Meio ambiente

País dizimou área do tamanho da Espanha

Segundo o IBGE, Brasil perdeu, entre 2000 e 2018, meio milhão de km² de cobertura natural. Segundo especialistas, contudo, dados estavam desacelerando, e voltaram a subir nos últimos dois anos: "Estamos perdendo os ganhos conquistados"

SIMONE KAFRUNI - NATÁLIA BOSCO*
postado em 24/09/2020 23:37
 (crédito: Carl de Souza/AFP - 16/8/20)
(crédito: Carl de Souza/AFP - 16/8/20)

O Brasil perdeu, entre 2000 e 2018, meio milhão de quilômetros quadrados (km²), uma extensão territorial equivalente à da Espanha. A perda da cobertura natural da vegetação ocorreu em todos os biomas. Na Amazônia e no Cerrado, contudo, a devastação foi maior, cerca de 90% da destruição total. Em 2018, a cobertura florestal da Amazônia representava 75,7% de sua área original. No bioma, nesses 18 anos, desapareceram 269,8 mil km² de vegetação nativa, uma extensão superior à do estado de São Paulo. No Cerrado, 152,7 mil km² foram perdidos, área maior do que à do Ceará.

Os dados constam da primeira edição da pesquisa Contas de Ecossistemas: Uso da Terra nos Biomas Brasileiros (2000-2018), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgada ontem. O levantamento também apurou que a principal transformação no uso da terra foi a expansão das fronteiras agropecuárias.

De acordo com Maria Luisa Pimenta, gerente de Contas e Estatísticas Ambientais do IBGE, todos os biomas tiveram saldo negativo na extensão dos ecossistemas naturais no período analisado, somando 500 mil km². “Porém, houve desaceleração ao longo dos anos. A perda proporcional do bioma Pampa foi a maior. Ao longo da série, teve 16,8% da área convertidos para usos antrópicos (ocupação decorrente de exploração). Apesar de sua pequena extensão, a perda relativa é consideravelmente superior aos demais.”

O Pantanal teve as menores perdas, tanto absolutas, quanto percentuais, com decréscimo de 2 mil km ou 1,57% do território, segundo a especialista. Vale lembrar que a pesquisa foi realizada entre 2000 e 2018 e não pega, portanto, 2019 e 2020 — período em que o bioma sofreu com incêndios acima da média.

As queimadas, apenas neste ano, comprometeram mais de 20% da cobertura vegetal do Pantanal. O presidente Jair Bolsonaro repetiu, ontem, na tradicional live semanal, contudo, a afirmação de que o Brasil seria “o país que mais preserva” florestas tropicais.

Vetores

A pesquisa do IBGE também apontou quais os vetores causaram o desmatamento para cada bioma. Na Amazônia, a conversão para o uso agropecuário foi o principal motivo da destruição, segundo Pimenta. As áreas de pastagem com manejo passaram de 248,8 mil km², em 2000, para 426,4 mil km², em 2018. “Houve aumento de 71,4% para pastagem e crescimento gradual e contínuo de 300% para agricultura”, disse a gerente do IBGE.

No Cerrado, a expansão acelerada de áreas agrícolas atingiu 102,6 mil km², com a atividade avançando sobre a vegetação campestre ou antigas pastagens. Em 2018, 44,61% das áreas agrícolas e 42,73% das áreas de silvicultura (cultivo de florestas por meio do manejo agrícola) do Brasil encontravam-se no bioma.

Na Mata Atlântica, que tem lei específica de proteção por ter sido o bioma mais devastado do país, em 2018, 12,6% estavam cobertos e houve pouca alteração, pois, em 2000, a cobertura era de 13,3%.

A Caatinga teve redução contínua de 36 mil km², basicamente de mosaicos, ocupação típica da região, de pequenas pastagens e cultivos de subsistência. No Pampa, a conversão das áreas naturais foi de 80% para silvicultura. E no Pantanal, a pastagem e o manejo são responsáveis por 60% das modificações do ecossistema.

A maior desaceleração ocorreu no bioma Mata Atlântica: de uma perda de 8.793 km², entre 2000 e 2010, para menos 577 km², entre 2016 e 2018. Na Caatinga, nos mesmos cortes temporais, as perdas foram de 17.165 km² e de 1.604 km², respectivamente. A Mata Atlântica, que sofre a ocupação mais antiga e intensa, conserva 16,6% de suas áreas naturais, o menor percentual. Já a Caatinga, o terceiro bioma mais preservado do país, tem 36,2% de seu território sob influência antrópica.

Agropecuária

Marcos Reis Rosa, coordenador técnico do Mapbiomas, rede colaborativa que realiza monitoramento detalhado da vegetação desde 1985, ressaltou que, como o estudo do IBGE é de 2000 a 2018, os dados vinham em desaceleração. “No entanto, o que percebemos, por meio do sistema Prodes (do Instituto Nacional de Pesquisa Espacial) é que, em 2019 e 2020, o desmatamento voltou a subir. “Estamos perdendo os ganhos conquistados. Na Mata Atlântica, onde até 2018 se comemorava desmatamento zero, houve aumento de 27% na devastação em 2019”, alertou.

O especialista assinalou que 90% do desmatamento foram para uso agropecuário. “O país tem muitas áreas abertas, de pastagens abandonadas, pode aumentar produtividade sem desmatar novas áreas”, ressaltou.

O deputado Rodrigo Agostinho (PSB-SP), coordenador da Frente Parlamentar Ambientalista, explicou que as consequências do desmatamento podem ser sentidas além da floresta. “É uma situação que está levando a secas mais intensas. Menos floresta, menos água. Então, você tem impactos econômicos também. Sem chuva não tem agricultura, e o Brasil depende do agronegócio”, disse. Procurado, o Ministério do Meio Ambiente disse não ter nada a comentar.

*Estagiária sob a supervisão de Andreia Castro

 

Destruição

Redução de áreas naturais no Brasil por bioma entre 2000 e 2018

BiomasEm km²% do total

Amazônia269.80155

Cerrado152.70631,2

Caatinga 35.2677,2

Pampa16.1613,3

Mata Atlântica 13.8332,8

Pantanal 2.1090,5

Total489.877100

Fonte: IBGE

 

 

 

 

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