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Correio Braziliense

Sete cidades


postado em 19/02/2020 15:25 / atualizado em 19/02/2020 15:25

Do mirante do parque, avistam-se as formações rochosas esculpidas na região de Piripiri (foto: Bertha Maakaroun/Estado de Minas)
Do mirante do parque, avistam-se as formações rochosas esculpidas na região de Piripiri (foto: Bertha Maakaroun/Estado de Minas)


Numa das áreas mais secas do Nordeste, na transição entre o cerrado e a caatinga, anunciam-se na bacia sedimentar do Rio Parnaíba assombrosos afloramentos de rochas da Era Paleozoica (entre 416 milhões e 359 milhões de anos). Tais formações geológicas insinuam-se por entre folhagens de muricis, paus-terra, palmeiras, buritis, carnaúbas, tucuns, entre tantas outras manchas da vegetação que preserva juazeiros, juremas, aroeiras e cactos, como o xique-xique e a coroa-de-frade.

Obra da ação da chuva, do vento e do calor inclemente sobre as rochas de arenito, as monumentais esculturas naturais de dezenas de metros ganham o ritmo da imaginação: o Dedo de Deus, o Arco do Triunfo, Cabeça de Dom Pedro, Cabeça de Índio, Casco de Tartaruga, a Pedra do Elefante, as pedras do Cachorro, da Rã, o pé de um gigante, o beijo dos lagartos, o mapa do Brasil, os três reis magos, a Pedra do Falo, entre tantas outras quantas mais a vista desvendar.

Esse é o Parque Nacional das Sete Cidades, no Piauí. Foi criado em uma área de 6.304 hectares através do Decreto 50.744, de 5 de junho de 1961. Está localizado entre Teresina e Parnaíba, ao norte do estado, nos municípios de Piripiri e de Piracuruca, a 217 quilômetros da capital. Tão enigmáticas quanto espetaculares, provocam ao longo da história especulações.


A primeira notícia oficial sobre as estranhas formações foi feita pelo conselheiro Tristão de Alencar Araripe ao Instituto Histórico e Geográfico, denominando-a de “Cidades petrificadas e inscrições litográficas no Brasil”, em 9 de dezembro de 1886. Mais tarde, as sete cidades de pedra foram consideradas “ruínas de cidades fenícias fundadas há três mil anos” pelo historiador austríaco Ludwig Schwennhagen, nas primeiras décadas do século passado. Houve ainda quem nelas identificasse herança de vikings. Nos anos 60, Erich von Däniken, autor de Eram deuses os astronautas?, descreveu-as como uma evidência da presença da inteligência extraterrestre na Terra.

Após a travessia do Arco do Triunfo e da gigantesca “biblioteca” — superfície de erosão na base de um depósito de canal — com os seus “livros” e “documentos” empilhados, ambos na Segunda Cidade, é do mirante, a 82 metros, ponto mais alto do parque, que a mais abrangente paisagem cênica salta no horizonte como a magia de um conto ficcional. Separados entre si pela vegetação de transição — que abriga os sete diferentes grupos de afloramentos rochosos esculpidos pelas forças naturais, exalam mistérios e, quem sabe, os detalhes nem sempre revelados da evolução entre os últimos 190 a 200 milhões de anos. Em cada “cidade petrificada”, os monumentos naturais erguem-se no horizonte da vegetação em tonalidades cambiantes ao sabor da luz do dia.

Ainda na Segunda Cidade, entre os pontos de maior interesse do parque, estão os pitorescos paredões monumentais que foram o espaço escolhido pelo homem pré-histórico para deixar a sua imortalidade em pinturas monocromáticas. Um deles leva o nome de Pedra do Americano e dos Seis dedos: em 1951, quatro americanos ali acampados determinaram que moradores cavassem a base de uma rocha, orientados por algumas inscrições em forma de setas que apontam para baixo. Os americanos nunca informaram o que levaram, mas no local foram encontrados restos de carvão. Dez anos depois, em 1961, eles retornaram ao parque, na ocasião já sob a administração do então Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF), que proibiu qualquer tipo de escavação.


Sítios arqueológicos

Na Pedra do Americano e dos Seis Dedos, há diversos desenhos geométricos, registros de mãos, entre as quais uma de seis dedos. Essas inscrições foram datadas pelo método do carbono 14 com idade presumível de 6.000 anos. Mas a idade das inscrições é polêmica: há autores que as interpretam como pós-colombianas, do século 19. Historiadores brasileiros consideram que a área teria sido habitada pelos índios da nação tabaranas, das tribos dos quirirus e dos jenipapos. O território desses índios abrangia área limitada ao Norte pela região costeira, a Oeste pelo Rio Parnaíba, ao Sul pelo Rio Poty e a Leste, pela Serra da Ibiapaba.

O parque tem 26 sítios arqueológicos catalogados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). E diversas piscinas naturais e quedas d’água, como a espetacular Cachoeira do Riachão, que com os seus 15m de altura é muito procurada pelos visitantes. Todo esse ecossistema, protegido, é habitat para aves como o jacu, a seriema, o nambu (também conhecido como perdiz e pé-vermelho), o papagaio, o pica-pau, o sabiá, além de periquitos, corujas, sericoras (ou galinha-d’água, com também é conhecida), aracoans, galos-da-campina, canários e rolinhas. Entre os animais estão a jaguatirica, a onça maçaroca, o veado, pebas, tatus, mocós, guaxinims, raposas, gatos-maracajá e iguanas.(BM)

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