Pandemia

Covid-19: Fiocruz analisa mortalidade precoce em UTIs do país

Pesquisa está ajudando a compreender a razão de alguns pacientes graves submetidos à ventilação mecânica conseguirem deixar a UTI, enquanto outros não sobrevivem

Gabriela Bernardes*
postado em 21/05/2021 18:03
 (crédito: Andre Coelho/AFP - 5/3/21)
(crédito: Andre Coelho/AFP - 5/3/21)

Estudo coordenado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) está ajudando a compreender o motivo de alguns pacientes graves submetidos à ventilação mecânica conseguirem deixar a unidade de terapia intensiva (UTI), enquanto outros não sobrevivem à covid-19. A pesquisa acompanhou 25 pessoas em estado crítico que necessitaram de ventilação mecânica, de março a dezembro de 2020. Com idade média de 57 anos, os pacientes estavam internados no Instituto D’Or (ID’Or) e no Instituto Estadual do Cérebro Paulo Niemayer (IECPN).

O relatório indica que a presença do retrovírus endógeno humano da família K (HERV-K) está associada não só ao agravamento da doença como também à mortalidade precoce. A progressão de casos brandos para graves vinha sendo associada à hipoxia, inflamação descontrolada e coagulopatia. No entanto, os mecanismos envolvidos com a mortalidade em casos muito graves ainda não são bem conhecidos.

Para isso, o estudo buscou compreender os vírus presentes nas amostras do pacientes. Os testes mostraram níveis altos de HERV-K, em comparação com exames de pacientes com casos brandos e de não infectados.

“Verificamos o viroma de uma população com uma altíssima gravidade, em que a taxa de mortalidade chega a 80%, para ver se algum outro vírus estava coinfectando esse paciente que está debilitado, imunossuprimido", conta o coordenador do estudo Thiago Moreno, do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde (CDTS/Fiocruz). “A nossa surpresa foi encontrar esses altos níveis de retrovírus endógeno K. É o tipo de pesquisa que parte de uma abordagem completa não enviesada. Isso dá muita força, muita credibilidade ao achado”.

O estudo estabeleceu ainda uma ligação direta: ao infectar em laboratório uma célula de uma pessoa saudável com o Sars-CoV-2, houve um aumento nos níveis do HERV-K. “A gente estabeleceu, de fato, que o Sars-CoV-2 é o gatilho para o aumento desses retrovírus endógenos, para despertar os genes silenciosos”, diz Thiago Moreno.

Mortalidade precoce

Junto com o aumento dos níveis do HERV-K nos pacientes, os pesquisadores perceberam que fatores de coagulação foram mais consumidos, que ocorreram mais processos inflamatórios e que diminuíram os números de fatores necessários para a sobrevivência de células do sistema imune. Conforme os níveis de HERV-K aumentaram, os números de monócitos inflamados ativados também cresceram. “Esses níveis de HERV-K se correlacionaram com o que se chamou de mortalidade precoce, como menos de 28 dias de internação”, conta.

A pesquisa é ainda a primeira evidência da presença desse retrovírus no trato respiratório e no plasma de pacientes graves da covid-19. A presença do HERV-K — que ocorre também em outras doenças, como câncer e esclerose múltipla — pode ser usada como um biomarcador associado à gravidade em casos de covid-19. Sua detecção precoce poderia reforçar o uso de determinadas estratégias, como o uso de anticoagulantes e anti-inflamatórios, finaliza Moreno.

*Estagiária sob a supervisão de Andreia Castro

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