Educação

Professor bom merece gratificação, diz estudo

Maria Eduarda Angeli*
postado em 07/04/2022 00:01

Um estudo inédito divulgado pela Escola Nacional de Administração Pública (Enap) e pelo Instituto Millenium revela que a qualidade dos professores pode afetar — e muito — a vida profissional dos estudantes. Segundo a pesquisa, um aluno poderia ter uma renda 8% maior (R$ 34,4 mil) no mercado de trabalho se tivesse contato com docentes de médio desempenho.

A análise, intitulada Grandes Mestres Fazem Grandes Diferenças? — Valorizando a contribuição do Professor para o desempenho do Aluno da Educação Básica, observa, por um lado, que aumentar o gasto público por estudante pode não se traduzir em melhor desempenho dos alunos. Por outro lado, mensurar a qualidade dos professores e estimar o impacto do ensino no progresso da futura geração é um importante passo no estímulo de práticas pedagógicas e de gestão educacional.

Autores do artigo, Diana Coutinho e Cláudio D. Shikida consideram um erro o sistema remunerar com o mesmo salário professores com diferentes níveis de formação e comprometimento. "Será que a qualidade dos professores é realmente similar a ponto de os salários entre eles serem tão parecidos? O estudo nos mostra que não, e também sinaliza que precisamos reconhecer e valorizar os melhores professores, inclusive financeiramente", afirma Coutinho, diretora de Altos Estudos da Enap.

O estudo aponta a necessidade de se repensar a contribuição do professor no desempenho dos alunos. Uma maneira seria adotar o chamado valor adicionado do professor (VAP) — um tipo de gratificação por desempenho profissional. A qualidade dos docentes seria definida a partir de critérios de experiência, idade e formação, por exemplo.

Um dos possíveis obstáculos para a adoção das medidas, observa a pesquisa, é a resistência apresentada por sindicatos a processos seletivos conduzidos com maior minúcia. Na visão de Diana Coutinho, a dificuldade de diálogo nesse sentido não é exclusividade da categoria. "Ninguém gosta muito de ser avaliado, não é uma questão exclusiva dos professores", argumenta.

Segundo Coutinho, a adoção do VAP tornaria necessária a criação de um "plano de desenvolvimento do professor" — programa que pode oferecer desde uma formação profissional até um período de mentoria.

A especialista alerta que, mantido o atual patamar, o ensino brasileiro ficará estagnado, assombrado pela piora enfrentada na pandemia de covid-19. "A gente andava evoluindo muito devagar. Tivemos escolas fechadas por dois anos e com grande impacto sobre a evasão escolar. A gente deve observar uma piora nos nossos níveis", prevê.

Cláudio D. Shikida demonstra preocupação. "As coisas precisam mudar. Do jeito que está, não dá para ficar", disse. "Sempre é possível melhorar. E melhorar não significa que vai ficar 100%, mas tentar diminuir a quantidade de imprecisão que existe", finaliza.

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