Abstenção recorde do Enem chega a 51,5%

Mais da metade dos inscritos não compareceu para fazer a prova, a maior índice da história do Exame Nacional do Ensino Médio. Ministro da Educação, Milton Ribeiro, minimizou a ausência elevada e culpou o medo da pandemia e a imprensa

Correio Braziliense
postado em 17/01/2021 23:47
 (crédito: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
(crédito: Carlos Vieira/CB/D.A Press)

O primeiro dia de provas da versão impressa do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2020 ocorreu cheio de tumultos, superlotações nas salas espalhadas pelo Brasil e um elevado grau de abstenção, de 51,5%, o maior da história do certame, que adquiriu caráter nacional em 2009.


Os transtornos enfrentados pelos candidatos foram muitos. Além de salas lotadas, os estudantes enfrentaram filas para entrar nos locais das provas, sem respeito ao distanciamento social, e, alguns perderam a prova no Distrito Federal por erro de informação dos locais. Houve até casos de pessoas barradas, mesmo chegando antes do prazo limite para o fechamento dos portões, às 13h, nos locais dos exames em que a lotação ficou acima de 50%. O limite máximo era de 40%.


O ministro da Educação, Milton Ribeiro, entretanto, minimizou a taxa de abstenção recorde, e a classificou como “um pouco acima de 50%”. Ele ainda disse que o Enem foi “algo vitorioso”. “Eu quero registrar minha gratidão e qualificar o Enem no meio da pandemia como algo vitorioso, para não atrasar ainda mais a vida de milhões de estudantes e é isso que nós procuramos”, afirmou, ontem, a jornalistas, durante o balanço do primeiro dia do certame. No próximo domingo, haverá segunda etapa.


Ribeiro ainda culpou o “medo da contaminação” e o trabalho da mídia, “contrário ao Enem”, para justificar abstenção elevada. O total de inscritos foi de 5,6 milhões e mais da metade não compareceu ao local das provas. Sobre alunos barrados, ele disse que os casos serão verificados e a reaplicação, garantida. Ele classificou o exame no meio da pandemia “um sucesso”, apesar de mais da metade de ausentes. “Para aqueles alunos que puderam fazer a prova, foi um sucesso”, declarou.


De acordo com o presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), Alexandre Lopes, a aplicação do Enem foi “tranquila do ponto de vista da saúde sanitária”’ e não houve problemas em nenhum local de aplicação. Ele ainda minimizou os casos de pessoas barradas em locais com capacidade acima de 50%, principal motivo dos recursos da Defensoria Pública da União (DPU), que foram negados pela Justiça. Segundo Lopes, “os casos ocorreram em 11 dos mais de 14,4 mil locais de prova”.


Candidatos do Enem, em pelo menos três estados, foram barrados na entrada das salas de aula ontem. Conforme dados da Agência Estado, o Inep alocou nas classes um número superior à capacidade de 50%, que o próprio órgão havia prometido, contando que haveria alta abstenção. Apesar disso, houve classes cheias, segundo estudantes.


Dezenas de estudantes que fariam o Enem na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) foram orientados a voltar para casa. Houve formação de filas, e funcionários da Cesgranrio — fundação que organiza a aplicação — fizeram uma lista com os nomes de quem não pôde entrar com a promessa de que poderiam realizar o teste em fevereiro. Na terça-feira (12), a UFSC havia comunicado o Inep e a Cesgranrio sobre o risco de lotação das salas e questionado o plano de aplicação das provas, com 80% de ocupação.
A superlotação das salas virou até caso de polícia em Santa Cruz do Sul, no interior do Rio Grande do Sul, onde cerca de 30 estudantes barrados registraram boletim de ocorrência sobre o problema.

Reaplicação da prova

Os candidatos do Enem que tiveram sintomas ou diagnóstico de covid-19 na véspera ou no primeiro dia de prova poderão solicitar a reaplicação da prova. Para isso, o candidato precisa acessar a página do participante e apresentar exames e laudos médicos que comprovem a doença.


O MEC informou que vai garantir a reaplicação para alunos barrados em locais de prova por causa do excesso de candidatos por sala. Alunos que pediram reaplicação por causa de diagnóstico de covid devem fazer a prova nos dias 23 e 24 de fevereiro. Até sábado, haviam sido deferidas 8.180 reaplicações por esse motivo.


Pelo segundo ano consecutivo, a prova do Enem não teve questões sobre regimes militares, totalitários ou conflitos contemporâneos, como a Guerra Fria. Esses conteúdos só deixaram de ser cobrados durante o governo Jair Bolsonaro (sem partido), de acordo com professores de cursinhos, que veem com preocupação a ausência desses assuntos, já que são conteúdos obrigatórios de História no Ensino Médio.

Manifestações contra Bolsonaro em Brasília

 (crédito: Sergio Lima/AFP )
crédito: Sergio Lima/AFP

Um grupo de 15 pessoas liderado pelo movimento Povo Sem Medo, do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), se reuniu na manhã de ontem, em frente à sede da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em um protesto pró-vacina contra a covid-19 e o presidente Jair Bolsonaro. Um boneco gigante inflável com a imagem de Bolsonaro, com as mãos sangrando, foi colocado em frente à sede da agência. À tarde, cerca de 100 pessoas participaram de um ato pró-impeachment do presidente e pela vacinação, na Praça dos Três Poderes, bem em frente ao Palácio do Planalto.

FPME exige transparência

A Frente Parlamentar Mista da Educação (FPME) demonstrou preocupação com os tumultos no primeiro dia de provas do Enem, em meio à pandemia, e emitiu uma nota, na noite de ontem, exigindo transparência sobre o prejuízo aos estudantes que não puderam fazer a prova diante do “o triste (e previsível) cenário”. “Estamos acompanhando notícias de candidatos sendo barrados momentos antes do início das provas, filas enormes, falta de logística, além do não cumprimento dos protocolos de segurança que deveriam ter sido tomados diante da pandemia do coronavírus”, destacou o documento.

De acordo com a nota, o bloco vai acompanhar e mapear os alunos que não conseguiram fazer as provas ontem e exigiu uma “resposta rápida quanto à reaplicação da prova dos alunos que foram impedidos, explicando detalhadamente os critérios para reaplicação”. A Frente ainda exigiu uma análise mais detalhada dos dados de abstenção deste ano, “comparando-o com os das edições anteriores para se entender o real impacto da manutenção do calendário da prova em um momento tão delicado do ponto de vista da saúde pública”.

“O Enem é uma ferramenta séria e a mais importante para o acesso ao Ensino Superior no Brasil, mobilizando pessoas de todo o país, com muitas delas tendo a prova como sua única forma de ingressar em uma faculdade. Precisamos tratar o exame com respeito, seriedade e, principalmente, cuidado com todas as vidas que estão envolvidas em sua realização”, acrescentou o comunicado.

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