PRESERVAÇÃO

Só R$ 105 mil para políticas ambientais

Levantamento do Observatório do Clima mostra a ínfima aplicação orçamentária do Ministério do Meio Ambiente, até 31 de agosto passado, em iniciativas relativas à mudança climática e à proteção da biodiversidade. Quantia corresponde a 0,4% do orçamento autorizado

Natalia Bosco* Edis Henrique Peres*
postado em 12/09/2020 00:44

O Ministério do Meio Ambiente (MMA) aplicou exatos R$ 105.409,00 em políticas ambientais até 31 de agosto deste ano. O valor equivale a um décimo daquilo que o ministro Ricardo Salles anunciou, em junho, que gastaria com carros blindados para se deslocar por Brasília. Os dados são de um levantamento do Observatório do Clima, divulgado ontem.

De acordo com os dados coletados pela organização não-governamental, a quantia investida pelo ministério corresponde a apenas 0,4% do orçamento autorizado para as iniciativas relativas à mudança climática, à proteção ambiental da biodiversidade e à melhoria da qualidade ambiental urbana. A pesquisa considerou apenas ações “finalísticas”, ou seja, aquelas nas quais o MMA pode gastar de forma discriminatória com programas de proteção ambiental –– não inclui pagamento de salários, aposentadorias, veículos ou outros gastos essenciais administrativos, nem as autarquias da pasta.

Para Claudio Angelo, coordenador de comunicação do Observatório do Clima, essa atitude é um sintoma do desmonte da proteção ambiental no Brasil. “O ministério é o formulador das políticas públicas de meio ambiente na esfera federal. Se ele não está gastando dinheiro, é um sinal de que políticas públicas não estão sendo formuladas”, disse. Ele também lembrou que o plano original do governo Bolsonaro era fechar o MMA “e, na prática, é isso o que está acontecendo”.

Pedro Roberto Jacobi, professor titular sênior do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental e Divisão Científica de Gestão, Ciência e Tecnologia Ambiental da Universidade de São Paulo (USP), apontou que as mudanças no MMA refletem um processo de em fraquecimento das políticas ambientais. “Parafraseando o próprio ministro Salles: passar a boiada”, disse, acrescentando que há uma relação direta entre as queimadas na Amazônia e no Cerrado, e a falta de projetos ambientais do governo.

O Pantanal, bioma localizado entre os estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, e que alcança áreas da Bolívia, da Argentina e do Paraguai, está em chamas há mais de 40 dias. Segundo dados coletados pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), cerca de 2,3 milhões de hectares foram consumidos pelo fogo desde o início do ano. O território queimado equivale a quase 10 vezes a área das cidades de São Paulo e Rio de Janeiro juntas. Aviões e profissionais, como bombeiros e militares, estão na região realizando esforços para controlar as chamas.

Na Amazônia, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) identificou 13.810 focos de calor na floresta, entre os dias 1 e 9 de setembro. O Inpe também divulgou dados das queimadas da região em agosto de 2020, identificado como o segundo pior mês de desmatamento documentado, perdendo apenas para agosto de 2019.

Procurado pelo Correio, o Ministério do Meio Ambiente não se manifestou até o fechamento desta edição.

Nada acontecendo
Salles, porém, voltou a afirmar que a Amazônia não está “queimando”. Em uma publicação na sua conta oficial do Twitter, disse lamentar o vídeo produzido por pecuaristas do Pará, e divulgado por ele, que nega as queimadas na região amazônica e mostra mico-leão-dourado –– animal encontrado apenas na Mata Atlântica. “Lamento o vídeo contendo o mico-leão na Amazônia, embora realmente ela não esteja queimando como dizem”, escreveu.

O vídeo citado por Salles foi divulgado na quarta-feira, pelo próprio ministro e pelo vice-presidente, Hamilton Mourão, e produzido pela Associação de Criadores do Pará (Acripará), que reúne pecuaristas do estado.

* Estagiários sob a supervisão de Fabio Grecchi


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