{"id":14634,"date":"2025-11-13T18:38:44","date_gmt":"2025-11-13T21:38:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/aqui\/?p=14634"},"modified":"2025-11-13T18:38:48","modified_gmt":"2025-11-13T21:38:48","slug":"quinto-dos-infernos-saiba-de-onde-vem-essa-expressao-popular","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/aqui\/2025\/11\/13\/quinto-dos-infernos-saiba-de-onde-vem-essa-expressao-popular\/","title":{"rendered":"&#8216;Quinto dos infernos&#8217;: saiba de onde vem essa express\u00e3o popular"},"content":{"rendered":"\n<p>Entre as express\u00f5es mais marcantes e intrigantes do portugu\u00eas brasileiro, &#8220;quinto dos infernos&#8221; ocupa um lugar especial por sua origem hist\u00f3rica e pelos sentidos que adquiriu ao longo dos s\u00e9culos. Com ra\u00edzes firmes no per\u00edodo colonial, essa frase possui um contexto fascinante, estreitamente ligado \u00e0 cobran\u00e7a de impostos no tempo do Brasil col\u00f4nia e ao relacionamento conflituoso entre colonizadores e colonizados. Hoje, o uso cotidiano do termo esconde um passado de tens\u00f5es e significados que ajudaram a moldar a identidade e o vocabul\u00e1rio nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria que envolve o surgimento dessa express\u00e3o remete ao s\u00e9culo XVIII, quando o Brasil ainda era col\u00f4nia de Portugal. Durante esse per\u00edodo, a explora\u00e7\u00e3o de ouro nas Minas Gerais destacou-se como uma das principais atividades econ\u00f4micas, despertando o interesse da Coroa portuguesa, que imp\u00f4s r\u00edgidos sistemas de arrecada\u00e7\u00e3o de impostos. O &#8220;quinto&#8221;, termo que se refere a uma quinta parte de toda riqueza extra\u00edda do solo, gerou uma s\u00e9rie de enfrentamentos e deixou marcas profundas nas rela\u00e7\u00f5es sociais, culturais e pol\u00edticas da \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O imposto do quinto e as origens da express\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>No \u00e1pice da minera\u00e7\u00e3o, a Coroa portuguesa instituiu o chamado imposto do quinto, exigindo que 20% de todo ouro extra\u00eddo fosse destinado aos cofres reais. O controle sobre a produ\u00e7\u00e3o era rigoroso, sendo realizadas fiscaliza\u00e7\u00f5es diretamente nas casas de fundi\u00e7\u00e3o, onde o ouro era derretido e convertido em barras j\u00e1 marcadas com o devido tributo. Esse processo n\u00e3o s\u00f3 alimentava os tesouros de Portugal, mas tamb\u00e9m fomentava um clima de desconfian\u00e7a e ressentimento entre mineradores e autoridades coloniais.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o ouro devidamente recolhido, ele era transportado em embarca\u00e7\u00f5es rumo \u00e0 Europa. Nesse trajeto, surgia o coment\u00e1rio entre os portugueses: &#8220;L\u00e1 vem a nau do quinto dos infernos!&#8221; A refer\u00eancia a &#8220;infernos&#8221; ligava-se ao territ\u00f3rio brasileiro \u2014 tido por muitos europeus, na \u00e9poca, como uma terra distante, misteriosa, hostil e de condi\u00e7\u00f5es adversas tanto para quem ali vivia quanto para quem seria exilado. Assim, mandar algu\u00e9m para o &#8220;quinto dos infernos&#8221; significava despach\u00e1-lo para o que se considerava o mais long\u00ednquo e indesejado dos destinos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Por que o Brasil passou a ser associado ao \u201cquinto dos infernos\u201d?<\/h2>\n\n\n\n<p>A associa\u00e7\u00e3o do Brasil ao &#8220;quinto dos infernos&#8221; tem explica\u00e7\u00e3o na vis\u00e3o europeia do per\u00edodo colonial. O territ\u00f3rio brasileiro era visto pelos portugueses como uma esp\u00e9cie de &#8220;limbo&#8221;, frequentado por condenados, desafetos do regime e aventureiros em busca de riqueza f\u00e1cil. N\u00e3o por acaso, muitos que vinham na condi\u00e7\u00e3o de degredados eram transportados nas mesmas naus que levavam o ouro tributado pelo quinto.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra explica\u00e7\u00e3o, menos recorrente mas defendida por alguns estudiosos, inverte o ponto de vista: o &#8220;quinto dos infernos&#8221; poderia se referir a Portugal, na percep\u00e7\u00e3o dos colonos exasperados com o rigor da cobran\u00e7a de impostos. Esse uso expressaria a indigna\u00e7\u00e3o diante da explora\u00e7\u00e3o, identificando o verdadeiro &#8220;inferno&#8221; como o centro da autoridade opressora. Em ambos os casos, a frase carrega consigo a mem\u00f3ria de um tempo em que rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e sociais eram marcadas por disputas e estrat\u00e9gias de sobreviv\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Quais outras express\u00f5es surgiram no contexto do quinto?<\/h2>\n\n\n\n<p>O sistema de cobran\u00e7a do quinto acabou gerando rea\u00e7\u00f5es criativas entre os brasileiros, como o lend\u00e1rio &#8220;santo do pau oco&#8221;. Para evitar a entrega compuls\u00f3ria de grandes quantidades de ouro, muitos mineradores passaram a ocultar ouro dentro de imagens ocas de santos esculpidos em madeira. Essas pe\u00e7as religiosas, aparentemente inocentes, serviam como esconderijo e meio de transporte para contrabando de riquezas.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Santo do pau oco<\/strong>: designava tanto as imagens quanto as pessoas que utilizavam esse artif\u00edcio para ludibriar a fiscaliza\u00e7\u00e3o, transformando-se, posteriormente, em sin\u00f4nimo de algu\u00e9m falso ou dissimulado.<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Derrama<\/strong>: outro termo que surge na mesma \u00e9poca, a derrama n\u00e3o era um imposto, mas sim uma cobran\u00e7a efetuada quando a meta anual de arrecada\u00e7\u00e3o n\u00e3o era atingida. O valor restante era cobrado de forma intensa, levando in\u00fameras fam\u00edlias a perderem bens e at\u00e9 a liberdade.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Essas estrat\u00e9gias e express\u00f5es foram fundamentais na constru\u00e7\u00e3o de uma identidade de resist\u00eancia, mostrando a criatividade e o senso de justi\u00e7a dos habitantes da col\u00f4nia diante das adversidades impostas. Al\u00e9m desses termos, vale destacar que express\u00f5es de resist\u00eancia se perpetuaram no vocabul\u00e1rio brasileiro, tais como \u201cdar um jeitinho\u201d, que, em diversos contextos, remete \u00e0 ast\u00facia para superar dificuldades impostas pelo sistema.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O que representa a express\u00e3o \u201cquinto dos infernos\u201d hoje?<\/h2>\n\n\n\n<p>Atualmente, mandar algu\u00e9m para o &#8220;quinto dos infernos&#8221; \u00e9 uma forma coloquial de expressar indigna\u00e7\u00e3o ou rejei\u00e7\u00e3o, sem que as pessoas, na maioria das vezes, conhe\u00e7am a origem hist\u00f3rica dessas palavras. O termo est\u00e1 profundamente enraizado na cultura popular e demonstra como acontecimentos do passado permanecem vivos na linguagem do presente. Portanto, a perman\u00eancia da express\u00e3o no cotidiano destaca a for\u00e7a da heran\u00e7a colonial na constru\u00e7\u00e3o da identidade brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p>O estudo do surgimento dessa express\u00e3o ajuda a compreender n\u00e3o apenas os fatores econ\u00f4micos, mas as din\u00e2micas sociais e culturais que moldaram o portugu\u00eas do Brasil. Explora\u00e7\u00f5es, tens\u00f5es pol\u00edticas, resist\u00eancia e ast\u00facia formam o pano de fundo de um vocabul\u00e1rio recheado de significados, cujo uso ultrapassa s\u00e9culos. Tais curiosidades revelam a riqueza do idioma e contribuem para o entendimento das rela\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas entre Brasil e Portugal. Em suma, conhecer a origem de express\u00f5es populares \u00e9 fundamental para valorizar a hist\u00f3ria e entender o presente.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Perguntas frequentes sobre \u201cquinto dos infernos\u201d e o contexto do quinto<\/h2>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><strong>Como a express\u00e3o \u201cquinto dos infernos\u201d influencia a literatura e cultura brasileiras?<\/strong><br>Em muitas obras liter\u00e1rias e produ\u00e7\u00f5es culturais, a express\u00e3o \u00e9 usada para refor\u00e7ar ideias de rep\u00fadio, dist\u00e2ncia e sofrimento extremo, funcionando como s\u00edmbolo da opress\u00e3o hist\u00f3rica e da criatividade do povo brasileiro em transformar dor em linguagem viva.<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Existem registros documentais do uso da express\u00e3o na \u00e9poca colonial?<\/strong><br>Embora haja relatos orais e algumas men\u00e7\u00f5es indiretas em cartas e documentos coloniais, o uso popular s\u00f3 se consolidou mesmo a partir do s\u00e9culo XIX, quando express\u00f5es da oralidade passaram a ser registradas por cronistas e escritores.<\/li>\n\n\n\n<li><strong>O imposto do quinto foi aplicado a outras riquezas, al\u00e9m do ouro?<\/strong><br>Sim. Al\u00e9m do ouro, o imposto tamb\u00e9m incidiu sobre outros minerais e produ\u00e7\u00f5es, como diamantes em regi\u00f5es minerais estrat\u00e9gicas do Brasil Col\u00f4nia, ampliando ainda mais o poder de arrecada\u00e7\u00e3o da Coroa portuguesa.<\/li>\n\n\n\n<li><strong>Como a popula\u00e7\u00e3o local reagia \u00e0 fiscaliza\u00e7\u00e3o nas casas de fundi\u00e7\u00e3o?<\/strong><br>As rea\u00e7\u00f5es variavam, mas, de modo geral, eram marcadas por desconforto, tentativas de burlar o sistema e at\u00e9 revoltas, como a famosa Inconfid\u00eancia Mineira, que teve origem direta no descontentamento com o imposto do quinto e a derrama.<\/li>\n\n\n\n<li><strong>O que significa dizer que uma express\u00e3o \u00e9 \u201cmarcada pela resist\u00eancia\u201d?<\/strong><br>Significa que ela nasceu do confronto e adapta\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o diante de imposi\u00e7\u00f5es, funcionando como instrumento de cr\u00edtica, resist\u00eancia e, at\u00e9 mesmo, de ressignifica\u00e7\u00e3o dos sofrimentos hist\u00f3ricos.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>Entretanto, \u00e9 importante ressaltar como esses elementos da hist\u00f3ria lingu\u00edstica continuam a refor\u00e7ar nossa identidade cultural e a enriquecer o portugu\u00eas brasileiro. Portanto, conhecer express\u00f5es como \u201cquinto dos infernos\u201d possibilita uma leitura mais profunda do imagin\u00e1rio coletivo nacional e um di\u00e1logo vivo com o nosso passado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre as express\u00f5es mais marcantes e intrigantes do portugu\u00eas brasileiro, &#8220;quinto dos infernos&#8221; ocupa um lugar especial por sua origem hist\u00f3rica e pelos sentidos que adquiriu ao longo dos s\u00e9culos. 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