preconceito

Bolsonaro faz nova ironia racista com apoiador

ingrid soares isabel dourado* raphael pati*
postado em 13/05/2022 00:01
 (crédito:  Camara dos Vereadores de Holambra/Divulgação)
(crédito: Camara dos Vereadores de Holambra/Divulgação)

Um dia antes da data em que se celebra a abolição da escravidão no Brasil, o presidente Jair Bolsonaro (PL) ironizou, ontem um apoiador utilizando expressões de caráter racista. O episódio foi de manhã, na saída do Palácio da Alvorada.

O homem ao qual Bolsonaro se referiu é o presidente da Câmara Municipal de Holambra (SP), Mauro Sérgio de Oliveira (PTB), o Serjão, que é negro. Ele se aproximou do presidente, que, ao avistá-lo, perguntou:

"Conseguiram te levantar? Tu pesa o quê? Mais de sete arrobas? Sabia que eu já fui processado por isso? Chamei um cara de oito arrobas", ironizou Bolsonaro, lembrando quando foi denunciado pela Procuradoria Geral da República (PGR) por racismo quando era deputado federal.

A ação movida contra o presidente deveu-se a um comentário que fez, em 2018, durante evento na Hebraica, no Rio de Janeiro. Disse que as reservas indígenas e quilombolas atrapalhavam a economia do país e que, quando visitou um quilombo, viu que "o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada. Eu acho que nem para procriador ele serve mais".

Não foi o primeiro episódio em que Bolsonaro utilizou expressões preconceituosas contra seus próprios apoiadores. Em julho do ano passado, ao fazer um comentário sobre o estilo de cabelo de um jovem que esperava à saída do Alvorada, disse: "Como é que está a criação de barata aí?"

Denúncias

Só em 2021, o Ministério dos Direitos Humanos acolheu cerca de 1.016 denúncias de injúria racial contra pessoas pretas e pardas — que representam 56% da população brasileira. A maior parte dos registros foi feito em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

Em março deste ano, uma pesquisa realizada pelo Instituto Locomotiva ouviu 1.200 usuários de transporte público e 1.050 funcionários do setor, e revelou que 72% dos brasileiros já presenciaram racismo no transporte público e 39% foram vítimas do crime. Entre os que trabalham como cobradores ou motoristas, o número salta para 65%.

O professor de Direito da Universidade de Brasília (UnB), José Geraldo explica que o racismo no Brasil é componente de uma condição estrutural. "O Brasil foi um país que sofreu um experimento colonial e, como tal, a teoria afirma isso: enquanto modelagem colonial, os seus pressupostos de exploração como modo de produção se assenta no racismo, que serviu para hierarquizar as raças", destacou.

"É impossível falar do Brasil e tentar interpretá-lo sem falar da escravidão e, portanto, da questão de raça", afirmou Berenice Bento, socióloga e professora da UnB. Conforme avalia, a Lei Áurea, assinada em 13 de maio de 1888, foi importante, mas não pode ser considerada uma dádiva concedida pela princesa Isabel. "Não é possível dizer que não foi importante, no entanto havia uma demanda muito maior por parte dos abolicionistas que vinham lutando por esse direito", afirmou.

*Estagiários sob a supervisão de Fabio Grecchi

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