Batalhas diárias contra o preconceito

Gabriela Chabalgoity*
postado em 02/04/2022 00:01
 (crédito:  Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

O olhar costuma evitar o contato direto; a hipersensibilidade à luz, som ou cheiro pode desencadear sobrecarga sensorial e as relações de amizade e de trabalho às vezes são um enigma. Cada pessoa dentro do Transtorno do Espectro Autista (TEA) tem um conjunto diferente de características de stims (movimentos repetitivos), hiperfocos e seletividade alimentar. No Dia Mundial de Conscientização do Autismo, celebrado hoje, a necessidade de combater a desinformação sobre o TEA é o principal esforço.

Estudante de fisioterapia, Vitória Félix, de 21 anos e moradora da Asa Sul, sofre com a falta de conhecimento da sociedade sobre o tema. "A questão é que as pessoas acreditam que nós, autistas, somos como uma receita de bolo. As pessoas falam que eu não tenho cara de autista, como se o TEA tivesse uma cara", explica.

Estudante de direito, Vinícius Europeu, 18, salienta que "muitos neurotípicos (pessoas sem autismo) têm uma visão muito fechada do que é o transtorno e criam muitas barreiras. Ou então, tentam justificar algum episódio ou erro dizendo que isso aconteceu devido ao autismo".

A mãe de Ricardo, de 8 anos, Tatiana Emos, vice-presidente da Comissão dos Direitos dos Autistas da subseção do Riacho Fundo I e II e Recanto das Emas, destaca que a luta é por um centro de tratamento para autistas de todas as idades. "Os autistas envelhecem e ficam adultos e, depois, idosos e sem intervenção. Isso gera uma série de problemas. Precisamos de um centro de tratamento com profissionais que possam atendê-los", alerta.

A luta pelo diagnóstico é árdua. Mariane Baltazar, moradora de Águas Claras, conta que Miguel, 8 anos, teve o diagnóstico fechado aos cinco. Uma das dificuldades, segundo ela, é que o filho busca a socialização com outras crianças. "Diferente dos outros autistas, que não têm esse comportamento, ele sempre quis conversar. Mas ele não entende muito bem o contexto social. Ele pensa que todo mundo é o melhor amigo dele. A terapia com ele é para encontrar esse outro equilíbrio", explica.

O pequeno André, filho de Ana Cláudia e Joaquim Bezerra, teve a condição de autista severo não verbal detectada com 1 ano e três meses de idade. Para eles, o segredo de um tratamento adequado passa pela aceitação, o envolvimento da família e a persistência — pilares, aliás, para lidar com o preconceito que ainda cerca o TEA.

"Nunca escondemos o André. Ele tinha 14 estereotipias, mas sempre falamos muito com as pessoas. Isso ajudou-o a se socializar e a inseri-lo sempre. Também buscamos escolas inclusivas, nas quais o bullying tinha sido extirpado da cultura da instituição", explicou Joaquim. (RM, EHP e MEA)

*Estagiárias sob a supervisão de Fabio Grecchi

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