sexualidade

Meninas em perigo

Um quinto das adolescentes entre 13 e 17 anos de idade, matriculadas em escolas públicas e privadas, já sofreu algum tipo de violência sexual, aponta a pesquisa PeNSE, do IBGE, sobre a saúde dos estudantes brasileiros

MARIA EDUARDA CARDIM GABRIELA BERNARDES*
postado em 10/09/2021 23:43

Uma em cada cinco estudantes brasileiras já sofreu violência sexual. Essa é apenas uma das constatações da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) feita em 2019 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com estudantes do 7º ano do ensino fundamental ao 3º ano do ensino médio. Segundo os dados, divulgados ontem, 14,6% dos escolares de 13 a 17 anos foram tocados, manipulados, beijados ou passaram por situações de exposição de partes do corpo alguma vez na vida. Mas, na distinção de gênero, o percentual de meninas que sofreram algum tipo de abuso chega a 20,1%, mais que o dobro do observado para os meninos (9%). Além disso, 8,8% das estudantes entrevistadas declararam ter sido obrigadas a manter relação sexual contra a vontade alguma vez na vida. O número também é mais do que o dobro do percentual dos meninos que passaram pela mesma situação.

Dos adolescentes que declararam ter sofrido abuso, o(a) namorado(a) foi apontado(a) como agressor por 29,1% dos entrevistados; 24,8% foram molestados(as) por um(a) amigo(a); 20,7%, por desconhecido; 16,4%, por parentes; 14,8%, por outras pessoas; e 6,3%, por pai, mãe ou responsável. “Ou seja, muitas vezes, o agressor faz parte do ambiente doméstico ou há uma relação de afetividade, o que faz com que esses adolescentes não saibam a quem recorrer, o que gera um sentimento de desamparo”, avaliou a analista da pesquisa, Cristiane Soares.

Ela explicou que a metodologia da enquete, ao garantir o anonimato e a individualidade dos adolescentes, facilitou a abordagem de temas mais complexos. “Isso permitiu captar melhor as informações de violência sexual que, muitas das vezes, não são reportadas, principalmente, no caso de menores de idades. É importante criar mecanismos de escuta, acolhimento e proteção para esses adolescentes. Esse tipo de violência pode criar várias consequências, tanto emocionais, comportamentais, quanto no ramo escolar”, disse a analista.

Desencanto com a vida
A pesquisa já revelou algumas das consequências dessa situação na saúde mental dos adolescentes. E, mais uma vez, os indicadores são piores para as meninas. Com exceção da pergunta sobre ter amigos próximos, em que ambos os gêneros tiveram percentual de respostas negativas parecidas, todos os outros indicadores foram piores para o sexo feminino. Por exemplo: 29,6% das adolescentes sentem que a vida não vale a pena ser vivida, enquanto entre meninos esse sentimento representa 13% das respostas.

A partir da combinação das respostas a cinco perguntas, a PeNSE mostra que o percentual de autopercepção de saúde mental negativa foi bem maior entre as meninas: 27% contra 8% dos meninos.


Para a analista do tema na pesquisa, Thaís Mothé, esses números não surpreendem quem estuda o problema. “É um padrão internacional em pesquisas de saúde mental, tanto para a população em geral quanto para adolescentes, como é o caso da PeNSE. Entretanto, além da lamentável desigualdade de gênero, chama atenção a própria magnitude para o grupo das mulheres. São valores muito elevados para esses resultados de saúde mental”, disse Mothé.

Sexo e gravidez
Ainda ao avaliar a questão da sexualidade na vida dos estudantes brasileiros, a PeNSE mostrou que, em 2019, 35,4% dos estudantes de 13 a 17 anos declararam que já tiveram relação sexual. Na rede pública de ensino, o percentual (37,5%) foi bem mais alto do que na rede privada (23,1%). Além disso, os dados revelam que a idade média de iniciação sexual é 13,4 anos para meninos e 14,2 anos para meninas.

Das meninas que tiveram relação sexual, 7,9% engravidaram pelo menos uma vez. Novamente, a diferença entre a rede pública e privada é notável. Com alunas da rede particular, o percentual de incidência da gravidez na adolescência cai para 2,8%, enquanto entre estudantes da rede pública vai para 8,4%.

A pesquisa também mapeou o uso de preservativos entre os estudantes. Apesar de 63,3% dos jovens terem declarado que usaram camisinha na primeira relação sexual, 40,9% não o utilizaram na última. E, entre as meninas de 13 a 17 anos, 45,5% usaram a pílula do dia seguinte pelo menos uma vez como método contraceptivo.

Elas revelam

20,1%
foram tocadas, beijadas ou tiveram parte do corpo exposta


8,8%
foram obrigadas a manter relação sexual contra a vontade


7,9%
engravidaram ao
menos uma vez


29,6%
acham que a vida
não vale a pena

“Muitas vezes, o agressor faz parte do ambiente doméstico ou tem uma relação de afetividade, o que faz com que esses adolescentes não saibam a quem recorrer”

Cristiane Soares,
analista da pesquisa

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