Entrevista

Governo agiu tarde no Pantanal, analisa Suely Araújo, ex-presidente do Ibama

Especialista sênior em políticas públicas do Observatório do Clima aponta detalhes sobre a crise

Edis Henrique Peres*
postado em 24/09/2020 06:00
 (crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)
(crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)

A senhora já foi presidente do Ibama. A devastação do meio ambiente no Brasil tornou-se assunto mundial e foi tema no discurso do presidente Bolsonaro na ONU. O que achou?

Foi totalmente descolado da realidade. A impressão que temos é que o presidente Bolsonaro acha que a realidade é alterada por um mero discurso. E o que ele expôs para o mundo todo, na fala inaugural da sessão da ONU, são tantas inverdades que ficamos estarrecidos. É assustador. O presidente falou, em relação à Amazônia, que as queimadas são feitas por índios e caboclos que fazem seus roçados. Também disse que o Brasil é vítima de uma brutal campanha de desinformação. Se os indígenas fossem os culpados pelos incêndios, nós não teríamos mais florestas, porque eles estão lá desde sempre. Eles usam realmente o fogo em determinadas culturas, assim como outras comunidades tradicionais. Mas, eles sabem fazer o manejo da floresta, eles sabem como usar e como controlar. É comprovado que a maior parte dos incêndios é gerada a partir das grandes propriedades, com queimadas sem autorização do órgão competente, no caso, o órgão ambiental estadual.

O Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) indica que 95% dos focos foram em áreas de vegetação nativa. Isso derruba a tese do presidente de que seriam índios e caboclos refazendo seu roçado?

Sim, na verdade o fogo acompanha o desmatamento humano. Se você tem muito desmatamento humano, você sabe que na sequência você tem limpeza de terreno. Na verdade, já se espera isso. Ano passado, o desmatamento foi alto. Pelos números do ano passado, já esperávamos que os incêndios deste ano fossem problemáticos.

Para a senhora, o governo demorou para agir?

Acredito que poderiam ter respondido ajudando mais rápido. Mesmo que fosse em áreas que não eram terras indígenas e nem locais de conservação federal, o governo federal poderia ter ajudado logo no início. Na verdade, o Pantanal está nessa situação há um bom tempo. Além disso, neste ano, houve queixa de que a contratação dos brigadistas pelo governo federal ocorreu com três meses de atraso. E é importante que essa contratação corra antes da época do fogo porque eles fazem um trabalho de prevenção.

Houve falta de recursos ou teve alguma coisa intencional ou falta de conhecimento?

Pode ser uma soma de fatores, como a inexperiência e troca de coordenações nos órgãos ambientais. Por exemplo, no ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), mesmo que haja policiais militares com experiência em fiscalização ambiental, a experiência deles é nos estados, em uma situação menor. Então, houve a troca dessas coordenações de temas importantes, tanto no Ibama quanto no ICMBio, e colocaram pessoas que possuem bom currículo, mas não tem experiência de gerir essas ações em nível nacional. Tratar a complexidade da Floresta Amazônica, por exemplo, é diferente de uma situação no estado de São Paulo, onde as equipes têm várias estradas e facilidade de acesso. Mas dinheiro, em termos orçamentários, não foi o problema. Porque, este ano, eles executaram pouco do que tinha autorizado no Orçamento. Seja Ibama ou ICMBio.

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