Jornal Correio Braziliense

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Miguel Nicolelis: 'A variante ômicron não é leve'

Para o pesquisador, é necessário que os governos voltem a considerar a hipótese de adotar medidas restritivas. E lamenta o apagão de dados do ministério, que compromete as estimativas das infecções pela covid-19 e prejudica o combate à doença

O avanço da variante ômicron e o recrudescimento da pandemia de covid-19 com novo disparo no número de infecções é preocupante, deve ser levada a sério, mas, no governo federal, não há lideranças e gente competente para lidar com a nova ameaça. O alerta é do neurocientista Miguel Nicolelis, entrevistado de ontem do CB.Poder — parceria entre o Correio Braziliense e a TV Brasília. Para piorar a situação, segundo ele será necessário retornar com algumas medidas — como a obrigatoriedade do uso de máscaras e o afastamento social —, que o presidente Jair Bolsonaro e vários dos seus ministros contestam e tentam desqualificar. Nicolelis adverte, ainda, que a cepa ômicron não é leve, como equivocadamente se tem divulgado.

Qual o diagnóstico do senhor para o atual momento da pandemia?

Estamos entrando na terceira onda, que esperávamos desde outubro. Houve um adiamento, começamos a ver os sinais em novembro e houve a explosão em dezembro, com um número de casos enorme no Brasil e no mundo. O agravante do nosso país é o apagão de dados e a ausência de uma noção exata da magnitude da onda neste momento — só sabemos que ela é enorme. E estamos vendo a concorrência de três epidemias no Brasil: da ômicron, que é dominante, da delta e, somado a isso, da influenza.

Como esse apagão de dados atrapalha na busca do melhor enfrentamento?

Com esse apagão, não temos a menor condição de estimar a realidade e quais os municípios e estados que estão sendo afetados. Houve uma estimativa no final de semana de que o Brasil poderia ter 400 mil casos diários. É conveniente não testar e não reportar porque, aí, realmente, a pandemia some dos dados oficiais. Ela não some das ruas, dos centros de saúde, das unidades básicas de saúde, dos hospitais. Ela não some, também, dos nossos relatos pessoais, de parentes e conhecidos. Todos dizem que nunca viram tantas pessoas infectadas pelo vírus. Isso é algo que deve ser levado em conta porque, na falta de dados, demonstra a amplitude da transmissão da ômicron no Brasil.

Por que o fenômeno da gripe chegou nesse período?

A influenza está fora da estação dela, aqui no Brasil — que começa em março e entra no inverno. Outra coisa é que houve uma redução de casos tanto da influenza quanto da dengue no Brasil e, provavelmente, pelo uso de máscara, pelo isolamento social. Mas estamos estudando outras informações para tentar explicar uma explosão de casos. O problema é que, em dezembro, começou-se a culpar a influenza pelos casos gripais, mas ninguém testava para fazer o diagnóstico. Muita coisa foi catalogada como influenza, mas era covid.

Por que a infecção pela ômicron não pode ser considerada leve, como muitos dizem?

Por várias razões. Ela pode até levar a sintomas mais leves em pessoas já vacinadas ou mesmo em pessoas não vacinadas. Todavia, do ponto de vista populacional, uma variante que causa quase 3 milhões de infecções por dia no mundo e que leva, sim, a hospitalizações, não pode ser considerada leve. Se você gerar milhões de casos diários, mesmo que a fração de casos graves seja menor do que a delta, você ainda vai ter um número enorme de pessoas procurando serviços hospitalares e precisando ser internadas. As pessoas estão deixando todos se contaminarem para chegar à imunidade de rebanho, mas nós não vamos ter. Se aparecer outra variante, como apareceu a delta, não vamos ter. Precisamos quebrar a transmissão e reduzir o número de casos.

Os casos mais graves estão relacionados a pessoas não imunizadas?

Sim. Relatórios vindos dos Estados Unidos e do Reino Unido mostram que até 11 vezes mais pessoas que desenvolveram casos graves são as não vacinadas.

O senhor acredita na segurança da vacinação de crianças de 5 a 11 anos?

Sem dúvida, não podíamos ter adiado por conta de uma consulta pública que não tem comprovação científica nenhuma. A segurança foi comprovada e as doses estão entregues. Nos países que fizeram a vacinação, os efeitos de proteção foram constatados. O retorno às aulas sem a imunização de crianças nessa faixa etária é absurdo. Vamos colocar em risco não só as crianças, que já morreram pela covid, mas as famílias, porque as crianças podem pegar ou transmitir.

Existe um risco, com a não adoção da imunização das crianças, de existir uma nova variante que apenas as afete?

Sim, já existe. É nítido que a ômicron está atacando as crianças, que não estão vacinadas. As UTIs pediátricas do Reino Unido e dos EUA estão ficando lotadas. Estamos vendo o fenômeno ocorrer no Brasil, também, desde novembro, inclusive em Brasília.

É o momento de os governos adotarem medidas restritivas?

Sem dúvida. Infelizmente, as pessoas acreditaram em algumas versões de que a pandemia tinha acabado, e isso foi como um passaporte para que tivessem uma desculpa para que pudessem se aglomerar e participar de grandes festas no natal e ano novo. Com a alta da vacinação no Brasil, houve um álibi para as festas. Agora, temos que voltar com o uso de máscaras, remover aglomerações em jogos de futebol, cancelar todos os tipos de carnaval e festas privadas. Estamos em uma emergência novamente. Se não fizermos isso, vamos sobrecarregar o SUS e as pessoas podem até não morrer por covid, mas por falta de cuidados, como já aconteceu.

A postura do governo de combater vacinas e subestimar o número de mortes das crianças é um mau exemplo, não?

É a pior postura, talvez uma das piores do mundo. O presidente Jair Bolsonaro é, realmente, um caso à parte e vai ficar para a história. Ninguém nunca vai entender essa conduta, que é completamente fora dos níveis éticos e morais. O Brasil registrou números recordes em mortes por covid em grande parte por culpa dessa campanha negacionista do presidente.