Sociedade

Rebelião transmitida pelas redes sociais

Revolta de presos em Goiás deixa apenas feridos leves, mas vídeos feitos por celulares são distribuídos e acessados fora da cadeia. Somente a difusão de um deles estava sendo acompanhada por aproximadamente 10 mil pessoas antes de ser retirado do ar

Sarah Teófilo
postado em 20/02/2021 00:11

O Complexo Prisional de Aparecida de Goiânia, na região metropolitana da capital, foi palco de uma rebelião, ontem, que terminou com três feridos que, segundo o governo estadual, não passaram de machucados leves. Mas talvez a revolta fosse somente mais uma, não houvesse um fato inusitado: foi transmitida, ao vivo, pelas redes sociais. Somente uma delas, a qual o Correio teve acesso, estava sendo acompanhada por aproximadamente 10 mil pessoas, antes de sair do ar. Além disso, os vídeos com cenas de violência e agressões foram compartilhados, ao longo do dia, por grupos de WhatsApp.

A rebelião aconteceu em uma ala da Penitenciária Odenir Guimarães (POG) por causa das más condições relatadas pelos detentos. A unidade prisional, que faz parte do maior complexo de Goiás, já foi palco de rebeliões mais graves –– tal como a de 2018, quando houve um confronto entre alas dominadas por facções criminosas rivais na qual presos foram decapitados e corpos foram carbonizados.

Diversos vídeos da rebelião, classificada pela administração penitenciária como “motim”, mostraram presos machucados, enquanto outros relatavam receio de serem mortos. Em um vídeo obtido pelo Correio, um preso relatou: “Tá dando tiro de verdade, doutor. Olha aí. O ‘bagulho’ tá doido”. Em outras imagens, outro detento também diz que um preso foi atingido por “tiro de verdade’. “Tá atirando em todo mundo aqui. Vai ser um massacre geral”, disse, em pânico.

Balas letais
O superintendente de Segurança Penitenciária da Polícia Penal do estado, Jonathan Marques, entretanto, negou que os internos estivessem sendo atingidos com balas letais, e não de borracha –– utilizadas comumente para conter e dispersar revoltas. Ele afirmou, ainda, que, durante a negociação que conduziu em conjunto com um negociador da Polícia Militar, os presos se renderam pacificamente. “Não foi necessário o uso de força bruta no momento final”, explicou.

Na ala onde eclodiu a revolta há 546 presos. Marques afirmou que os detentos estavam em banho de sol, quebraram partes da estrutura da unidade, arremessaram nos servidores e, depois, amotinaram-se no interior das celas. De acordo com o secretário, os presos não expuseram um motivo para a rebelião, mas uma das transmissões mostrou internos queixando-se das más condições do local, da falta de banho de sol e pela demora dos itens enviados por parentes.

Os problemas são confirmados pelas famílias dos presos. Segundo a presidente da Associação dos Familiares e Amigos de pessoas privadas de liberdade no Estado de Goiás (AFPL-GO), Patrícia Benchimol, a principal razão da revolta é justamente o fato de os presos não estarem recebendo alimentos deixados pelos parentes. “Só entregam água e roupa, não entregam comida”, denunciou.

Patrícia, cujo marido está detido no complexo, afirmou que a retenção de itens alimentícios como pães, biscoitos e chocolates seriam em “represália” ao duplo homicídio na porta do complexo, na última quarta-feira, quando um vigilante penitenciário e a mulher foram mortos. “Estão descontando algo que aconteceu aqui fora”, disse.

O superintendente de Segurança Penitenciária negou que haja relação entre o assassinato e a revolta de ontem. Conforme disse, as visitas estão restritas devido à pandemia do coronavírus e, com isso, o que causa a demora na entrega da cesta deixada pelas famílias aos presos. Mas garantiu que tudo continua funcionando.

Segundo Jonathan Marques, em 2020, foram feitas mais de 800 interceptações de entrada de produtos ilícitos dentro das unidades prisionais por meio de drones, arremessos com estilingue e até por meio de pipas.


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