Entrevista /Renan Lyra

psicólogo e pesquisador na área de saúde mental

Jéssica Gotlib
postado em 24/09/2020 23:39

Prevenção salva vida de idosos

Em todo o mundo, as taxas de suicídio são crescentes. Em pleno Setembro Amarelo, no Brasil, a realidade é ainda mais preocupante entre os idosos. Para falar sobre o tema, o CB.Saúde — parceria entre o Correio e a TV Brasília — entrevistou o psicólogo clínico e pesquisador Renan Lyra. Doutorando e bolsista pela University of Otago, Wellington, Nova Zelândia, o especialista discute as questões que envolvem a morte auto-induzida na terceira idade.


Os dados gerais são bem significativos, a OMS (Organização Mundial da Saúde) fala de um suicídio a cada 40 segundos. Na sua investigação, você teve acesso a dados que falam sobre o suicídio na terceira idade e que também chamam a atenção?
A gente tem, no Brasil, o maior índice de suicídios dentro da população idosa. (...) Em números gerais, a população idosa não é a que mais morre por suicídio, mas se a gente retomar a pirâmide etária, (...) em cálculos que são feitos com o número de mortos por suicídio por 100 mil pessoas, o índice de suicídio em idosos no Brasil está, ali, em cerca de 19,6 por 100 mil habitantes. Em comparação, a média geral de mortos por suicídio no Brasil está entre 5 e 8 mortos por 100 mil pessoas por suicídio.


No caso do idoso, quais são os fatores de risco mais significativos?
Dos fatores de risco que eu identifiquei na minha pesquisa, ressaltaria o isolamento social que é esse processo (que começa) a partir de quando a pessoa se aposenta. Ela passa a conviver mais dentro de casa e tem menos relações sociais, e acaba ficando mais isolada. E esse isolamento é muito prejudicial para a saúde mental, tanto dos idosos quanto das pessoas de maneira geral. Além disso, as questões do desemprego, da pobreza, são muito significativas, especialmente para os idosos, que, muitas vezes, não têm um familiar que possa auxiliar, que possa prover a questão financeira mesmo, e acabam tendo uma diminuição da qualidade de vida.


Em relação à pandemia, o idoso fica sozinho em casa ou, às vezes, só com uma pessoa. O que ele pode fazer para cuidar da sua saúde mental?
Essa questão ainda é muito nova, a gente ainda está encontrando formas de lidar com isso. Gosto de ressaltar que um dos fatores de proteção para a ideação suicida, principalmente para o idoso, é a questão dos planos de vida. Você ter planos para o futuro, você ter metas para o futuro. Eu sei que a pandemia é uma situação muito disruptiva que ainda está abalando muita gente, tem pessoas que perderam entes queridos, mas tentar, também, aproveitar essa situação como uma janela de oportunidade para rever algumas práticas de vida.


Com os cinco anos do Setembro Amarelo, começou a se falar um pouco mais sobre suicídio?
A minha percepção é que está bem difundido essa questão de falar sobre o suicídio, não por acaso é o mês em que eu mais recebo convites para participar de rodas de conversas, palestras, lives. Mas, ainda, é um evento pouco debatido, pouco discutido, pela questão de virar uma oportunidade mercantilista, de desviar um pouco a pauta da importância de chamar a questão para a questão do suicídio e virar uma questão de autopropaganda de empresas, de outros setores. É uma questão muito delicada.

 

 

 

 

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