A relação entre a epilepsia e a síndrome congênita do zika (SCZ) tem sido motivo de atenção crescente entre profissionais de saúde e gestores públicos no Brasil. Em crianças afetadas pela síndrome, as crises epilépticas tendem a surgir cedo e com frequência elevada, o que aumenta o risco de internações, intervenções de emergência e necessidade de seguimento contínuo em serviços especializados. Portanto, esse cenário coloca em destaque a importância do diagnóstico precoce, do acompanhamento regular e da organização de uma rede de cuidado estruturada, integrada e resolutiva ao longo da infância.
Nos últimos anos, diversos estudos passaram a investigar como a exposição ao vírus zika na gestação se relaciona com o desenvolvimento de problemas neurológicos na infância. Entre essas complicações, a epilepsia desponta como uma das manifestações mais relevantes, tanto pela gravidade clínica quanto pelo impacto social. Além disso, em suma, a análise de bancos de dados populacionais ampliou a compreensão do problema, permitindo comparar crianças com SCZ, crianças apenas expostas ao vírus e aquelas sem qualquer registro de exposição, e, então, identificar padrões de risco, de acesso aos serviços e de desfechos clínicos distintos.
Epilepsia em crianças com síndrome congênita do zika
A palavra-chave central nesse debate é epilepsia na síndrome congênita do zika, que descreve a ocorrência de crises convulsivas em crianças afetadas por alterações neurológicas associadas à infecção pelo vírus durante a gestação. Em estudos recentes, crianças com SCZ apresentaram um risco de internação por epilepsia muitas vezes maior do que o observado entre crianças sem a síndrome, especialmente nos primeiros anos de vida. Portanto, esse aumento expressivo de hospitalizações indica que o cérebro dessas crianças reage com maior facilidade a descargas elétricas anormais, frequentemente de difícil controle e muitas vezes refratárias a medicamentos de primeira linha.
Os pesquisadores também observaram que o risco de crises graves não se limita aos casos de microcefalia. Crianças com tamanho de cabeça dentro da faixa considerada normal, ou até aumentado, podem desenvolver epilepsia associada à SCZ. Esse dado reforça que a complicação está ligada ao comprometimento neurológico global causado pela infecção congênita pelo zika, e não apenas a uma alteração morfológica específica. Portanto, mesmo em crianças sem microcefalia evidente, o acompanhamento neurológico continua indicado. Em suma, o pediatra e o neurologista pediátrico precisam avaliar o tônus muscular, a visão, a audição, o desenvolvimento motor e a linguagem, já que, frequentemente, as crises se associam a outros atrasos do desenvolvimento.
Quais fatores influenciam o risco de internação por epilepsia?
O risco de internação por epilepsia infantil em crianças com SCZ é modulado por um conjunto de elementos clínicos e sociais. Estudos conduzidos com grandes bases de dados nacionais levaram em conta características como raça, etnia, renda familiar, local de residência e tipo de serviço de saúde utilizado, seja público ou privado. Ao incorporar esses fatores, os pesquisadores buscaram entender não apenas a presença das crises, mas também os motivos que levam algumas crianças a serem internadas com mais frequência. Entretanto, para além dos números, essas informações ajudam a planejar políticas públicas mais equitativas, que reduzam barreiras de acesso e ampliem o cuidado em regiões mais vulneráveis.
Entre os principais pontos avaliados, destacam-se:
- Gravidade das crises epilépticas, incluindo episódios prolongados ou repetidos em curto intervalo; portanto, situações como estado de mal epiléptico exigem atendimento imediato e, muitas vezes, leitos de terapia intensiva;
- Acesso a serviços de emergência e de neurologia pediátrica; em suma, quando as famílias conseguem chegar rápido ao pronto atendimento e, depois, a um especialista, o controle das crises tende a melhorar;
- Condições socioeconômicas que interferem na continuidade do tratamento e no uso regular de medicamentos; então, dificuldades em comprar remédios, guardar corretamente as medicações ou ir às consultas podem aumentar o número de internações;
- Disponibilidade de exames complementares, como eletroencefalograma e neuroimagem; portanto, quanto mais cedo esses exames são feitos, maior a chance de definir o tipo de epilepsia e escolher a terapia mais adequada;
- Tipo de seguimento, em ambulatórios especializados ou em unidades básicas de saúde; em suma, modelos de cuidado que integram atenção básica e atenção especializada tendem a oferecer acolhimento contínuo, orientação às famílias e ajustes frequentes do tratamento.
Crianças expostas ao vírus zika durante a gestação, mas que não desenvolveram a síndrome congênita, em geral não apresentaram aumento significativo do risco de internação por epilepsia quando comparadas a crianças não expostas. Esse achado sugere que a síndrome congênita do zika, e não apenas o contato intrauterino com o vírus, é o principal determinante das formas mais graves de epilepsia relacionadas a esse contexto. Entretanto, o acompanhamento clínico dessas crianças expostas ainda se mostra relevante, pois algumas podem apresentar alterações neurológicas mais sutis, dificuldades escolares futuras ou problemas de comportamento que merecem atenção, mesmo sem crises epilépticas.
Como o sistema de saúde pode responder a esse desafio?
Diante do maior risco de epilepsia em crianças com SCZ, o sistema de saúde precisa se estruturar para oferecer cuidado contínuo desde o nascimento. No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) é o principal responsável pelo atendimento da maior parte dessas crianças, o que exige planejamento de longo prazo, definição de linhas de cuidado e integração entre diferentes níveis de atenção. Portanto, equipes da atenção básica, maternidades, centros de referência em reabilitação e hospitais pediátricos devem trabalhar de forma articulada, compartilhando informações e planos terapêuticos centrados na criança e na família.
Entre as estratégias consideradas importantes para reduzir complicações e internações, destacam-se:
- Identificação precoce das crianças expostas ao zika e daquelas com diagnóstico de síndrome congênita; em suma, o registro adequado na maternidade, o acompanhamento do perímetro cefálico e o encaminhamento inicial já nos primeiros meses de vida fazem grande diferença na evolução;
- Avaliação neurológica regular, com monitoramento do desenvolvimento motor, cognitivo e da ocorrência de crises; então, consultas seriadas permitem ajustar a medicação antiepiléptica, iniciar terapias de reabilitação e orientar cuidadores sobre sinais de piora;
- Acesso rápido a tratamento medicamentoso adequado para controle das crises epilépticas; portanto, garantir a disponibilidade constante de fármacos no SUS, bem como a revisão periódica da prescrição, reduz o risco de descompensações e internações;
- Encaminhamento para serviços de reabilitação, como fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional; em suma, essas intervenções precoces contribuem para estimular a função motora, cognitiva e comunicativa, o que melhora a qualidade de vida mesmo na presença de epilepsia;
- Orientação contínua às famílias sobre sinais de alerta e sobre o manejo de crises em casa; então, ensinar o que fazer diante de uma crise, quando procurar o pronto socorro e como administrar medicações de resgate reduz ansiedade, riscos de acidentes e hospitalizações desnecessárias.
Além da abordagem clínica, o suporte psicossocial às famílias ocupa um lugar central. A rotina de cuidados intensivos, somada às internações recorrentes, pode gerar sobrecarga emocional e financeira. Portanto, programas de apoio que envolvem assistência social, acompanhamento psicológico e oferta de informações claras sobre a epilepsia associada à SCZ contribuem para que cuidadores se sintam mais preparados para lidar com o dia a dia. Em suma, grupos de apoio, redes comunitárias e materiais educativos acessíveis fortalecem o vínculo entre família e equipe de saúde, favorecendo a adesão ao tratamento e a participação ativa no cuidado.
Perspectivas para o cuidado das crianças com SCZ e epilepsia
A experiência acumulada desde a grande circulação do vírus zika no país, em meados da década passada, permite traçar um panorama mais definido sobre a epilepsia na síndrome congênita do zika. Hoje, há evidências de que o risco de hospitalização é mais alto nos primeiros quatro anos de vida, período em que o cérebro está em intensa fase de desenvolvimento e em que as crises tendem a ser mais frequentes. Portanto, o seguimento cuidadoso nesse intervalo pode reduzir complicações, melhorar o controle das crises e otimizar o desenvolvimento global das crianças.
Com a continuidade das pesquisas e o aperfeiçoamento das políticas públicas, a tendência é que o manejo da epilepsia em crianças com SCZ se torne cada vez mais organizado. Em suma, a combinação de vigilância neurológica, acesso a tratamentos atualizados e apoio estruturado às famílias se apresenta como um caminho para reduzir internações desnecessárias e minimizar o impacto da doença ao longo da infância. Então, ao fortalecer a formação das equipes de saúde, ampliar o uso de protocolos clínicos e investir em tecnologia, como teleconsultorias e prontuários eletrônicos integrados, o sistema de saúde pode oferecer um cuidado mais oportuno, humanizado e eficiente às crianças que vivem com SCZ e epilepsia.
Perguntas frequentes (FAQ) sobre epilepsia e síndrome congênita do zika
1. Toda criança com síndrome congênita do zika terá epilepsia?
Não. Embora o risco de epilepsia em crianças com SCZ seja muito maior do que na população geral, nem todas desenvolvem crises. Entretanto, como a probabilidade é alta, o acompanhamento neurológico regular ajuda a identificar precocemente qualquer alteração e a iniciar o tratamento adequado.
2. Como os pais podem reconhecer uma possível crise epiléptica em casa?
As crises podem se manifestar por abalos em braços ou pernas, olhar fixo, perda de contato com o ambiente, movimentos repetitivos da boca ou dos olhos e, em alguns casos, queda súbita de tônus. Portanto, quando um episódio desse tipo ocorre, os cuidadores devem observar a duração, a forma dos movimentos e se a criança recupera a consciência, e então relatar tudo ao médico.
3. A epilepsia na SCZ tem cura ou só controle?
Em muitos casos, o objetivo principal é o controle das crises, e não a cura completa. Em suma, algumas crianças respondem bem aos medicamentos e passam longos períodos sem crises, enquanto outras mantêm episódios mesmo com tratamento. A decisão sobre reduzir ou suspender medicação, quando possível, deve ser tomada junto ao neurologista pediátrico.
4. A família pode fazer algo em casa para ajudar no desenvolvimento da criança com SCZ e epilepsia?
Sim. Estimulação diária com brinquedos simples, conversas, músicas, contato visual e atividades adequadas à idade favorece o desenvolvimento global. Portanto, seguir as orientações de fisioterapeutas, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais e, então, incorporar essas práticas à rotina da casa contribui para melhores resultados.
5. A vacinação é segura em crianças com SCZ e epilepsia?
De forma geral, as vacinas recomendadas no calendário nacional permanecem indicadas, inclusive para crianças com epilepsia. Entretanto, em suma, o pediatra deve avaliar o quadro clínico, o tipo de crise e o uso de medicações para orientar o melhor momento de aplicar cada imunização e esclarecer dúvidas específicas da família.










