NO ESCURO

Apagão no Amapá: crise no estado chega ao nono dia, ainda sem definição

Há nove dias sem energia elétrica regular, estado contará com recursos federais para a locação de geradores e aquisição de combustível. Prazo definido pela Justiça para a situação voltar à normalidade acabou ontem, mas problema continua

Bruna Pauxis*
postado em 11/11/2020 06:00 / atualizado em 11/11/2020 07:23
 (crédito: Divulgação/Ministério de Minas e energia)
(crédito: Divulgação/Ministério de Minas e energia)

O Ministério do Desenvolvimento Regional anunciou, ontem, por meio de duas portarias publicadas no Diário Oficial da União, a liberação de R$ 21,6 milhões para o Amapá. O dinheiro é destinado ao aluguel de geradores e compra de combustível para operação dos equipamentos, utilizados nos rodízios de energia que acontecem no estado desde o último domingo, após o apagão que já dura nove dias. As expectativas são de que os aparelhos aumentem a quantidade de energia distribuída à população, visto que 89% dos amapaenses contam com esse sistema. O estado segue sem energia restabelecida há nove dias.

O primeiro ato autoriza o empenho e o repasse de R$ 668,399 mil ao estado e o segundo, R$ 20,950 milhões. As portarias são assinadas pela Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil do Ministério do Desenvolvimento Regional, que reconheceu, na sexta-feira, a situação de emergência decretada pelo governo local nos municípios amapaenses afetados pelo desastre.

A população do Amapá tem vivido, desde a terça-feira da semana passada, um drama pela falta de energia. O serviço sendo retomado gradualmente desde sábado, mas em sistema de rodízio. Na segunda-feira, o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, afirmou que não havia possibilidade técnica de restabelecer 100% da energia elétrica do estado até ontem.

No sábado, a Justiça havia determinado prazo de três dias para que a empresa privada espanhola Isolux, responsável pela energia elétrica do Amapá, resolvesse a situação. A população do estado conta, então, com um sistema de rodízio de energia dividido em dois turnos: de 0h às 6h e 12h às 18h ou das 6h às 12h e 18h à 0h.

Como medida paliativa, o governo federal tem enviado geradores termoelétricos ao estado por aviões da Força Aérea Brasileira e por barcaças. Na segunda-feira à noite, por meio de nota, o MME mencionou esforços para retomar a operação da unidade geradora da Usina Hidrelétrica Coaracy Nunes, estimado para hoje. O trabalho deverá agregar 25 MW ao fornecimento de energia ao Amapá.

Aneel

Ontem, o diretor-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), André Pepitone, afirmou que o órgão vai apurar com “todo o rigor” a responsabilidade dos atores envolvidos no episódio que resultou no apagão de praticamente todo o estado do Amapá. “Não descansaremos até que o povo amapaense tenha restabelecida a totalidade dos suprimento, e que todas as providências para apurar as responsabilidades dos atores envolvidos sejam tomadas e tomadas de maneira célere”, disse Pepitone no início da sessão ordinária da Aneel de ontem.

Longe de Brasília, a expectativa é diferente. “A energia nunca volta no horário previsto. Aqui no residencial onde moro, o rodízio funcionou corretamente no primeiro dia. A partir do segundo, a energia não voltou no horário previsto, à 0h, mas só por volta da 1h30”, conta o estudante José Vitor Carneiro, 22 anos, morador da capital, Macapá.

Ele não acredita que o problema possa ser resolvido hoje. “Não tem como resolver uma situação como essa em um curto prazo. Acho que eles estão querendo tapar o sol com peneira e resolver a situação da forma mais rápida o possível. Com esse reparo rápido, o problema pode vir a ocorrer novamente”, conta José.

*Estagiária sob a supervisão de Andreia Castro

 

Estado deixa de contar infectados

A falta de energia no Amapá colocou o sistema estadual de saúde pública, já precário, sob mais pressão. Com a queda no sistema elétrico, há mais de uma semana, em 13 dos 16 municípios do estado, a comunicação da rede do setor foi cortada e prejudicou o controle de registro de novos pacientes com suspeitas da covid-19 que procuram o primeiro atendimento nas unidades regionais. O governo estadual informou que há seis dias não envia boletins de casos da doença ao Ministério da Saúde. Outros estados também vêm apresentando problemas na atualização dos boletins (leia mais abaixo).

Sem os dados em tempo real, as autoridades sanitárias locais não sabem como a pandemia se comporta. A falta de informação prejudica a gestão do sistema e dificulta, por exemplo, planejar a necessidade de mais ou menos leitos. “Por causa do apagão, temos um limbo de informação que ainda não conseguimos acessar, sobre casos que, por exemplo, procuraram unidades básicas de saúde”, disse o secretário estadual de Saúde, Juan Mendes Silva. “A comunicação ainda está fragilizada. Hoje estamos começando a retomar a questão do boletim”.

O abastecimento de energia tem sido restabelecido de forma permanente nas áreas dos hospitais, sem os rodízios de seis horas que foram estabelecidos para outras áreas. Apesar disso, ainda há oscilação em unidades básicas de referência para o combate à covid-19. São esses os locais que, no Amapá, recebem pacientes com os primeiros sintomas, para testagem. A UTI do Hospital Universitário está sobrecarregada.

Previsão de surtos
Outro foco de pressão sobre o sistema de saúde do Amapá está nos improvisos da população para ter o que beber e comer nos últimos dias. Sem água para lavar a louça ou consumir, quem não pode pagar por galões inflacionados recorre a doações, poços artesianos ou até mesmo ao Rio Amazonas. O governo estadual prevê surto de casos de doenças diarreicas agudas por causa da qualidade da água que está sendo consumida e das condições dos alimentos.

A queda de energia, provocada por incêndio em uma subestação, interrompeu o funcionamento das bombas da companhia de distribuição de água e o governo chegou a usar geradores para retomar esse serviço. Na pandemia da covid-19, as autoridades mundiais ressaltam que a higiene é um importante fator para conter o avanço da doença. “Moramos na beira do maior rio do mundo e não temos água para beber”, afirma o caminhoneiro Danielso de Araújo Borges, de 37 anos.

No vizinho estado do Pará, a Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros montaram um esquema de parceria público-privada e organizaram a coleta de donativos, enviando à capital amapaense itens básicos, entre os quais cerca de 3,5 mil cestas básicas e 13 mil litros de água.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação