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Correio Braziliense

A força do Parnaíba

Um passeio pelo rio leva a diversas paradas. São cinco braços que se lançam sobre o mar. Na Ilha do Caju, de um lado a água é doce, do outro, está o salgado oceano


postado em 19/02/2020 15:25 / atualizado em 19/02/2020 15:19

Cenário mistura deserto de areia e límpidas lagoas(foto: Bertha Maakaroun/Estado de Minas)
Cenário mistura deserto de areia e límpidas lagoas (foto: Bertha Maakaroun/Estado de Minas)


No Piauí, o Porto dos Tatus, em Ilha Grande, a 14 quilômetros da cidade de Parnaíba, é o fio que desata a meada das paisagens do santuário onde o rio desemboca no oceano. Pelo afluente Tatu, assim batizado em homenagem ao “guisado” predileto dos primeiros habitantes da ilha, a embarcação desliza e emborca no paredão de areia, o primeiro de uma infinidade de outros, que se intercalam entre braços, canais e ilhas do delta, em paragens incertas entre os estados do Piauí e do Maranhão. São paisagens mutantes, que decorrem da movimentação das areias oceânicas, açoitadas pelos fortes ventos. Dunas espetaculares que hoje se elevam a 40 metros em pequenas ilhas ora soterram canais, ora se amontoam e criam ilhas, ora despem as antigas.

“Quando era criança e vinha aqui, havia um sítio com coqueirais e carnaúbas. As dunas soterraram”, explica Lidedon da Silva, de 45 anos, conhecido por Dion (mas também frequentemente chamado por “John”), que cresceu acompanhando o pai pescador pelas paisagens do delta do Velho Monge, como também é conhecido o Parnaíba. Piloto de voadoras e guia turístico, Dion leva os incautos pelos humores desse paraíso, enquanto despeja a memória de fotografias de antigas paisagens. “O sítio ficava por ali”, aponta ele para o topo de dunas douradas, ao aportar na ilha chamada Caída do Morro, primeira parada de um dos passeios clássicos pelo delta.


Saltamos da lancha. Alvas, íngremes e magníficas, as montanhas de areia nos desafiam. A cada passada, os pés afundam até meia canela. Se antes intocadas, nossos passos, por instantes, tornam-se presença. Mas não por muito tempo. Dançam com o vento, limpando pegadas e amenizando o sol inclemente sobre a cobertura. Do alto das dunas, abrem-se horizontes espetaculares. O rio escuro é o cenário que surge ao fundo, por detrás dos declives e desníveis das montanhas de areias, que aprisionam em pequenos lagos as águas das chuvas e os transbordamentos de lençóis freáticos.


O Parnaíba são muitos. Na segunda parada, na Ilha das Canárias, no município de Araioses, já no Maranhão, no topo de um mirante, abre-se novo horizonte: um dos cinco braços do delta se lança sobre o Atlântico, depois de uma longa luta, que, para o rio, sempre se anuncia perdida. De um lado da ilha, praias salgadas. Do outro, nossa lancha corta o Parnaíba, pegando também carona em outros de seus braços em direção à Ilha do Caju, onde os mais belos cenários misturam o assombramento deserto de areia, povoado por límpidas lagoas, cercadas de um lado pelo oceano e do outro, pelo rio. A parada é estratégica.


Para além do encantamento exótico das paisagens gestadas entre dunas viajantes, lagos e rios, aproxima-se o pôr do sol. Adiante, na Ilha dos Guarás, arma-se novo espetáculo. Chegam suavemente, aos bandos, de todos os lados, avermelhando as copas verdes da ilhota. São os guarás ou íbis-escarlates, de longos bicos, comedores de caranguejos, aos quais é creditada o tom da plumagem. É o momento de retorno à segurança dos ninhos. Entre o alarido dos pássaros e a penumbra que chega, a natureza se despede do sol. Nós, que estamos a 1h30min de lancha rápida do Porto Tatu, iniciamos pelas mãos do Dion o nosso retorno. Já no escuro, olhos treinados, nosso piloto vai se esgueirando pelo delta e seus segredos.

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