin ((1658–1716) e Tea-leaf Jar (Pote de Glicínias), de Nonomura Ninsei (Período Edo 17th).

Mokiti Okada tinha adoração pelas obras de arte e as adquiriu com a intenção de que o mundo inteiro pudesse apreciá-las. Por isso, teve a ideia de abrir o MOA. Para comprar o Pote de Glicínias, ele chegou a vender uma casa. Três dias depois da compra, faleceu.

Kyoto, ou a Terra da Tranquilidade, é uma cidade localizada na região central do Japão e foi sua capital até 1868. Em 1951, Mokiti Okada a escolheu como local ideal para o a construção do terceiro Solo Sagrado. O local ficou praticamente intacto por mais de 50 anos e, em 2002, teve início a primeira etapa de construção. Logo na entrada, uma seção de bambus e pedrinhas no chão levam o visitante até a Casa de Chá, também idealizada por Mokiti Okada, onde os visitantes podem tomar o Matchá (chá verde) e admirar a paisagem do local. Um encanto de lugar. Por toda parte, há cerejeiras centenárias, que florescem em abril. Perto da Casa de Chá, há uma ameixeira raríssima (média de três sobreviventes a cada 100 mudas). É em Kyoto onde fica o Memorial Mokiti Okada, inaugurado em 2015.

A cidade, razoavelmente “grande”, com aspecto de cidade de interior, mistura o moderno com o antigo. Há mais de 2 mil templos budistas e xintoístas, além de palácios e jardins muito bem preservados. Entre os templos mais famosos do país estão o Kiyomizu-dera, cujas construções atuais datam de 1633. Não há um único prego em toda a estrutura.

Outro templo budista muito visitado em Kyoto é o Ginkaku-ji (Templo do Pavilhão Prateado). Foi idealizado pelo xógum (título japonês) Ashikaga Yoshimasa para servir de refúgio durante a guerra. Já o Fushimi Inara-taisha, com seu famoso túnel de 10 mil Toris (portão tradicional japonês ligado à tradição xintoísta), encanta por sua imponência. Foi construído por volta do ano 711 (Período Heian) pelo aristocrata Irogu no Hatanokimi e dedicou-o à divindade do arroz, Inari. Na entrada, duas esculturas de raposas “protegem” o templo, com uma chave (para o celeiro de arroz) em suas bocas.

 

Arquitetura se integra à fé 

 

(foto: Fabíola Góis/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Fabíola Góis/Esp. CB/D.A Press)


No Templo Ryaonji, fica o jardim de pedras mais famoso do mundo. Os visitantes param e ficam contemplando o local, construído em 1450, tombado Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco. É um espaço essencialmente vazio, mas curioso pelo enigma que existe por trás dele. As 15 pedras do jardim são disposta de tal forma que sempre há uma pedra que não pode ser vista, não importando o ângulo que a pessoa observa. No entanto, Mokiti Okada, quando o visitou, descobriu o ângulo especial para visualizá-las.

Hakone fica nos limites das províncias de Kanagawa e Shizuoka. Foi o local escolhido por Mokiti Okada para construir o primeiro Solo Sagrado. No local, os visitantes se encantam de imediato com a arquitetura. Apelidado de Shinsen-Kyo (Terra Divina), o edifício principal simboliza o espírito do fogo e representa o aspecto espiritual da igreja, com um santuário da Luz Divina, o Palácio da Luz do Sol, o Museu de Arte de Hakone e o sepulcro sagrado do fundador. O jardim de musgos e a copa das ameixeiras e cerejeiras são um atrativo à parte.

Além dos jardins e de outras edificações, foi construído um museu de arte com mais de 1.200 obras, sendo três delas tesouros nacionais, e mais de 60 obras consideradas patrimônio cultural do Japão.

É em Hakone que está situado o Lago Ashi, onde os turistas podem passear no navio pirata que iniciou suas operações em 1920, partindo pelo Porto de Motohakone. O cenário parece de filme. Assim como o Hakone Open-Air Museum, o primeiro museu a céu aberto do Japão, inaugurado em 1969. Há mais de 1 mil esculturas e obras de arte de Picasso, Henry Moore, Taro Okamoto, Yasuo Mizui, Churyo Sato, entre outros. Além de apreciar as obras, há um banho de pés com fonte termal natural para os visitantes. Um alento para dias de frio, como em dezembro, com temperaturas de quatro graus centígrados.

 

Tradição religiosa

 

Japoneses acreditam que o Monte Fuji, uma das três montanhas sagradas, é a porta de entrada para um novo mundo (foto: Fabíola Góis/Esp. CB/D.A Press)
Japoneses acreditam que o Monte Fuji, uma das três montanhas sagradas, é a porta de entrada para um novo mundo (foto: Fabíola Góis/Esp. CB/D.A Press)


A história da religião no Japão é marcada por um longo processo de influências e de tradições religiosas. O Xintoísmo faz parte da vida do japonês desde a Antiguidade até a organização do Estado moderno. No século VI, o budismo foi introduzido no Japão e as duas crenças começaram a interagir, servindo como base para outras religiões, entre elas, a Messiânica.

Nessa viagem com o grupo do Brasil, a instituição proporciona uma imersão onde tudo iniciou: a casa onde Mokiti Okada começou a desenvolver suas atividades religiosas, a primeira sede da igreja, o espaço onde ele escrevia mais de 500 caligrafias por dia e onde ele achava inspiração para desenvolver Ikebana (arte de arranjar flores, ramos e galhos naturais numa composição evidenciando-lhes a beleza). O respeito à natureza está em todos os lugares, desde a preparação do solo para receber a muda que dará flores e frutos até o desenvolvimento da agricultura natural. Já naquela época, quando se disseminou o uso do agrotóxico, Mokiti Okada defendia alimentos livres de produtos tóxicos.

Um dos pontos turísticos mais enigmáticos nessa viagem é o Monte Nokogiri-Yama, uma montanha de 329,5 metros na Península de Boso, Estado de Honshu. O local oferece uma visão panorâmica da Baía de Tokyo e tem atrações imperdíveis, como o Nihonji, um templo budista da seita Soto Zen, que possui mais de 1300 anos. Há algumas trilhas a serem percorridas. Ao chegar ao local, o visitante se depara com uma estátua de Buda gigante, chamado Daibutsu, esculpida nas pedras da montanha. É o maior Buda do Japão e mede 31 metros. Logo na frente dele, há um espaço com um sino, em que é possível tocá-lo, fazer orações e pedidos especiais.

Mas o auge da visita foi a subida até o ponto exato onde Meishu-Sama, e alguns seguidores, recebeu a revelação da Transição da Era da Noite para a Era do Dia e a Luz do Johrei (método de canalização de energia espiritual a Luz Divina) para purificação do espírito, capaz de transformar a desarmonia espiritual e material em harmonia. Ainda em 1926, o mestre recebeu uma série de revelações sobre o passado e o futuro da humanidade e essas previsões o tornaram portador de uma missão divina e que deve executar a obra de salvação da humanidade. Os messiânicos ministram essa luz, e estar no local onde tudo começou realmente é impactante.

Visita facilitada


Percorrer todos esses locais é possível com tranquilidade graças ao sistema de transporte público do Japão, considerado um dos melhores do mundo. Ônibus, trens e metrôs são interligados, seguros, eficientes e atendem às quatro principais ilhas do país. Se o oceano impede o acesso terrestre, os japoneses planejam túneis submersos. Experiência inusitada para qualquer turista brasileiro. A sensação é estranha, como se estivesse vivendo em uma cena de filme.

O Shinkanssen, conhecido como trem-bala, é uma atração à parte. Trata-se de um sistema ferroviário de alta velocidade que consiste de seis linhas regulares, podendo superar 300 km/h. Ele conecta as principais cidades do Japão e exagera em conforto e segurança. Em 50 anos de operação, nunca houve um acidente. A viagem é mais confortável do que em avião. E foi com o Shikanssen que cruzamos o país de Atami a Kyoto, uma distância de 367 km em quatro horas.

A acessibilidade é perfeita — havia duas cadeirantes no grupo — e há atendentes servindo comida e bebida. É possível deixar um copo de água do começo ao fim da viagem em cima da mesa sem que ele vire.

Da janela, dá para apreciar o Monte Fuji, a mais alta montanha da ilha de Honshu e de todo o arquipélago japonês, com 3.776 metros de altura. É um vulcão ativo, porém de baixo risco de erupção. Praticamente de todo o Japão é possível visualizá-lo, sempre encoberto com neve no topo.

O Monte Fuji é considerado sagrado pelos japoneses, que acreditam que a montanha é a porta de entrada para um novo mundo, juntamente ao Monte Tate e Monte Haku, que formam as “Três Montanhas Sagradas” do Japão. (FG) 

 

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