NOVO CORONAVÍRUS

Números diários da pandemia da covid-19 não devem mudar tão cedo

Estáveis, mas em altos patamares, os números diários da pandemia não devem apresentar mudança a curto prazo. Segundo especialistas, a falta de políticas para frear a transmissão do vírus provocará mais de 200 mil mortes até outubro

Bruna Lima
Maria Eduarda Cardim
postado em 30/08/2020 07:00 / atualizado em 30/08/2020 10:35
 (foto: RAUL ARBOLEDA)
(foto: RAUL ARBOLEDA)

A acelerada ascensão da curva brasileira de covid-19 foi interrompida. A notícia, porém, está longe de ser positiva. Sem conseguir, ou ao menos tentar, controlar a disseminação do vírus, que segue avançando pelo interior do país, o Brasil estagnou-se em um patamar estratosférico de atualizações diárias, com média de mil mortes e 40 mil novas infecções. Para especialistas, pequenas variações entre uma semana e outra não indicam mudança desse cenário e a falta de políticas de contenção da transmissão do vírus deve fazer com que o Brasil contabilize, até outubro, mais de 200 mil vidas perdidas pela pandemia.

O quadro dramático observado nos últimos meses é fruto da ideia de não se fazer controle da pandemia, avalia o pesquisador Domingos Alves, um dos responsáveis pelo Portal Covid-19 Brasil, iniciativa que monitora a pandemia no país. “Os elevados patamares começaram a acontecer a partir de junho, com os planos de abertura que têm sido praticados em todos os estados brasileiros. Esse é o motivo: o puro e simples não gerenciamento da pandemia. Não existia antes da reabertura e continuou não existindo depois. Só que, com a reabertura, o crescimento de casos se mantém.”

Os dados apontam que o país não consegue nem mesmo sustentar uma queda da taxa de transmissão (Rt) da covid-19, que, na última semana, voltou a subir. Após chegar a 0,98, com o fechamento da 33ª semana epidemiológica, a nova avaliação do Imperial College de Londres indicou que o Brasil voltou ao índice de 1, quando a doença alcança níveis considerados de descontrole. O número simboliza que cada infectado transmite a doença para uma outra pessoa saudável, mantendo a alta circulação do vírus.

Com isso, o Brasil voltou ao rol de nações nas quais a doença é considerada ativa. O Brasil ficou por 16 semanas consecutivas com Rt acima de 1, sendo o país da América Latina com mais longa permanência nos altos patamares de transmissão. “O que observamos é uma flutuação da curva, não é uma baixa. Em uma semana desce, mas na outra, sobe. Esse é um comportamento quase que único no mundo inteiro, a despeito do discurso do governo”, afirma Domingos.

Para o pesquisador, a morte de aproximadamente mil brasileiros por dia é reflexo de uma priorização da política de contenção dos danos em detrimento da redução da transmissão do vírus. “Com abertura de leitos e compra de respiradores, o governo mostra que há modos de receber os doentes. Continua contando para população que existem medidas de higiene, que você pode sair, ir ao shopping, porque tem álcool em gel e você vai de máscara. Isso gera uma falsa sensação de segurança, mas não existe uma política pública nacional para o controle da pandemia. Existe, sim, um plano de recuperação econômica em detrimento da saúde pública.” 

 

Descontrole

O próprio ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello, chegou a afirmar que o ministério “não tem uma solução imediata para o aumento (de casos), mas para o tratamento dos doentes, sim”, no início do mês, durante a tradicional live feita nas redes sociais do presidente Jair Bolsonaro. Em outro momento, ao falar sobre o aumento de infecções confirmadas no Sul do país, o general indicou que o crescimento de casos ocorre independentemente da preparação feita pelos estados.

“A curva de contaminação depende de muitos fatores. Estamos no inverno, que é o momento mais crítico para as doenças por contaminação de vírus. O Paraná e seus municípios vêm tomando todas as medidas que têm que tomar, mas a curva tende a crescer porque, neste momento, estamos no inverno no Sul”, declarou, durante uma coletiva de imprensa em julho.

 

Falta de testagem

Outro agravante para as altas atualizações é a falta de uma política de testagem. Para Domingos, o país não conseguiu, até o momento, seguir a recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS) de testagem em massa, conseguindo identificar desde o infectado às redes de contactantes formadas a partir do caso identificado. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Covid (Pnad Covid-19), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de maio até julho, cerca de 13,3 milhões de pessoas, o equivalente a 6,3% da população brasileira, fizeram algum teste para diagnóstico da covid-19 no país desde o início da pandemia até julho de 2020.

“Continuamos imersos em uma politização do gerenciamento da crise em um verdadeiro negacionismo nacional com relação à gravidade do que é essa pandemia. Isso sempre foi uma desvantagem”, acrescenta o pesquisador, estimando que, neste ritmo, o Brasil deve chegar aos 200 mil óbitos ainda em outubro.

 

Predição

Pesquisador do Observatório Covid-19 Brasil, Rafael Lopes é responsável pelo desenvolvimento de ferramentas de predições que relacionam causalidade e teoria a partir de dados. Para as projeções, o grupo adota uma técnica para corrigir atrasos, colocando as séries de modo a mostrar uma melhor atualidade do contágio. “A correção precisa ser feita para que se possa delinear melhor uma política pública”, explica. 

Imunidade coletiva

A cada dia que passa, perde mais força a indicação de que o Brasil conseguirá rastrear o vírus e tomar o controle da situação para contê-lo. Por outro lado, ganha espaço a esperança de atingir uma imunidade coletiva capaz de criar barreiras de transmissão. Considerando que a população não é suscetível ao vírus de maneira homogênea, estudos do grupo liderado pela biomatemática portuguesa Gabriela Gomes, da Universidade de Strathclyde, com pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), apontam que o limiar de imunização coletiva gira em torno de 10% a 20%, bem abaixo dos 60% a 70% estimados no início da pandemia.

No entanto, é preciso frisar que o limiar mais baixo não pode servir como uma estratégia natural para diminuir a transmissão da covid-19. “A imunidade coletiva não deve ser usada para traçar políticas públicas. É uma constatação de um modelo matemático, teórico. É genocídio falar sobre imunidade coletiva sem ser por meio de uma vacina. Significa, basicamente, admitir mortes totalmente evitáveis”, destaca o pesquisador Rafael Lopes, do Observatório Covid-19 Brasil. Por outro lado, pondera, o limiar não pode ser relacionado a um fim imediato da pandemia, que só deve ser pacificada com a vacina, ou seja, quando houver uma imunidade coletiva por meios artificiais e seguros.

Isolamento

Enquanto isso, o patamar de contaminação em níveis altos demonstra que o vírus continua circulando. “Os jovens estão mais nas ruas e, antes, tinham um cuidado maior. Da mesma maneira, as cidades pequenas estão gerando um maior número de casos. A epidemia está traçando sua trajetória em direção ao interior. Além disso, o inverno chegou e há um aumento da incidência das doenças respiratórias em geral, entre elas, a covid-19, o que pode confundir o diagnóstico ou mesmo agravar os quadros clínicos”, detalha o sanitarista Christovam Barcellos, pesquisador do Laboratório de Informação Científica e Tecnológica em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz.

Na espera de uma vacina, o ideal, para o especialista, seria manter os níveis de isolamento acima de 50% e fortalecer a vigilância para encontrar as redes de infecções e ter o vírus sob controle. (BL e MEC)

 

 

 

Mortos passam de 120 mil


O Brasil chegou a 120.262 mortes por covid-19, segundo dados do Ministério da Saúde divulgados ontem, com 758 óbitos registrados nas últimas 24 horas. O país contabiliza mais de 3,8 milhões de casos, sendo que, nas últimas 24 horas, houve 41,3 mil novos registros. Desde o início da pandemia, pouco mais de 3 milhões de pessoas se curaram da doença, segundo o último boletim do ministério.

O estado com a maior quantidade de casos é São Paulo, com 801,4 mil registros e 29,9 mil óbitos confirmados. A Bahia vem em seguida, com 254,8 mil casos e 5,3 mil mortes. O Rio de Janeiro está em segundo lugar no número de óbitos, com 16 mil registros, e em terceiro no número de casos, com 222,9 mil.

Segundo o boletim, 16 estados já registraram mais de 100 mil casos de coronavírus, e 22 unidades da Federação contabilizaram mais de 1 mil óbitos desde o início da pandemia. Para os especialistas do Ministério da Saúde, este é um sinal de que o nível de contágio nos estados pode estar bem acima do que os testes puderam detectar.

O Brasil continua como segundo colocado em número de casos, atrás, apenas, dos Estados Unidos, que têm 5,9 milhões de registros e 182,7 mil mortes pela covid-19. O levantamento global é feito pela plataforma da Universidade Johns Hopkins (EUA), que registra 840 mil pessoas mortas pela doença e mais de 24,9 milhões de casos confirmados.

 

 

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