A irradiação de alimentos é uma técnica segura e regulamentada para aumentar a durabilidade e eliminar micro-organismos. A associação do tema com o trágico acidente com césio-137 em Goiânia, ocorrido em 1987, é um dos principais mitos que geram desconfiança sobre o método, mas é crucial diferenciar o processo industrial controlado da contaminação acidental. Embora o uso de césio-137 para essa finalidade tenha diminuído significativamente nas últimas décadas, sendo substituído majoritariamente por cobalto-60 e raios-X, a tecnologia em si é segura e não torna o alimento radioativo.
Essa tecnologia de conservação é reconhecida e recomendada por órgãos internacionais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS). O procedimento é realizado em instalações industriais específicas, onde os alimentos embalados são expostos a uma dose controlada de energia ionizante, como raios gama, raios-x ou feixes de elétrons.
A energia atravessa o alimento, mas não permanece nele. O objetivo é destruir bactérias, fungos e insetos que causam doenças ou aceleram a decomposição. O resultado é um produto que pode ser armazenado por mais tempo sem perder suas qualidades nutricionais ou sabor de forma significativa.
Como funciona a irradiação de alimentos?
O processo pode ser comparado à pasteurização do leite, que usa calor para eliminar microrganismos. Na irradiação, a energia ionizante cumpre esse papel sem aquecer o produto. Fontes como o cobalto-60 são as mais utilizadas atualmente. Historicamente, o césio-137 também foi empregado como fonte de radiação gama, mas seu uso tem sido progressivamente descontinuado na indústria alimentícia em favor de alternativas consideradas mais seguras e práticas. Independentemente da fonte, o alimento em si nunca entra em contato direto com o material radioativo.
Após a exposição, o alimento não se torna radioativo, assim como uma pessoa não emite raios-x depois de fazer uma radiografia. A técnica é aplicada em diversos países para garantir a segurança de especiarias, frutas, carnes e grãos, evitando o uso de produtos químicos para conservação.
Quais as vantagens do processo?
A irradiação oferece benefícios importantes tanto para consumidores quanto para a indústria alimentícia. A tecnologia ajuda a reduzir o desperdício de alimentos e a prevenir doenças transmitidas por produtos contaminados. Entre as principais vantagens, destacam-se:
- Aumento da vida útil: retarda o amadurecimento de frutas e vegetais e o brotamento em batatas e cebolas.
- Segurança alimentar: elimina micro-organismos perigosos, como a salmonela e a E. coli, em carnes e outros produtos.
- Controle de pragas: esteriliza ou mata insetos em grãos, frutas e especiarias, servindo como uma alternativa à fumigação química.
- Redução de perdas: ao estender a durabilidade, diminui o desperdício de alimentos ao longo da cadeia de produção e consumo.
E a relação com o césio-137?
A confusão entre a irradiação de alimentos e o acidente de Goiânia surge do envolvimento do mesmo elemento químico, o césio-137, mas em contextos radicalmente diferentes. O desastre de 1987 foi um caso de contaminação radioativa, causado pelo descarte inadequado de uma fonte de radioterapia que expôs pessoas e o ambiente diretamente ao pó de cloreto de césio. Já a irradiação de alimentos é um processo industrial seguro e controlado, onde o alimento é exposto à energia da radiação (que pode vir do césio-137 ou, mais comumente, do cobalto-60), mas nunca entra em contato com o material radioativo em si. O alimento não se torna radioativo, da mesma forma que uma mala não se torna radioativa após passar pelo raio-X de um aeroporto.
No Brasil, a prática é regulada por órgãos como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) e o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), que estabelecem regras rígidas de segurança. Os alimentos tratados por esse método costumam ser identificados por um selo internacional chamado “Radura”, que informa ao consumidor sobre o tratamento recebido pelo produto.







