Mari Ferrer

Impunidade no caso Mari Ferrer pode aumentar número de estupros, diz especialista

Decisão judicial que inocentou o agressor repercute na internet e incita discussões sobre impunidade no Brasil; Especialista afirma que o caso pode alavancar a ocorrência de mais crimes sexuais

Bruna Yamaguti*
postado em 04/11/2020 19:31
 (crédito: Reprodção/Internet)
(crédito: Reprodção/Internet)

O termo "estupro culposo" foi um dos assuntos mais comentados nas redes sociais na última terça-feira (3/10). O caso de estupro envolvendo a influenciadora Mariana Ferrer ganhou repercussão novamente após divulgação dos detalhes do julgamento, que inocentou André de Camargo Aranha, acusado de abusar sexualmente da vítima em 2018. O empresário foi absolvido após o promotor responsável pelo caso alegar que o crime teria sido cometido sem intenção. A decisão judicial em desfavor da influencer causou revolta na internet e levantou muitas discussões e protestos por todo o Brasil.

Segundo o psicólogo e escritor Alexander Bez, especialista em relacionamentos pela Universidade de Miami (UM), o fato de o agressor ter saído impune nesta situação pode alavancar o número de casos de estupro no país, que registrou um estupro a cada oito minutos em 2019. Ao todo, foram 66.123 vítimas, a maioria mulheres, segundo dados do Fórum Nacional de Segurança Pública.

"Além de toda situação vivida por Mariana, essa é uma derrota muito grande para todos nós brasileiros, principalmente para as mulheres. O recorde de estupros no Brasil escancara a negligência com crimes de violência sexual e, com essa impunidade, irá se destacar o medo de retaliação por parte do agressor e o descrédito nas instituições policiais e de Justiça", explica o especialista, que completa: “Infelizmente, esse caso abre precedentes até mesmo para outros homens se sentirem impulsionados para o crime".

Ainda de acordo com o profissional, do ponto de vista psicológico, o perfil de um estuprador é caracterizado por impotência, machismo, controle e abuso. "Estupradores se excitam com a violência contra a vítima, independentemente das consequências", descreve, "(...) estupro sem intenção não existe, nem à luz do direto, e muito menos sob as constituições psicológicas e psiquiátricas. No caso, foi usado um mecanismo de defesa do ego, chamado de projeção, onde ele (o agressor sexual), retira dele mesmo a culpa, projetando-a na vítima”, conta o psicólogo.

O caso Mari Ferrer ganhou ainda mais força após a divulgação de um vídeo onde a defesa do agressor aparece humilhando a influencer de forma explícita. O advogado Cláudio Gastão da Rosa Filho, ao usar fotos da jovem como modelo profissional para atacá-la, as caracterizou como “ginecológicas” e, durante a sessão, afirmou ainda que “jamais teria uma filha” do “nível” de Mari Ferrer.

Os internautas, incluindo muitas celebridades e políticos, usaram os perfis nas redes sociais para manifestar indignação em relação ao caso. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, se pronunciou no Twitter:


O especialista Alexander Bez alerta para a importância da mobilização social, que traz as pessoas para o centro de discussões que não podem ser ignoradas: “O apoio da população é extremamente positivo e angaria forças. A partir do momento que o tema da violência de gênero entra na agenda da imprensa e do judiciário, iniciam-se debates, correntes e comoção da população. Hoje, as mulheres estão mais seguras para falar, o que estimula a denúncia”.


“O combate a esse tipo de crime vai muito além da criação de leis, deve passar pela educação e, principalmente, pelo interesse público. Essas manifestações nas redes sociais escancaram que devemos falar sobre o tema, lutar e, em especial, mostrar que a vítima nunca será a culpada”, completa o profissional.

* Estagiária sob a supervisão de Vinicius Nader

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