Amazônia

Índios yanomamis pedem ajuda após ataques constantes de garimpeiros

Exploradores ilegais vêm usando armamento pesado para intimidar comunidade e instalar lavras irregulares. Líder da etnia alerta que, ao resistirem, indígenas podem ser massacrados num conflito de grandes proporções. Autoridades foram avisadas

Pedro Ícaro*
postado em 20/05/2021 06:00
 (crédito: Nelson Almeida/AFP - 1/7/20)
(crédito: Nelson Almeida/AFP - 1/7/20)

A comunidade Palimiú, às margens do rio Uraricoera, território Yanomami localizado no município de Alto Alegre (RR), tem passado por momentos sombrios. Desde o dia 10 de maio, seus habitantes vêm sofrendo frequentes ataques de garimpeiros ilegais da região. Conforme dizem os indígenas, os invasores utilizaram armamento pesado, como metralhadoras, para efetuar os disparos contra a comunidade no último dia 10.

Segundo o líder Davi Kopenawa Yanomami, uma das mais respeitadas lideranças indígenas do país e reconhecido na comunidade internacional, a situação chegou a esse ponto por omissão das audoridades federais. “Os garimpeiros nunca saíram e as autoridades não estão preocupadas em retirá-los. O que pode acontecer é eles matarem muitas pessoas em Palimiú”, alerta.

Após o primeiro ataque, a Polícia Federal foi ao local, em 11 de maio, e trocou tiros com os garimpeiros, cujo resultado foi a morte de duas crianças indígenas, que se perderam enquanto fugiam dos disparos. No dia seguinte, os corpos foram encontrados no rio.

No último domingo, segundo informações da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), cerca de 15 barcos de garimpeiros abriram fogo em direção à comunidade, lançando até mesmo bombas de gás lacrimogêneo. Segundo relatos de indígenas, os ataques são uma resposta à barreira sanitária instalada, há cerca de seis meses, para impedir o avanço da covid-19 na região — o que impediu a entrada de mais garimpeiros, o que pode ter motivado os ataques. Durante todos as investidas, os indígenas apreenderam materiais de garimpeiros ilegais e expulsaram aqueles que tentavam invadir as terras.

“A situação é grave, garimpeiros querem nos matar. Quero que as autoridades façam a retirada dos garimpeiros, que tomem as providências para a retirada deles da Terra Yanomami”, cobrou Davi Kopenawa Yanomami.

Pedido de ajuda

Os Yanomamis há dias pedem apoio às autoridades para auxiliar na proteção do território da etnia. A comunidade solicita ajuda, como mostra o ofício enviado à Polícia Federal de Roraima, à Fundação Nacional do Índio (Funai) e ao Ministério Público Federal em Roraima. “Em virtude da alta tensão na comunidade, bem como da recorrência de conflitos violentos entre indígenas e garimpeiros em toda a TIY neste ano, solicitamos que medidas urgentes dos órgãos aqui endereçados sejam adotadas no sentido de garantir a segurança da comunidade do Palimiú e reforçamos a necessidade da implementação de medidas contundentes para impedir a consolidação da presença garimpeira ilegal no interior da Terra Indígena”, diz trecho do ofício remetido pela Associação Yanomami Hutukara, em 30 de abril.

O documento ainda acrescenta que “um grupo Yanomami interceptou cinco garimpeiros que subiam em direção ao Korekorema, no rio Uraricoera, em uma voadeira carregada de combustível para avião e helicóptero, apreendendo a carga de 990 litros de combustível. Assistindo ao ocorrido, outros sete garimpeiros, que desciam o rio em direção a Boa Vista, reagiram disparando três tiros contra os indígenas, acima do posto de saúde local, a que os Yanomami responderam com mais tiros. Felizmente, não houve feridos”.

De acordo com a Funai relatou ao Correio, depois dos novos confrontos vem fazendo acompanhamento dos “fatos ocorridos e que não compactua com nenhum tipo de conduta ilícita, assim como, julgamentos sem a devida conclusão das apurações. A fundação também presta apoio às forças de segurança no local e mantém diálogo permanente com a comunidade. Cumpre ressaltar que o órgão vem mantendo equipes de forma ininterrupta dentro da Terra Indígena, por meio de suas Bases de Proteção Etnoambiental (BAPEs)”. (Colaborou Fabio Grecchi)


* Estagiário sob a supervisão de Andreia Castro

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