Pantanal em chamas

50 anos de estragos

Em meio ao pior setembro da história, bioma teve 19% de sua área total devastados. No Acre, vice-presidente Mourão volta a afirmar que o problema existe, mas está superdimensionado. Governo federal vai ajudar Mato Grosso

Edis Henrique Peres - Natália Bosco*
postado em 24/09/2020 00:31

 


Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), já foram registrados, no Pantanal, somente este mês, 1.755 focos de calor, fazendo deste o pior setembro da história do bioma desde 2007. De acordo com o Instituto Centro de Vida (ICV), 95% dos focos de incêndio incidem em áreas de vegetação nativa e as queimadas já consumiram 19% da extensão total do Pantanal. Especialistas avaliam que bioma tardará ao menos 50 anos para se regenerar pós-fogo. O vice-presidente Hamilton Mourão, que cumpriu agenda no Acre, ontem, disse que o País precisa regulamentar o quanto antes a exploração de minério em terras indígenas e que a divulgação das queimadas em território brasileiro, principalmente no Pantanal e na Amazônia, está sendo superdimensionada.

Mourão visitou o Acre um dia depois de o presidente Jair Bolsonaro dizer na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) que é também dos índios e caboclos a culpa dos incêndios florestais registrados na região amazônica. Questionado, o vice-presidente afirmou: “Não compete a mim prestar esclarecimentos sobre as palavras do presidente Bolsonaro, até porque eu sou o vice-presidente dele. O tempo todo nós temos colocado o seguinte: o problema existe e nós temos de combatê-lo, mas existe não na dimensão que se passa.”

Professora e pesquisadora associada do Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Conservação da Biodiversidade da Universidade Federal de Mato Grosso (PPG-ECB/IB-UFMT), Cátia Nunes de Cunha afirmou que “a regeneração, baseada nos resultados adquiridos, levará em torno de 50 anos. Caso a intensidade do incêndio seja mais grave, poderá levar mais tempo”, disse, em entrevista ao Estadão.

Segundo Cleber Alho, Ph.D em Ecologia pela University of North Carolina at Chapel Hill e professor aposentado da Universidade de Brasília (UnB), a estimativa de tempo para a recuperação do bioma pode ser ainda maior se a área não for adequadamente protegida e se houver novas ocorrências de incêndios. Embora alguns animais escapem do dano direto do fogo, eles ainda precisam enfrentar a escassez de comida. “Isso impacta a longo prazo a interação que toda fauna tem com a flora e com o meio ambiente”, afirma.

Catia lembrou, ainda, que áreas que passam constantemente por incêndios têm perda na composição, na estrutura da vegetação e, consequentemente, na perda de habitats para os animais. Segundo ela, “há (no Pantanal) populações de animais de outras áreas do Brasil e, inclusive, dos considerados ameaçados. Até agora, as populações desses animais estavam se recuperando. As populações de animais que conseguiram sair da categoria de ameaçadas, hoje, podem estar comprometidas novamente por causa dos incêndios”.

Impactos

Especialista que trabalha há mais de 30 anos estudando o bioma, Cleber Alho destaca os danos socioeconômicos causados pelo incêndio no Pantanal. Ele pontua que, além do dano direto do fogo, há os impactos que perduram por mais tempo. E cita, ainda, o exemplo do turismo ambiental, praticado na região por visitantes de todo o país e, também, do exterior, que visitam o local justamente para encontrar a abundância de biodiversidade.

O professor ressalta que, além da arrecadação com base no turismo, há a pesca de cachara e de pintado, além de outros peixes de valor comercial, afetada devido aos incêndios. Alho explica que a massa queimada é carregada para os leitos dos rios e entra em decomposição orgânica, mas que essa grande quantidade de compostos acarreta em um desequilíbrio no oxigênio e na qualidade da água, o que leva a morte dos peixes. O fogo também destrói as matas ciliares e impede o fluxo natural dos rios.

Alho deu o exemplo de uma onça que consegue escapar do incêndio e foge para outra região. “Esses animais não estão dispostos ao acaso, eles são territoriais. Uma onça ocupa, em média, uma área de 30 quilômetros. Ela pode fugir do fogo, mas chegar na área que já é território de outro predador, ficando sem espaço para se alimentar”.

Em entrevista ao CB Poder, uma parceria do Correio com a TV Brasília, a especialista do Observatório do Clima Suely Araújo cobrou mais agilidade do governo no combate ao desmatamento. Leia abaixo os principais trechos.

*Estagiários sob a supervisão de Andreia Castro

 

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