Imunização

Falta de vacinas trava aplicação da segunda dose pelo país

Instituto Butantan suspende a produção da CoronaVac por falta de insumos, e cidades têm de interromper a imunização. Mudança de orientação, ainda na gestão do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, agravou o problema. País recebe 3,8 milhões do fármaco da AstraZeneca/Oxford

Renato Souza
postado em 03/05/2021 06:00
 (crédito: MIGUEL SCHINCARIOL/ AFP )
(crédito: MIGUEL SCHINCARIOL/ AFP )

A falta de doses da CoronaVac interrompe a aplicação do reforço da vacina contra a covid-19 em algumas capitais. Com o atraso na chegada de insumos vindos da China, o Instituto Butantan teve de paralisar a fabricação do imunizante. Com isso, pelo menos nove cidades já suspenderam a administração da segunda dose em idosos e integrantes de grupos de risco. Outras regiões estão na iminência de ficar sem o fármaco para manter a campanha em andamento. A situação causará o descumprimento do prazo estimado nas pesquisas científicas para imunização completa da população.

Aracaju, Campo Grande, Belo Horizonte, Goiânia, Porto Velho, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro e Fortaleza aguardam novas remessas para retomar a campanha. No Rio de Janeiro, a prefeitura afirmou que manteve a imunização com uma “reserva técnica”, mas que já não existe mais estoque para continuar o procedimento. “A cidade do Rio manteve a vacinação com a reserva técnica até o momento, porém o estoque se esgotou, como já havia acontecido em outros municípios e estados do Brasil”, informou a prefeitura, em nota.

Cientistas recomendam que quem tomou a primeira dose receba o reforço da mesma fabricante. Por conta disso, a aplicação nas capitais que suspenderam a vacinação só deve ser retomada após a normalização do fornecimento pelo instituto paulista.

Neste momento, a diplomacia brasileira é fundamental para garantir as negociações com a China e o repasse dos novos lotes de material para fabricar as doses. No entanto, na semana passada, o ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que “os chineses criaram o vírus, e a vacina deles tem menos eficácia do que a dos americanos”. Horas depois, ele se desculpou, mas a informação foi repassada pela Embaixada da China no Brasil ao governo chinês e provocou desconforto.

Três dias antes de deixar o cargo, o então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, recomendou que estados e municípios aplicassem todas as doses disponíveis para acelerar a vacinação. No entanto, para uma imunização completa é necessária a administração de duas doses, que, no caso da CoronaVac, deve ser entre 14 e 28 dias após a primeira. Depois desse prazo, não está claro qual é a eficácia da vacina, pois não ocorreram estudos nesse sentido, com intervalo tão longo entre as doses. Ainda em sua gestão, Pazuello orientou o uso total dos estoques. “Com a liberação para aplicação de imediato de todo o estoque de vacinas guardadas nas secretarias municipais, vamos conseguir dobrar a aplicação nesta semana, imunizando uma grande quantidade da população brasileira, salvando e protegendo mais vidas”, disse o general, em março.

Vacina de Oxford
O Ministério da Saúde recebeu, ontem, o maior lote de doses de vacinas contra a covid-19 já enviado ao país pelo Covax Facility, consórcio que conta com governos e fabricantes e é coordenado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Chegaram 3,8 milhões de imunizantes produzidos pela parceria entre a AstraZeneca e a Universidade de Oxford. O voo foi recebido pelo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo. No sábado, foram desembarcadas, também, 220 mil doses.

O Brasil também recebeu 1 milhão de doses da vacina da Pfizer no dia 29, em uma ação realizada pelo governo federal. Esse foi o primeiro lote de um total de 100 milhões de imunizantes, de acordo com o contrato realizado com o Ministério da Saúde. Queiroga afirmou que todas as doses devem chegar até o fim do ano. No entanto, a empresa responde a processos na Europa por atrasar a entrega dos insumos.
Ao receber as doses, o ministro não detalhou como será feita a distribuição aos estados nem a quantidade a que cada unidade da Federação terá direito. Tradicionalmente, a pasta tem feito a entrega com base na parcela populacional.

Queiroga também não respondeu aos questionamentos de jornalistas sobre a falta de doses para aplicar a segunda dose da CoronaVac em capitais nem a respeito do risco de desabastecimento dos imunizantes em outras regiões do país.

Dados do Ministério da Saúde, divulgados na noite de ontem, apontam que o Brasil registrou 1.202 mortes por covid-19 e 28 mil novos casos nas últimas 24 horas. Ao todo, o país tem 14,7 milhões de infectados, desde o começo da pandemia, e 407.639 óbitos. São Paulo registra a maior quantidade absoluta de mortes, com 97.058 vidas perdidas para o novo coronavírus. Em segundo lugar aparece o Rio de Janeiro, com 44.835 óbitos.

A semana fechou com um total de 16.945 mortes, frente às 17.814 da semana anterior. No entanto, de acordo com informações divulgadas pelo Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), a taxa de mortalidade subiu, ante o número de pessoas infectadas. O índice, que durante todo o ano de 2020 se manteve em 2,5%, agora está em 2,8%.

”Essas vacinas representam um esforço global. Já devíamos ter recebido as doses em janeiro, mas estamos recebendo agora. São 4 milhões de doses de esperança”

Marcelo Queiroga, ministro da Saúde

 

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