Covid-19

"Decisão é técnica", diz Anvisa sobre suspensão de teste da CoronaVac

Segundo Antonio Barra Torres, as informações recebidas pela agência foram consideradas incompletas. E, por respeito ao protocolo de segurança, os testes foram paralisados

Bruna Lima
Maria Eduarda Cardim
postado em 10/11/2020 15:03 / atualizado em 10/11/2020 16:06
Barra Torres:
Barra Torres: "As informações levaram a área técnica a tomar a decisão da interrupção temporária. Digo isso para pontuar que a decisão é técnica" - (crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) justificou, em coletiva de imprensa nesta terça-feira (10/11), que os estudos da CoronaVac, vacina produzida pelo Instituto Butantan em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac, foram interrompidos por falta de informações claras e precisas.

“As informações levaram a área técnica a tomar a decisão da interrupção temporária. Digo isso para pontuar que a decisão é técnica”, afirmou o diretor-presidente da Anvisa, Antônio Barra Torres. “As informações veiculadas ontem foram consideradas insuficientes, incompletas, para dar continuidade aos estudos”, completou.

Pela cronologia divulgada pela própria agência (veja abaixo), o "evento adverso grave" (como foi classificado pelos técnicos que participaram da coletiva, horas antes, quye reuniu integrantes do governo de São Paulo e do Butantan) ocorreu em 29 de outubro. O instituto enviou as primeiras informações em 6 de novembro, respeitando as normas sanitárias exigidas no processo.

No entanto, devido a um vírus identificado em uma tentativa de invasão aos sistemas dos órgãos de saúde brasileiros, o documento só foi protocolado oficialmente nesta segunda-feira (9/11), mesmo dia em que a Anvisa decidiu pela interrupção da pesquisa.

Segundo a diretora da agência Alessandra Bastos, em um primeiro momento a única informação oferecida foi a de que se tratava de um "evento adverso grave" não esperado. “Diante disso, interrompe-se o estudo. Esse é o protocolo”, explicou.

Mesmo com a reunião que ocorreu entre a Anvisa e o Butantan, a agência mantém a suspensão. Isso porque as informações, apesar de terem sido completadas, não foram suficientes para permitir o prosseguimento da pesquisa. “A posição só será alterada quando tivermos os dados brutos, dados da fonte e que comprovem a alegação. Ainda é necessário um olhar do comitê internacional independente”, afirmou Gustavo Mendes, gerente geral de Medicamentos e Produtos Biológicos da Anvisa. 

Comunicação

Ainda na coletiva, Barra Torres afirmou que notificou o Butantan antes de divulgar a notícia da suspensão do estudo no site da Anvisa. “Depois que notificamos o desenvolvedor, pelo princípio de transparência uma nota foi colocada em nosso portal. Não é razoável dizer que se tomou conhecimento pela imprensa. Se assim o foi deixou-se de verificar uma documentação oficial enviada”, observou.

Ontem, o Butantan, por meio de nota, lamentou ter sido surpreendido e “informado pela imprensa, e não diretamente pela Anvisa, como normalmente ocorre em procedimentos clínicos desta natureza, sobre a interrupção dos testes da vacina CoronaVac”.

Guerra política

O presidente da Anvisa ressaltou a necessidade da avaliação técnica do comitê, como um mecanismo sem interesses diretos por trás do andamento dos testes. Barra ainda rebateu interferências ideológicas dentro da agência. “O que o cidadão não precisa hoje é de uma Anvisa contaminada por uma guerra política. Ela existe, mas ficaremos de fora de tecer qualquer análise desse cunho”.

Barra afirmou que não teve nenhuma conversa com o presidente Bolsonaro sobre o assunto e que uma correção quanto a qualquer tipo de pronunciamento errôneo por parte do presidente é papel da assessoria. “Costumo me ater bastante ao meu quadrado. Como o desenho do VAR que exemplifiquei na minha fala”, disse.

Nesta manhã, ao comentar a suspensão, Bolsonaro disse que a vacina chinesa CoronaVac causa "morte, invalidez e anomalia" e que "ganhou" mais uma disputa contra o governador do estado de São Paulo, João Doria (PSDB).

Passo a passo da decisão, segundo a Anvisa:

29/10 - Evento adverso com voluntário da vacina CoronaVac teria ocorrido; 

06/11 - Instituto Butantan enviou informações sobre o evento adverso, que não chegaram à Anvisa por conta de problemas técnicos; 

09/11 - Comitê da Anvisa recebe, às 18h, comunicação oficial do Butantan, informando a ocorrência do evento adverso, mas sem nenhum detalhamento; 

09/11 - Anvisa envia e-mail e ofício para o Butantan, às 20h47, e marca reunião para ter melhor detalhamento do evento adverso ocorrido;

09/11 - Anvisa publica no seu próprio portal a notícia da suspensão dos estudos da vacina CoronaVac, às 21h25.

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