SAÚDE

Como a ciência é usada nas medidas para conter o avanço da COVID-19

Em sua própria trincheira, infectologistas e epidemiologistas se valeram do método científico para tentar bloquear o vírus

Déborah Lima e Natasha Werneck - Estado de Minas
postado em 04/07/2021 15:24
 (crédito: (foto: Bruno Haddad/Divulgação))
(crédito: (foto: Bruno Haddad/Divulgação))

Além de médicos e enfermeiros que lutam diariamente na guerra a favor da vida nos corredores dos hospitais, em outra frente de batalha guerreiam os epidemiologistas e infectologistas. Durante a pandemia do novo coronavírus, esses profissionais aprenderam sobre contaminação, transmissão, medicamentos, eficiência de períodos de restrições mais rigorosas da mobilidade e até sobre vacinas. Hoje, celebram avanços da ciência, que foi desafiada e questionada, mas evoluiu de forma avassaladora ao longo de um ano.

(foto: RAMON LISBOA/EM/D.A. PRESS)

"A gente tem que rever protocolos, orientações continuamente. O que a ciência evoluiu nesse tempo, em relação ao entendimento de como as coisas funcionam, é uma enormidade<br>" Adelino Melo de Freire Junior, médico infectologista e diretor técnico-científico do Hospital Felício Rocho

O primeiro caso oficial de COVID-19 no mundo foi de um paciente hospitalizado em 12 de dezembro de 2019 em Wuhan, na China. Desde então, um inimigo pouco conhecido, o vírus Sars-CoV-2, mobilizou todo o mundo para buscar respostas de tratamento e soluções para barrar sua disseminação. No início, por exemplo, era recomendado que apenas pessoas com sintomas usassem máscara. Hoje, a recomendação é de que todos usem, e, se possível, pelo menos duas. É o que explica a médica Luana Araújo, infectologista e epidemiologista que deu um dos mais contundentes depoimentos em defesa da ciência e contra o uso de métodos sem comprovação na CPI da COVID, no Senado.

“É preciso olhar essa recomendação numa perspectiva de contexto da época. O que a gente sabia era que não se tinha recursos e insumos suficientes para proteger todo mundo. Então, precisava-se, à época, gerir esses recursos de forma que chegasse a quem precisava mais. E quem precisava mais naquele momento eram principalmente trabalhadores de saúde, que se expunham constantemente ao vírus, cuja patogenicidade ainda estava sendo entendida. Então todos os recursos que tínhamos na época, as máscaras de maior proteção, as N95, deveriam ser alocadas a esses profissionais”, lembra.

Aos poucos, a indústria se equipou e conseguiu produzir mais desses insumos. Paralelamente, a ciência foi compreendendo melhor o mecanismo de transmissão da doença, ao conseguir provar, por exemplo, que o assintomático também transmite o vírus e precisa usar máscara, além de outras medidas de proteção, como a correta higiene de mãos e o distanciamento. “Essa é a beleza da ciência: a gente vai entendendo e modificando essas recomendações, de acordo com aquilo que vai aprendendo. Mas existe um norte, que é o do bom senso, que deve sempre prevalecer”, ressaltou Luana.

Outro aprendizado sobre a transmissão é a evidência de que a principal forma de contaminação é a respiratória. “A via da contaminação de superfícies, embora existente, não é a mais importante. A mais importante é a respiratória”, ressalta a especialista, que lista outros aprendizados. “A gente também entendeu que existe um grau de transmissão desse vírus, que não é só por gotícula, mas também por aerossol, então a ventilação natural é uma ferramenta extremamente útil para lidar com isso, porque o ar parado é um ar que contém partículas em suspensão e elas podem conter o vírus. Aquela via de (transmissão por) superfícies – por causa da qual se lava tudo, higieniza tudo, passa desinfetante – essa não tem a importância que se acreditava no começo, e a gente agora sabe que a higiene de mãos é suficiente para compensar esse tipo de via.”

 

Do desconhecido ao mais eficaz antivírus

O médico infectologista Adelino Melo de Freire Junior, diretor-médico da Target Medicina de Precisão e diretor técnico-científico do Hospital Felício Rocho, lembra como foi ser infectologista no momento de chegada da COVID-19. “Em 23 de janeiro de 2020, eu estava chegando ao Hospital Felício Rocho e uma das enfermeiras me ligou falando que havia um jovem no pronto-socorro com quadro de febre, dor no corpo e tinha chegado recentemente de uma cidade na China, a tal cidade de Wuhan, que parecia que estava tendo algum problema. Naquele momento, fiquei superassustado. Fui me paramentar todo e conhecer o paciente”, relembra o médico.

O paciente, um jovem de Belo Horizonte que fazia estágio em Wuhan, tinha chegado havia cinco dias ao Brasil. Embora estivesse com gastroenterite e sem sintomas respiratórios, o médico fez contato com a Vigilância Epidemiológica. Mas, como não eram sintomas compatíveis com o que se sabia de COVID-19 na época, o rapaz acabou sendo liberado. “Com nenhum sintoma de gravidade, dois dias depois ele estava absolutamente curado. Mas aquilo acendeu um farol vermelho pra gente. Montamos nosso comitê de crise dias depois, tentando ali fazer algumas previsões, de compra de insumos, imaginando que aquilo poderia realmente se espalhar”, conta.

Em meados de março, quando a corrida por insumos ocorreu de verdade, o médico percebeu que, mesmo tendo feito previsão de comprar com antecedência, o hospital em que trabalha só tinha material para três dias de atenção à COVID-19. “A realidade foi muito além do que a gente havia previsto. Tem sido ainda uma experiência de muito crescimento, aprendizado, trabalho em equipe, e de certa forma de humildade. A gente tem que rever protocolos, orientações continuamente. O que a ciência evoluiu nesse tempo, em relação ao entendimento de como as coisas funcionam, é uma enormidade”, disse.

São lições, além de humanitárias, técnicas que serão levadas para o pós-pandemia. “Acho que a gente aprendeu uma série de coisas. Uma das grandes lições é o valor desse novo tipo, dessa nova plataforma de vacinas, que é a de RNA, um divisor de águas para a ciência. Pode fazer com que a gente consiga novos imunizantes e novas atualizações de vacinas”, comenta o médico, que foi vacinado exatamente um ano depois do atendimento do rapaz que chegava de Wuhan. “Minha primeira dose foi 365 dias depois. Isso foi um grande avanço. A gente imaginar que para uma doença nova se consiga uma vacina em um ano sendo aplicada no mundo inteiro, sem dúvida é um grande avanço da ciência.”

 

O que eles ainda se perguntam

Embora muito conhecimento já tenha sido adquirido, perguntas sobre a infecção pelo novo coronavírus ainda permanecem sem resposta. Confira algumas listadas por especialistas consultados pelo EM:

O mix de vacinas que a gente tem é suficiente para atender às necessidades globais?

O ritmo que a gente está fazendo vai proteger todos? Porque a gente já sabe que não é só uma questão de eficácia de vacinação, é uma questão de velocidade de ação, e que se algum lugar do mundo permanece não vacinado, esse lugar se torna um santuário para o vírus conseguir se multiplicar e produzir novas variantes que podem colocar o resto do planeta inteiro a perder do novo. Não é só o nosso mix de vacinas, estamos no ritmo adequado para isso?

 

Quais são as consequências do COVID a longo prazo?

Sabemos que são consequências individuais em vários sistemas, consequências cardiovasculares, cerebrais, temos problemas na emergência de doenças como diabetes. A gente já sabe que o vírus deflagra muita coisa no organismo das pessoas, então qual é o tamanho disso e qual impacto vai ter no sistema de saúde?

 

Qual é o impacto da pandemia no desenvolvimento do nosso país?

São muitos os impactos na saúde, mas há as outras áreas que são afetadas. Qual o impacto sobre nossa educação ou desenvolvimento socioeconômico? Pode parecer que é só um vírus, mas tudo que está ligado a ele, desde a doença até a nossa capacidade como sociedade de lidar com ele, até os efeitos na saúde individual e no reflexo coletivo e como isso vai se portar na nossa história como sociedade. Ainda há muito a descobrir.


A pergunta da vez é de fato a origem do vírus.

Se a transmissão começou de origem animal ou se houve realmente vazamento em laboratório de pesquisa. Fazendo coro com todo o mundo, até com a Organização Mundial da Saúde, neste momento, não há evidências que concluam nem para um lado nem para outro. Não acredito em teorias da conspiração, de que isso foi deli- beradamente colocado à solta, mas a possibilidade de um vazamento tem que ser investigada a fundo.

 

A gente ainda precisa de resposta em relação ao tratamento eficaz.

Temos uma série de tratamentos possíveis sendo aprovados fora do Brasil, basicamente os anticorpos monoclonais, que são muito caros, ainda são pouco acessíveis, e o resultado ainda não é o que mude a história da doença. É uma chance de ajuda, mas não é um remédio milagroso.

 

E até quando vamos precisar viver desse jeito que estamos vivendo, com uso de máscara e distanciamento?

Essa começa a ser respondida agora, de forma mais recente. A gente começou agora a ter pu- blicações mostrando a redução de transmissão relevante em comunidades com alta taxa de vacinação.

 

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